Sim, a improvável história de amor entre um bad boy e uma mocinha inocente já foi retratada cinquenta mil vezes tanto no cinema quanto na literatura – e nem por isso a gente se cansa. Pelo contrário, apesar de ser um trope (um recurso narrativo cujo modelo ajuda o leitor/expectador a identificar mais facilmente a modelagem utilizada para conduzir a trama) bastante queridinho, fato é que quando se trata de um malvadão e uma mocinha (enemies to lovers, ou seja, quando um casal começa se odiando, até que por fim se apaixonam), a gente sempre quer mais. Até porque, em geral, a coisa toda fica bastante intensa. E é assim que estreia no próximo dia 20 de agosto nos cinemas brasileiros o romancezinho ‘Coração Partido’, que vai bem nessa pegada.

Polina (Veronika Zhuravleva) acaba de se mudar para uma nova cidade e descobre que o bonitão Bars (Daniel Vegas) é seu vizinho. Porém, ao chegar na nova escola, descobre, também, que Bars é seu colega de classe. Enquanto a tensão entre eles vai aumentando, cresce também a cisma e a inimizade das outras meninas na classe, que passam a praticar bullying com Polina. Para protegê-la, Bars comunica em público que a novata é sua namorada e que ninguém pode mexer com ela. Apesar disso, há muita gente de olho em destruir a felicidade dos namoradinhos fake, e, enquanto Polina e Bars vão aos poucos descobrindo o amor um com o outro, outras pessoas farão de tudo para separar os pombinhos.
Baseado no romance de Anna Jane (Your Heart Will Be Broken), o filme russo tem surpreendentes duas horas e cinquenta e cinco minutos de duração – longo demais, para um romance jovem a ser exibido nas telonas. Ainda assim, parece que mesmo com a extensão a mais a produção fica faltando em alguns pontos, e sobrando em outros. Por exemplo, toda a longa sequência da protagonista sofrendo bullying (bem pesado, aliás) na escola passa uma sensação de repetição, mas, em contrapartida, a motivação para que esses jovens estarem fazendo isso com ela fica um tanto vago, parecendo pequeno diante das atrocidades cometidas.

Mesmo se tratando de um romance jovem, o filme ainda tem uma subtrama que, por si só daria uma outra produção – porém, como fica numa terceira camada, apenas fica pouco desenvolvida. Estamos falando das muitas violências contra a mulher que ocorrem no filme, tanto do padrasto contra a enteada, de meninos e meninas uns com os outros, de homens que se valem da força para intimidar jovens meninas. Retratado com profundidade, ficou faltando uma boa reviravolta da protagonista diante de todos os abusos sofridos, pois a resolução de tudo se dá por elementos externos às ações de Polina – o que acaba enfraquecendo a personagem.
As atuações do elenco não é lá premiável, mas também não fica abaixo do que se espera de um filme cujo objetivo principal é entreter e engajar o público que tornou o livro um sucesso de leitura. Ainda que um tanto caricatos, há um certo guilty pleasure em ver principalmente o casal protagonista ora se roendo, ora se mordendo. Afinal de contas, um menino malvadão e uma menina boazinha sempre vão gerar tensão entre eles, e acompanhar essa tensão até que um dos dois ceda sempre será o maior prazer de quem curte esse tipo de história.
Mais pesado do que parece e com intensão de se tornar franquia, o filme russo ‘Coração Partido’ traz exatamente os elementos que o público-alvo deseja nesse tipo de produção. Se se deixar os preciosismos de lado e baixarmos o sarrafo, encontrar-se-á em ‘Coração Partido’ um filminho pipoca desses viciantezinhos que ainda traz, de bônus, alguma reflexão. Para ver sem culpa de se apaixonar pelo lobo-mau.



