Quem trabalha com cinema ou já visitou um set de filmagens sabe que o resultado final (o filme) é a linda ponta de um iceberg escondido debaixo d’água, onde ninguém vê o que de fato acontece. Para um filme estar pronto nos cinemas ou no streaming, há semanas, meses, às vezes anos de preparação, de captação de recursos, de escrita e reescrita de roteiro, de mudanças na equipe e no elenco. E quem acha que na hora de começar a gravar tudo já está resolvido… ledo engano. Por mais que se tenha tentado evitar e tenha havido planejamento, é durante as filmagens que o caos acontece, o inesperado surge e o orçamento dispara. Ou ao menos é assim em ‘Morte e Vida Madalena’, nova comédia nacional que chega a partir de amanhã nos cinemas brasileiros.

Madalena (Noá Bonoba) acaba de perder o pai (Carlos Francisco), um renomado cineasta que deixa um projeto inacabado como legado para sua filha. Em nome desse compromisso familiar e com o cinema, Madalena, gravidíssima, decide produzir o filme e o coloca nas mãos de Davi (Marcus Curvelo), pai de seu filho. Só que quando as filmagens começam, Davi desaparece. Sem diretor, como filmar? Sem comando na produção, com o banco travando a verba do longa e um roteiro de ficção científica sem pé nem cabeça, resta à Madalena confiar em Oswaldo (Tavinho Teixeira), que, com o poder em mãos, transforma a já caótica produção em um trem desgovernado sem nenhum respeito à ordem do dia.
Sim, certamente ‘Morte e Vida Madalena’ é um filme para o nicho de quem entende as nuances de uma produção cinematográfica, mas vai um pouco além da metalinguagem. É uma comédia sobre um grupo de profissionais (que também são amigos) que estão lutando para fazer o projeto em que acreditam acontecer, mesmo que isso signifique abrir mão de certos privilégios, certas dignidades e enfrentar um verdadeiro turbilhão de improbabilidades. E, sobre isso, qualquer um pode se relacionar.
Exibido no Festival de Brasília de 2025, onde ganhou o prêmio da crítica, ‘Morte e Vida Madalena’ potencializa o cinema cearense através do olhar sincero e corajoso do diretor Guto Parente, que coloca em seu projeto diversas experiências enfrentadas por ele e por tantos outros que já viveram situações bem semelhantes num set de filmagem. E esse olhar não nega o absurdo, o surreal, o irreal, o inacreditável, ao contrário: se apropria do incrível, no real sentido da palavra, para falar de cinema.

Metade do humor proporcionado pelo longa vem a partir do equilíbrio entre dois lados: a equipe/produção, completamente fora do controle e que dá indícios de que não faz nenhum sentido, estimuladas, boa parte das vezes, em atuações exageradas diante do surreal dos eventos; em oposição à placidez impossível de Noá Bonoba como Madalena. Ela se segura. Segura. Segura. O mundo ruindo ao redor e ela ali, a cara nem treme. Tem que ter muito equilíbrio e domínio de atuação para segurar o personagem até o momento de sua grande explosão. A jornada emocional de Madalena é o ritmo e o coração desse filme, e a escolha de Noá neste papel, além de provocativo, rompe barreiras que ajudam a proporcionar abertura de olhares para os corpos atuantes e os papéis destinados. A morte, a vida e a alma desse filme são de Madalena.
Outra atuação incrível é de Tavinho Teixeira, absurdo como um cara completamente alucicrazy sem o menor senso de responsabilidade ou de coletivo. Pior que existem muitos Oswaldos nos sets mesmo.
Excelente como retrato de bastidores, ‘Morte e Vida Madalena’ faz da comédia seu ato de amor ao cinema. Um filme que aproxima o cinéfilo das verdades de se fazer cinema e que, apesar de enfrentarmos esses perrengues todos os dias, ainda fazemos cinema porque amamos. Para rir e se emocionar.


