Crítica | ‘A Garota do Remo’: Netflix se entrega para o universo teen com apaixonante série para os órfãos de ‘Off Campus’

Esportes de alta performance se transformando em genuínos delírios românticos, consolidados em produções que dessa vez acenam para um novo perfil de jovem adulto. É, o subgênero teen já viu dias bem diferentes. Enquanto os anos 90 traziam consigo a essência do grunge imprensa nas comédias românticas – impregnando da moda à escolha dos galãs de seus filmes -, a década atual percorre um outro caminho. Esqueça a beleza desestruturada de Heath Ledger em ‘10 Coisas que Eu Odeio em Você‘ e o jeito desleixado de Paul Rudd em ‘As Patricinhas de Beverly Hills’. Em 2026, a cultura POP arrastou a indústria wellness e fitness para dentro de suas histórias românticas.

É dessa nova fusão que o universo Young Adult se alimenta, fazendo de ‘Off Campus’ uma das maiores sensações do ano, nascida quase como uma herdeira da badalada Rivalidade Ardente’. É entre esses dois sucessos — e a imensidão de novos títulos anunciados pela Prime Video — que a Netflix tenta criar seu próprio mundinho teen, com histórias mais leves, romances açucarados e censura baixa. E nessa brecha que surgiu no espaço-tempo, as comédias românticas buscam seu retorno à glória através do streaming, em narrativas longas, de degustação lenta e de relacionamento sério com a audiência. Assim chega ‘A Garota do Remo‘, como um flerte despretencioso que rapidamente cresce como uma enorme paixão.

O formato é conhecido, os tropos são bem antigos e a dialética da história segue um molde pré-estabelecido com o qual estamos bem acostumados. Ainda assim, a mais recente aposta da Netflix é capaz de nos surpreender pela simplicidade de sua narrativa. Em tempos em que o entretenimento tem sido usado como bucha de canhão para diversos tipos de agenda, ‘A Garota do Remo’ é um sopro de frescor que desvia dos tradicionais problemas que temos testemunhado em muitos filmes e séries.

Com a sombra de Mary Sue ainda pairando em Hollywood, muitas produções com protagonistas femininas têm fracassado por justamente minimizar a importância da construção de suas personagens e por subjugar a audiência a aceitar qualquer meia-verdade mal contada em suas tramas. Diante desse desafio e da enorme tentação de ceder ao agridoce fruto da escrita preguiçosa e pretenciosa, ‘A Garota do Remo’ investe seu tempo em seus personagens, constrói dinâmicas fluidas e interessantes e não tenta nos convencer de nada a qualquer momento.

Apresentando roteiros bem elaborados sem se complicar com existencialismos desnecessários, a série traz sua dose de drama, que por fim é sempre diluída na comédia leve e juvenil que dita o ritmo geral da trama. Seus oito episódios nos envolvem profundamente, a partir do amadurecimento cirúrgico de seus personagens – que ainda padecem dos hormônios aflorados e efervescentes naturais da adolescência. E sob todo esse contexto, o remo entra como o fio condutor de todos os arcos, nos convidando a admirar esse esporte tão distante da cultura brasileira, mas tão belo em seus princípios fundamentais.

Explorando a ética, a moral e o senso comunitário através do esporte, a produção ainda consegue suplantar seu próprio gênero, saindo de sua zona de conforto em se tratando da densidade de sua trama. Não se curvando à facilidade de ser “apenas” uma série teen, ‘A Garota do Remo’ nos gera valor. Com um talentoso elenco jovem, ela sabe esmiuçar bem os dilemas da chegada de uma garota em um ambiente confortavelmente masculino. Com sensibilidade e destreza para trabalhar cada miudeza dessa famigerada “guerra dos sexos”, a original Netflix é impecável no que se propõe, desperta a curiosidade a cada capítulo e, no fim, prova que algumas paixões adolescentes não desaparecem: apenas encontram uma nova história para chamar de sua.

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