Crítica ‘Resident Evil’ | Zach Cregger acerta novamente com o ousado e SANGRENTO reboot

Atenção: spoilers da trama à frente.

É um fato dizer que as tentativas de levar a franquia Resident Evil para os cinemas não encontraram o sucesso prometido. A primeira adaptação fílmica veio em 2002 com o lançamento de Resident Evil: O Hóspede Maldito’, apresentando-nos a Milla Jovovich como Alice, uma ex-funcionária da Umbrella Corporation que se transforma em uma arma mortal que combate o T-Vírus. Apesar de ter feito um sucesso considerável de bilheteria, a recepção crítica foi bastante negativa – o que compeliu a Constantin Films, detentora dos direitos intelectuais da saga, a apostar em outros dois projetos que também falharam em honrar os games: ‘Bem-Vindo a Raccoon City’, que trouxe várias referências ao jogos, mas não conseguiu entregar ao público uma boa história; e a esquecível produção Resident Evil: A Série’, da Netflix, que foi cancelada depois de uma temporada.

Agora, somos convidados a mais um reboot da icônica franquia de terror com o iminente lançamento de um longa-metragem comandado pelo aclamado realizador Zach Cregger. Intitulado Resident Evil e ambientado paralelamente aos eventos do jogo Resident Evil 2’ (mas pincelados com uma atmosfera contemporânea), a trama é centrada em Bryan (Austin Abrams), um entregador de produtos médicos que aceita levar uma carga prioritária para o Hospital de Raccoon City. Sem saber o que o pacote contém, ele embarca em uma perigosa jornada pelas montanhas nevadas para concluir o trabalho e voltar para casa – onde sua namorada grávida o espera para discutirem sobre o futuro.

Porém, Bryan não imagina que sua vida está prestes a virar um pesadelo inescapável quando, durante a viagem, ele atropela uma mulher que aparece em plena estrada. Ele, então, resolve levá-la para os médicos locais – mas não pode deixar de notar que ela se comporta de uma maneira muito estranha, contorcendo-se como uma criatura. Após cruzar caminho com um policial, as coisas escalonam exponencialmente, colocando-o frente à frente com um surto viral que transforma as pessoas em monstros e que destruiu Raccoon City – deixando um pequeno grupo de cientistas a salvo, esperando pela cura que está nas mãos do jovem.

Cregger ganhou reconhecimento significativo após comandar o ótimo thriller de terror Noites Brutais, que chamou a atenção dos cinéfilos e da crítica pela construção sinestésica do suspense e por uma construção cênica bastante “elegante”, por assim dizer, afastando-se de convencionalismos e ousando onde possível para oferecer uma certa originalidade ao gênero. Pouco depois, ele cimentou sua carreira com o sci-fi ‘Acompanhante Perfeita’ e o mistério sobrenatural A Hora do Mal – este concedendo a Amy Madigan o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante; logo, não é nenhuma surpresa que ele tenha sido escalado para comandar o novo reboot.

O diretor, que também fica responsável pelo roteiro ao lado de Shay Hatten, aposta não só em um interessante enredo que, de certa forma, é pautado numa “jornada do herói” deturpada e remodelada em um arco de sobrevivência, como constrói um espetáculo visual que finca os dentes num ótimo uso de cores e luzes – contrastando dois momentos bastante distintos do projeto que coloca o protagonista em situações constantes de perigo. O primeiro deles introduz Bryan à inospitalidade da natureza em contraste com os temores que se escondem na escuridão; o segundo, por sua vez, emerge como uma resposta à desmedida ambição humana e ao cruel destino a que todos caminhamos – pegando páginas emprestadas do body horror de David Cronenberg para delinear o longa.

Cregger escala Dariusz Wolski para guiar uma irretocável fotografia, que se mantém fiel à identidade ácida do cineasta – com pequenos planos-sequência que fogem das fórmulas do jumpscares e ajudam a criar uma expectativa derradeira que nos prepara para cada um dos monstros enfrentados por Bryan. Não é surpresa que a dupla tenha uma afeição considerável pelo panning e pelo uso de plongées e contra-plongées absolutos, encontrando simetria em uma ambientação marcada pelo caos e pelo perigo. E, como a cereja do bolo, Hays Holladay e Ryan Holladay assinam uma angustiante trilha sonora movida pelo minimalismo das cordas, nos convidando a uma experiência sensorial que se estende por breves noventa minutos de tela.

Há alguns elementos que deixam a desejar, como é o caso de um constante “monólogo interior” verbalizado em frases repetidas pelo personagem principal. Todavia, à medida que o filme se desenrola, percebemos que essa “autoconversa” é proposital, considerando que Cregger arquiteta uma homenagem a clássicos games ao optar pela câmera em primeira pessoa e por uma história dividida em missões a serem cumpridas pelo nosso “herói” – utilizando a presença de nomes como Zach Cherry, Kali Reis e Paul Walter Hauser como espécies de NPCs que preparam terreno para explosivas cenas de ação e uma conclusão esperada, mas bem melancólica.

Resident Evil pode causar uma certa reação controversa nos cinéfilos e nos fãs de longa data dos jogos originais, principalmente por apresentar uma narrativa inédita e por trazer às telonas um sardônico humor que, ao mesmo tempo, quebra e reitera a atmosfera de tensão. Entretanto, é inegável dizer que Zach Cregger fez o impossível e quebrou a maldição da franquia de terror ao nos presentear com mais uma sólida entrada de sua exemplar carreira.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.