Logo no meu primeiro filme do Festival Kinoforum 2026, na confortável sala grande otelo da cinemateca brasileira, fiquei de frente com o encantador curta-metragem alagoano O Mapa em que estão meus Pés, uma obra que estica a corda das possibilidades ao utilizar, com muita delicadeza e eficiência, a linguagem cinematográfica, transformando detalhes de uma saudade em fortes significados que vão de encontro a uma história familiar do diretor desta obra, Luciano Pedro Jr.
Guiado por uma narração que amplifica o eu-personagem, imergindo nas memórias e explorando os conflitos emocionais através do conhecimento de uma história, chegamos até a história de um homem que, após perder a esposa, parte sozinho por uma caminhada em busca de compreender o próprio luto, através de uma viagem de volta a uma cidade da conhecida rota ecológica dos milagres: Porto de Pedras, em Alagoas.
Selecionado para a ‘Mostra Brasil 1 – Álbuns Incandescentes’ de um dos maiores festivais de curtas-metragens do planeta, o, já mencionado Kinoforum, O Mapa em que estão meus Pés encontra sua poesia em um emaranhado fascinante entre o fato e a imaginação. Ao explorar uma história da própria família, o diretor abre o coração e apresenta sua memória afetiva potencializada pelo super-8, unindo seu entendimento do concreto dos acontecimentos ao que surge e envolve o complexo abstrato das dores que insistem em permanecer abertas.
Há muitas formas de você se identificar com este projeto. Nos desabafos em forma de saudade, a tristeza encontra a esperança nas lembranças do passado, como uma última chama acesa sobre o desejo de ir ao encontro desse lembrar. A relação com o lugar, vira um ponto-chave, funcionando como uma mola propulsora e um alicerce da relação entre tempo e espaço. Tudo isso é distribuído em uma montagem eficiente e organizada, que atinge seus significados, desabrochando a reflexão para vários cantinhos que se abrem ao longo de 13 minutos.


