Em 2015, a aclamada animação ‘Rick e Morty’, do Adult Swim, introduzia aos fãs da série um dos personagens que cairia no gosto do público e da crítica e que, em pouco tempo, se tornaria membro recorrente dos episódios: o Presidente dos Estados Unidos Andre Curtis. Interpretado por Keith David, Curtis apareceu em diversos capítulos da atração, envolvendo-se em diferentes níveis com os protagonistas titulares e ganhando inesperadas incursões mergulhadas em uma ácida sátira a vários governantes do país, incluindo Barack Obama e, mais recentemente, na explosiva e controversa personalidade de Donald Trump. Logo, não é surpresa que ele tenha ganhado seu próprio spin-off, ‘Presidente Curtis’, que estreou na HBO Max em julho deste ano.
Diferente da produção original, que se apoiou em temas existencialistas e niilistas para discorrer sobre a vastidão interminável do universo em uma homenagem contundente aos clássicos sci-fi que dominaram a cultura pop desde a década de 1960, a atração derivada nos apresentou a uma espécie de cartilha à la ‘Arquivo X’, trazendo Curtis, ao lado de seus braços-direitos, enfrentando diversas ocorrências sobrenaturais, interdimensionais e paranormais em uma divertida e despojada antologia que reiterou a insana mente de Dan Harmon, cocriador da série ao lado de James Siciliano. E, caminhando para os últimos capítulos da temporada de estreia, percebemos que ainda há muitas histórias desse vibrante universo a serem contadas.
A trama, como podemos imaginar, nos leva ao Salão Oval da Casa Branca e aos membros que compõe a comitiva de Curtis – a chefe de gabinete Rho Banks (Stephanie Beatriz), uma ciborgue extremamente engenhosa; e o agente do serviço secreto dos EUA Francis O’Doyle (Jim Rash), um regrado segurança particular meio-leprechaun que fez um juramento em proteger Andre custe o que custar. Apresentados ao público da maneira mais inesperada possível e já explorando as faíscas de desentendimentos que seriam esquadrinhadas semana a semana, o trio encabeça tresloucadas aventuras que incluem fantasmas, criaturas monstruosas e segredos seculares que trazem ritmo e dinamismo à trama.
Harmon e Siciliano encontram sucesso considerável em não apenas manter a identidade de ‘Rick e Morty’ viva no spin-off – garantindo que a dupla inclusive faça uma breve aparição no episódio piloto -, como também, ao mudar de cenário e nos levar aos institucionalizados e intermináveis corredores da Casa Branca, nos presentear com pequenas gemas da comédia adulta ao apostar fichas em ironias constantes e complexidades morais que já se tornaram intrínsecas a esse expansivo cosmos. E, apesar de nem todas as investidas funcionarem, é notável como a honestidade brutal que os criadores imprimem é forte o suficiente para nos deixar ansiando por mais, tecendo até mesmo uma continuidade narrativa que segue os moldes da animação-mãe.
Como era de se esperar, o estilo da série derivada é tão frenético quanto é possível ser, recuando em breves momentos para delinear laços mais densos entre os protagonistas e coadjuvantes, explorando uma complexidade que é necessária para projetos desse tipo e nos guiando por quebras de expectativa que borram a moralidade e o ceticismo de forma inesperada e que não pensa duas vezes antes de mergulhar em decisões “controversas”, por assim dizer, trazendo à tona conhecidas conspirações governamentais e lendas urbanas que se aglutinam em um non-sense deliciosamente descompensado.
David reprisa seu papel como Curtis e, aqui, tem espaço de sobra para mostrar lados da personalidade do protagonista de que tivemos apenas um gostinho na obra original – fazendo-o singrar entre uma egolatria inescapável e dolorida que parece acompanhar cada um dos verdadeiros chefes de Estado, mas humanizando-o o suficiente para que ele não se transforme em um intocável semideus que não comete erros e que não tem seus próprios problemas a serem resolvidos. E, acompanhando-o de perto, Beatriz e Rash rendem-se a ótimas performances provindas de seus respectivos arcos, que convergem para uma grande epopeia sci-fi que faz tudo o que outra animação pouco conhecida, ‘Departamento de Conspirações’, tentou entregar alguns anos atrás.
‘Presidente Curtis’ caminha para seu final de temporada e, seguindo os passos de ‘Rick e Morty’, representa uma sólida adição ao catálogo do Adult Swim e da HBO Max – posando como uma carta de amor ao que veio antes e caminhando com as próprias pernas em uma originalidade nostálgica e inebriante que nos chama a atenção por seu caráter despojado e totalmente descomprometido.
Lembrando que o spin-off já foi renovado para a 2ª temporada.

