A sugestão pode ser a alma de todo bom suspense. Chegando de mansinho, sem grandes repercussões, ao catálogo do Filmelier Plus neste setembro recheado de filmes interessantes sendo adicionado aos catálogos dos streamings, a coprodução britânica/polanesa Bom Garoto costura uma trama repleta de sugestões, em que o fugir ganha força apenas na realidade sóbria (complexo, né? Calma que vou explicar!).
Com algumas balanças para tratar a psicopatia sob algumas perspectivas, a obra dirigida pelo craque Jan Komasa, mergulha em um perturbador jogo de manipulações, caminhando por uma pressão emocional que foge da previsibilidade, sugerindo ações e motivos, se tornando rapidamente complexo, de forma a romper camadas.

Tommy (Anson Boon) é um jovem arruaceiro e briguento que faz o que quer durante as noitadas descontroladas pela cidade onde mora. Um dia, ele é sequestrado por Chris (Stephen Graham), um homem pacato que praticamente se esconde com sua esposa, Kathryn (Andrea Riseborough), e o filho, Jonathan (Kit Rakusen), em uma casa enorme e isolada. Ao mesmo tempo, uma imigrante ilegal é forçada a trabalhar para a família. Assim, nessa dinâmica disfuncional, Tommy enfrentará os jogos psicológicos que lhe são propostos.

O personagem principal se vê numa gangorra macabra. Se ficar, não sabe o que vai acontecer. A solução de fugir significa abraçar a vida que levava. Mas a grande questão é a conscientização. Não fica claro se o personagem chega até alguma, mas a possibilidade dessa estrada lhe é oferecida, mesmo que por meios extremos.

Por isso, posso afirmar que esse filme é uma visão pessimista sobre a sociedade quando pensamos sempre, principalmente após algum abalo, nas punições e escolhas, como se ser justiceiro e se distanciar das formas de condenações previstas pelas leis bastassem.
Crítica | ‘O Aniversário’ – Um filmaço provocativo e com ares nem tão distópicos
Ao longo de suas quase duas horas de projeção, a obra também atravessa o conceito de crer e suspeitar, com essas duas palavras servindo de referência para atravessarmos conflitos por meio de personagens que beiram o indecifrável e onde o público precisa providenciar respostas para as lacunas que permanecem em aberto.

Mesmo sob uma constante perspectiva, a de Tommy, o roteiro abre brechas para outras óticas se sobressaiam na trama, principalmente com as problemáticas girando em torno da moral. Assim, entramos em muitas estradas de suposições através de cenas bem trabalhadas, nas quais tudo que aparece em quadro (o famoso mise en scène) cria um potente plus para uma atmosfera com diversos significados que caem na linha do interpretativo.
Esse chamado de Komasa para o público ‘dançar junto conforme a música’ é muito bem construído, nesse intenso drama psicológico, com lampejos de terror. Na verdade, essa última palavrinha, terror, também ganha seus importantes momentos na tentativa da obra em buscar significados e reflexões na arte de decifrar a questão moral por meio de um labiríntico experimento social.

