Anya Taylor-Joy se tornou um dos nomes mais conhecidos do cenário do entretenimento e, em pouquíssimo tempo de carreira, sagrou-se uma das grandes atrizes da atualidade. A performer ganhou notoriedade por seu impecável trabalho no terror ‘A Bruxa’, que não apenas é considerado um dos grandes filmes do gênero da década passada, como garante à artista um dos melhores trabalhos artísticos da memória recente. Pouco depois, ela foi escalada para produções como ‘O Gambito da Rainha’, que lhe rendeu uma vitória no Globo de Ouro, o suspense neo-noir ‘Noite Passada em Soho’, o thriller de super-heróis ‘Os Novos Mutantes’ e os épicos ‘Furiosa: Uma Saga Mad Max’ e ‘Duna’.
Neste ano, Taylor-Joy voltou a trabalhar sob o selo do Apple TV com a minissérie de suspense ‘Lucky’ – título que mais uma vez ajudou a reiterar sua irretocável e apaixonante capacidade camaleônica e a colocou no centro de um dos melhores títulos de 2026. Estendendo-se ao longo de sete episódios, cuja estreia se deu em meados de julho, a atração se apoiou no talento de um elenco estelar e nas habilidades inegáveis de uma competente e criteriosa equipe técnica e narrativa para nos levar a uma jornada pelo deserto de Las Vegas e mergulhar no ardiloso mundo da máfia de maneira espetacular e extremamente aprazível.

A trama é centrada em Luciana “Lucky” Armstrong (Taylor-Joy), uma golpista que, prestes a começar uma nova vida fora dos Estados Unidos e longe de qualquer um que pudesse lhe fazer mal, percebe que foi enganada quando o noivo, Cary Masterson (Drew Starkey), some com milhões de dólares e a deixa sozinha na suíte presidencial de um luxuoso cassino. E isso não é tudo: ela está sendo caçada pela perigosa Priscilla Masterson (Annette Bening), mãe de Cary e chefona do crime a quem Lucky deve muito dinheiro; e pela Agente Billie Rand (Aunjanue Ellis-Taylor), oficial do FBI que está no encalço do casal há muitos anos e que, quando acredita estar perto de alcançá-los, é deixada para trás comendo poeira.
A partir daí, Lucky é forçada a adotar, à risca, todas as regras de sobrevivência ensinadas pelo pai, John Armstrong (Timothy Olyphant), que cumpre sua pena na cadeia – tanto para não ser pega quanto para poder se reerguer mais forte do que nunca, singrando pela inóspita região de Nevada ao passo que tenta escapar de uma prisão sem grades que fecha o cerco sobre ela minuto a minuto. E, valendo-se de clássicas homenagens às produções do gênero, a minissérie do Apple TV irrompe em uma sutil beleza cênica que não nos deixa piscar um segundo e que sabe dosar elementos de ação, drama e suspense de maneira cirúrgica.

Cada elemento dessa empolgante odisseia contemporânea é pensado com minúcia e, de certa forma, oferece uma credibilidade mais palpável às incontáveis histórias sobre golpistas do cinema e da televisão – e tudo isso é cortesia do criador Jonathan Tropper, que se apossa dos escritos de Marissa Stapley de maneira honrosa e muito saborosa. O realizador, conhecido por seu trabalho em produções como ‘Banshee’ e ‘Warrior’, tem uma carreira considerável em meio a obras que exploram o mundo do crime, tendo, inclusive, navegado pela divertida e ácida narrativa de ‘Seus Amigos e Vizinhos’, também da gigante do streaming. Aqui, sua ideia é oferecer não só um sólido tour-de-force seriado, mas um estudo de personagens que se canaliza para o corpo de atores.
Tropper não está sozinho nessa empreitada e alcança sucesso ao escalar os nomes corretos a cada cadeira dos bastidores. Seja com o time de roteiristas e diretores, que mantêm a coesão entre os capítulos, seja com a vibrante e sufocante fotografia de Yaron Orbach e Doug Emmett, que inclusive trazem elementos de produções de Clint Eastwood e Vince Gilligan às telinhas, o realizador mostra um apreço significativo pela fluidez, em contraposição à truculência da jornada em que Lucky é arremessada – e faz isso singrando por uma falsa sensação de moralidade e de segurança que, pouco a pouco, se desmantela bem à frente dos personagens.

Falar do trabalho de Taylor-Joy parece desnecessário, mas aplaudir seu talento nunca é uma tarefa cansativa – e, aqui, a atriz diverte-se do começo ao fim ao encarnar uma complexa personagem que não é pintada, em qualquer momento, como heroína. Muito pelo contrário, a narrativa deixa muito claro que Lucky não é nenhuma “flor que se cheire” – mas o carisma da atriz a remodela em uma persona magnética pela qual torcemos do começo ao fim. E, acompanhando-a nessa investida, Bening praticamente garante uma indicação ao Emmy por sua rendição como a temerosa Priscilla, enquanto Olyphant eterniza o charmoso John em suas breves aparições. Ellis-Taylor, Starkey e Clifton Collins Jr. (este interpretando o braço-direito de Priscilla, Harris Dutch) também brilham em seus respectivos arcos e servem como combustível para o explosivo enredo.
‘Lucky’ é mais uma adição muito bem-vinda ao extenso e expansivo catálogo do Apple TV, ajudando a plataforma a reclamar uma coroa que praticamente lhe pertence por direito. Através de sete episódios, a minissérie criada por Jonathan Tropper encontra sucesso em sua honestidade e em seu valor de entretenimento – tudo isso guiado por Anya Taylor-Joy em seu melhor.


