Um dos fenômenos que mais tem crescido mundialmente é o espalhamento das chamadas fake news, as notícias falsas. Esse comportamento social, estimulado e propagado principalmente pelas redes sociais, ganhou força durante a pandemia, quando, com muito tempo livre e confinadas dentro de suas casas, as pessoas voltaram seus olhos para a internet. Com o aumento das notícias falsas, vieram, conjuntamente, o aumento da paranoia, da síndrome de conspiração e de perseguição, o crescimento do negacionismo e a intolerância para se conversar socialmente. Tal fenômeno vem sendo observado com maior intensidade dentre a população mais velha, já aposentada. E é esse o mote do longa ‘Conspiradores’, sucesso recente que figura no Top 10 da Netflix.

Ruth (Stéphanie Magnin) é uma mulher que vive sua vida em Berlim, entre baladas e um trabalho que mal paga ela. Certa vez, é surpreendida por sua mãe, insistindo em falar com ela, ao que ela ignora durante toda a noite até que, na manhã seguinte, é avisada do súbito falecimento da mãe. Movida pela tristeza e pala culpa, Ruth volta à sua cidade natal, no interior da Espanha, para consolar o pai, Martín (José Coronado) e participar do funeral, porém, em poucos momentos em casa ela já percebe algo errado. Primeiro, os áudios enviados por sua mãe, dizendo desconfiar do marido, que havia algo estranho. Segundo, Ruth começa a ver com os próprios olhos o comportamento do pai, paranoico, atribuindo a empresas de cosmético o desaparecimento de crianças na região. Porém, o que poderia ser apenas uma cisma acaba se tornando uma verdadeira rede conspiratória, e, para salvar seu relacionamento com o pai, Ruth precisará investigar a fundo e descobrir até onde vai essa linha de pensamento.
‘Conspiradores’ não é um filme fácil – especialmente se você está lidando com alguém na família com o mesmo comportamento. São pessoas que conseguem traçar uma relação, ainda que improvável, sobre assuntos distantes e que, num vórtex de perseguição, atribui a todos aqueles que não seguem sua linha de raciocínio a taxação de serem alienados e inocentes. Ou seja, quem não compreende e repassa a paranoia, é burro. E, de alguma forma, o cérebro dessas pessoas atribui a si mesmas um comportamento heroico, de mártir; ou seja, uma vez que a maioria da população é alienada ou está de conluio com as empresas/governos, cabe a eles salvar a humanidade.

De uma maneira irritantemente verídica, o filme espanhol trabalha muito bem a construção dessa linha de pensamento, tão sutil quanto assustadora, e evidencia o entendimento, a realização e o espanto dessa filha que vê o pai se transformar em uma outra pessoa que não aquela de suas memórias. Está tudo ali: o falar agressivo, o isolamento, o perfil narcísico heroico, a conspiração somada da paranoia, a mania de perseguição, enfim, o combo completo.
Para se tornar um sucesso, ‘Conspiradores’ contou com três elementos: as ótimas atuações dos protagonistas José Coronado e Stéphanie Magnin, que conduzem as emoções dos expectadores nesse suspense psicológico de roer as unhas; o igualmente ótimo roteiro de Darío Madrona e de Carlos Montero, que trabalharam muito bem um dos sintomas sociais mais graves da contemporaneidade; e a direção de Roger Gual, que soube conduzir, através de seu elenco, o escalonamento das emoções e das situações ao ponto do absurdo e do irreversível, até culminarmos num final ainda mais absurdo – mas talvez não irreversível.
‘Conspiradores’ consegue ilustrar de maneira bem esclarecedora um dos fenômenos psicossociais mais graves com os quais estamos lidando nos dias de hoje, mas do qual quase nada tem se falado a respeito. Um filme que, através da ficção, acende o alerta sobre o comportamento social que estamos tendo que lidar – e que pode piorar ainda muito mais.



