Texto livre de spoilers.
Depois de falhar em estabelecer um universo de sucesso nos cinemas e até mesmo na televisão, o agora extinto DCEU foi reformulado com a escalação de James Gunn e Peter Safran como co-CEOs da Warner Bros. Studios – e, dessa forma, responsáveis por revitalizar um dos panteões mais conhecidos do gênero de super-heróis. Em 2024, a dupla de realizadores deu início ao DCU com o lançamento da série animada ‘Comando das Criaturas’, que teve uma ótima recepção crítica e comercial e funcionou como o pontapé inicial de um novo cosmos que seria acompanhado pela 2ª temporada de ‘Pacificador’ e pelo lançamento do elogiado ‘Superman’ em 2025.
Ainda que as expectativas permaneçam altas para ambiciosos projetos a encargo de Gunn e Safran, o DCU já enfrentou seu primeiro obstáculo com o decepcionante ‘Supergirl’. Estrelado por Milly Alcock, o longa-metragem sequer cumpriu com as expectativas e se tornou um dos maiores fracassos deste ano, apesar das boas intenções e do comprometimento do elenco – o que levantou dúvidas sobre o futuro do universo. E, com a iminente chegada da série ‘Lanternas’, não podemos deixar de navegar com passos cautelosos para essa nova empreitada que estreou hoje, 16 de agosto, na HBO e no catálogo da HBO Max. Felizmente, a atração criada por Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King não só acerta em quase todos os elementos, mas também irrompe como um dos melhores títulos de 2026.
O capítulo de estreia nos apresenta a uma realidade onde a organização dos Lanternas Verdes – uma corporação de vigilantes super-heroicos que juraram proteger a galáxia – é amplamente conhecida por todos, inclusive na Terra. Desejando integrar esse grupo de justiceiros, está John Stewart (Aaron Pierre), aprendiz de um dos Lanternas mais populares e célebres de que já ouvimos falar, Hal Jordan (Kyle Chandler). Desde criança, John sempre sonhou ser guiado por um de seus ídolos e, agora, ele se tornou o primeiro membro da corporação a ser recrutado pelos Guardiões do Universo em vez de ter sido escolhido pelo anel de poder, como é de costume.
Porém, nem tudo são flores: John percebe que sua idealização sem limites da figura de Hal é algo potencialmente problemático, ainda mais quando os dois são escalados para investigar um misterioso assassinato em Rushville, Nebraska, cujo caso aponta para uma atuação extraterrestre e que pode colocá-los em perigo. Em constante conflito com a personalidade irrefreável e dissidente de Hal, John tenta permanecer fiel ao seu principal objetivo – mas a vida dá uma guinada inesperada quando artimanhas e conspirações vêm à tona e colocam em xeque tudo aquilo em que acreditou desde o princípio.
Como já mencionado, cada elemento de ‘Lanternas’ funciona como deveria, oferecendo uma perspectiva diferente em relação às outras produções do DCU, mas sem desmantelar a identidade que vem se formando neste primeiro capítulo do panteão (conhecido como ‘Deuses & Monstros’). Lindelof e King, que definitivamente não são estreantes nas adaptações de HQs de super-heróis, aliam-se ao talento de Mundy, assumindo a cadeira de showrunner, para um drama épico neo-western que reúne os conhecidos tropos dos múltiplos gêneros que explora em uma confiante e interessante narrativa que leva o tempo necessário tanto para construir seus personagens quanto para nos envolver em um delicioso e saboroso suspense.
É notável como Gunn e Safran, por mais que já tenham tropeçado em algumas escolhas controversas, têm um apreço significativo em trazer algo de novo – e, aqui, essa originalidade emerge com múltiplas homenagens que adornam esse envolvente e instigante enredo. A inóspita e árida fotografia assinada por Armando Salas e Florian Hoffmeister resgata a glória da antologia ‘True Detective’, em especial à primeira e à quarta temporadas em dois extremos gritantes e que refletem o cíclico vórtice de segredos a que John é arrastado; a acidez dos diálogos, assinados pelo trio de criadores no episódio piloto, traz os conhecidos aspectos de obras como ‘Slow Horses’ e ‘Godless’ através de estilizados enfeites que reafirmam a complexidade dos personagens principais e coadjuvantes; e, ao apoiar-se na sólida direção de James Hawes, um esplendoroso banquete dispõe-se à frente dos telespectadores e nos deixa muito animados para saber o que acontecerá nas próximas semanas.
É impossível tecer os incontáveis elogios à série sem mencionar o trabalho do elenco: Chandler e Pierre, fixados em seus próprios arcos e desfrutando de uma impecável química quando dividem as telinhas, promovem uma “redenção” à icônica mitologia envolvendo os Lanternas Verdes (principalmente quando nos recordamos com tristeza e rancor do péssimo filme lançado em 2011) e firmando uma parceria duvidosa, mas funcional, entre Hal e John. A premiada Kelly Macdonald também nos encanta como a xerife de Rushville, Kerry, que apenas tenta cumprir com suas tarefa à medida que caminha sobre ovos com a presença ameaçadora e quase onisciente do sogro, William Macon (Garret Dillahunt); e Poorna Jagannathan, que ganhou fama por comédias como ‘Eu Nunca…’ e ‘Deli Boys’, mostra que nasceu para imortalizar personagens mais complexas ao interpretar a ousada Zoe.
Após a decepção massiva de ‘Supergirl’, James Gunn e Peter Safran se aliam com um time extremamente habilidoso e talentoso para ‘Lanternas’, que já se configura como uma das melhores entradas do recém-nascido DCU e que se beneficia de um comprometimento artístico ímpar e apaixonante para nos engajar no que pode se transformar em uma das séries mais aplaudidas do ano.
Lembrando que o próximo capítulo vai ao ar no dia 23 de agosto.


