Apesar de ser conhecido por seu trabalho como designer de moda, o prestigiado Tom Ford se aventurou no mundo do cinema e fez sua estreia como diretor em 2009 com o drama romântico ‘Direito de Amar’. Sete anos mais tarde, o realizador entregaria um dos melhores e mais controversos filmes da década passada com o potente thriller ‘Animais Noturnos’ – que causou uma comoção considerável entre o público e a crítica e, dez anos depois de seu lançamento, permanece como uma das produções mais subestimadas da memória recente (além de ter ajudado a cimentar a visão única de Ford como artista).
A trama, baseada no romance ‘Tony & Susan’, de Austin Wright, é centrada em Susan Morrow (Amy Adams), dona de uma galeria de arte que parece ter encontrado uma melancólica complacência em sua vida abastada. Mesmo conquistando reconhecimento considerável no efervescente mundo artístico, Susan se vê em um impasse com seu atual parceiro, mergulhando em um vórtice deteriorado e inescapável – isto é, até receber um manuscrito assinado pelo ex-marido Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), com quem não fala há mais de vinte anos.
Intitulado Animais Noturnos, o romance ainda não publicado acompanha Tony Hastings (também vivido por Gyllenhaal), um motorista que sai de férias com a esposa, Laura (Isla Fisher), e a filha, India (Ellie Bamber). Durante uma viagem pela inóspita região interiorana do Texas, Tony é forçado a parar seu carro no acostamento da estrada pelo sádico Ray Marcus (Aaron Taylor-Johson) e por seus capangas. Sem conseguir impedi-los, Tony vê Laura e India serem raptadas por Ray e, depois de ser abandonado no meio da rodovia, ele escala o Detetive Bobby Andes (Michael Shannon) para encontrá-las – eventualmente descobrindo que as duas foram violentadas e assassinadas, com seus corpos abandonados nas ruínas de uma construção. Não demora muito até o homem partir em um ímpeto de vingança, apenas para encontrar sua própria ruína.
À medida que mergulha na derradeira narrativa que Edward criou, Susan começa a suspeitar de que as desavenças que teve com ele podem estar refletidas no arco de cada um dos personagens. Susan vê o turbulento matrimônio com o escritor ganhando forma no livro em uma espécie de “quieta vingança”, rememorando as frustrações que sentia com as aspirações artísticas de Edward e até mesmo o fato de ter ser envolvido com seu atual marido enquanto estava com ele – incluindo a decisão de encerrar uma gravidez para não ter quaisquer tipos de vínculo. E, à medida que se vê transcrita na construção de Laura, ela mergulha em um questionamento letárgico que a faz duvidar das próprias conquistas.
Ford não constrói apenas um dos melhores suspenses dos anos 2010, como convida o público a uma catártica experiência psicológica ao usar e abusar do talento de cada um dos nomes envolvidos. O diretor traz sua bagagem como estilista em sequências que singram entre a apatia do deserto norte-americano e o constante perigo em que os personagens se envolvem, selecionando o vermelho como cor-guia e como elo entre a realidade e a ficção. Esse paralelo existe, inclusive, na seleção de Fisher como contraparte de Adams, garantindo que um seja complemento da outra em uma simbiose performática de tirar o fôlego.
A crueza e a visceralidade com que o cineasta brinca com a exploração da mente humana é tópico de discussão e controvérsia, com certos comentários infundados caracterizando o projeto de Ford como “imbuído em ginofobia” – o que, na verdade, é o que torna a construção de Edward mais complexa. Recusando-se a aceitar o término de uma relação que não existia há muito tempo, ele cria Laura como uma vendeta pessoal contra Susan em uma materialização do conceito de masculinidade frágil. A protagonista, por sua vez, é arrebatada por um crescente medo que inclusive a compele a se encontrar com Edward em uma longa cena de conclusão que coloca um ponto final num enlace destrutivo e autodestrutivo.
Adams reitera seu status como uma das maiores performers da geração e da atualidade com uma rendição que, assim como seu trabalho no ótimo sci-fi ‘A Chegada’, foi completamente ignorada do circuito de premiações, nos envolvendo em uma potente e crescente insanidade que se transforma Susan num emblema emocional para os outros personagens. Aliás, com exceção de Shannon – que conquistou uma indicação a Melhor Ator Coadjuvante no Oscar -, as poderosas atuações de Taylor-Johnson, Gyllenhaal e Fisher foram deixadas de lado, talvez pelas inexplicáveis polêmicas que acompanharam o filme.
Ainda assim, ‘Animais Noturnos’ é um projeto que merece ser apreciado em sua completude e analisado de um ponto de vista muito particular que, diferente do que parece, mostra como o machismo estrutural se estende das mais diversas formas numa sociedade que parece imutável.


