Primeiras Impressões | ‘Desaparecida’ é um inebriante thriller de mistério encabeçado pela SUBLIME atuação de Patrick Brammall

Atenção: o texto a seguir discorre sobre os dois primeiros episódios da atração.

Semana a semana, o Apple TV continua a reiterar seu inegável status no cenário contemporâneo do entretenimento, entregando materiais de ótimo valor de entretenimento e artístico. A encargo de exemplificação, a gigante do streaming quebrou o recorde de vitórias na última cerimônia do Emmy Awards, conquistando 29 estatuetas e trazendo ‘O Segredo de Widow’s Bay’ como carro-chefe da temporada de premiações. E, como bem sabemos, os realizadores contratados pela plataforma tem um apreço significativo por histórias de suspense e mistério – motivo pelo qual a recente estreia da minissérie australiana Desaparecida (‘Last Seen’, no original em inglês) chamou a atenção dos assinantes.

Estrelada por Patrick Brammall em uma das melhores performances de sua carreira, a trama é inspirada no romance The Dispatcher, de Ryan David Jahn, e acompanha Ian Ridley, um ex-policial que, após ter sua filha sequestrada, se rendeu ao abuso de álcool, perdendo o emprego, a esposa, afastando-se do filho mais velho e, tentando se reerguer, agora trabalha como operador de emergências do serviço de resgate e policiamento de uma pequena cidade litorânea de Port McKenna. 

Recuperando as rédeas de uma vida desmantelada e marcada por traumas, Ian vê tudo virar de ponta cabeça quando, durante o trabalho, um corpo é encontrado numa floresta próxima, levando-o a acreditar que ele pertence a Maggie, desaparecida há mais de uma década. Arrastado para um frustrante torpor de impotência, Ian se recusa a acreditar naquilo, utilizando suas habilidades como ex-oficial de justiça para, de fato, encontrar quem foi responsável pela maior tragédia que passou – até receber uma misteriosa ligação de uma jovem em pânico que pode muito bem ser sua filha perdida. E, considerando que apenas dois capítulos da série estão disponíveis na plataforma, já é possível dizer que a produção é uma das mais enervantes do ano, por mais que alguns vícios de linguagem precisem ser podados para as próximas semanas.

A obra foi criada por Kris Mrksa, conhecido por seu trabalho em outros dramas criminais como ‘Requiem’ e ‘Protection’. Responsável pelo roteiro dos episódios de estreia, Mrksa tem total controle sobre os arcos dos personagens e aposta fichas em um enredo slow-burn que toma o tempo necessário para se desenrolar, mas sem se estender demais em momentos melodramáticos ou se alongar em cenas demasiadamente longas e reflexivas – que não têm qualquer lugar num projeto deste calibre. Pelo contrário, o realizador oferece um estudo de personagens guiado pela incrível presença de Brammall como o complexo e falho Ian, cujas atitudes, de certa maneira, abrangem cada um dos núcleos narrativos delineados aqui.

A atmosfera cênica de Desaparecida remonta outros thrillers de investigação que ganharam popularidade nos últimos anos, com destaque às referências que Mrksa pega de Brad Ingelsby e de produções como ‘Mare of Easttown’ e ‘Task: Unidade Especial’ – desde a seleção de uma cidade interiorana marcada pelo trauma e por segredos que pouco a pouco são desenterrados pelos protagonistas e coadjuvantes, até a fotografia ambígua de Bonnie Elliott, que isola Ian em um conturbado arco de redenção e pincela boa parte das sequências com uma falsa sensação de paz que se transforma em um antro conspiratório que com certeza irá escalar a níveis estratosféricos e trágicos nas próximas semanas – principalmente com o espetacular gancho do segundo capítulo.

Como já mencionado, Brammall nos presenteia com uma performance esplêndida, recusando os maniqueísmos de “herói” e “vilão” e apostando numa construção intrincada de um homem que não quer e não irá desistir – por mais que isso custa a frágil relação com a ex-mulher e com o filho, interpretados por Jessica Wren e Tobias Mujahidin, respectivamente. Acompanhando-o nesse pungente tour-de-force, temos a presença marcante de Brendan Cowell e Maxine Peake como Henry e Jenna Reid, um casal fundamentalista recluso que mantém Sarah (Chloe Jean Lourdes), outrora conhecida como Maggie, em um cativeiro inconsciente, impedindo-a de ter contato com o mundo exterior – até que seja tarde demais.

Mesmo não conseguindo desviar de todas as fórmulas do gênero e tropeçando aqui e ali, Desaparecida é uma sólida adição ao quase irretocável catálogo do Apple TV, mostrando que mesmo histórias bastante conhecidas no cenário do entretenimento podem oferecer algo de novo e interessante quando uma boa equipe une forças e se joga de cabeça em um comprometimento inescapável e muito envolvente.

Lembrando que o próximo episódio vai ao ar amanhã, 16 de setembro.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.