Crítica | The Fox Sisters – Pioneiras do Espiritualismo Ganham Cinebiografia em Superprodução Brasil-EUA

O espiritismo é uma das religiões com mais espaço aqui no Brasil. Dentre as muitas crenças em nosso país, esta é uma das que se mantém constante ao longo dos séculos, e que, recentemente, tem ganhado mais e mais espaço nas telonas, com diversas adaptações de histórias espíritas para os cinemas e/ou televisão, como ‘Nosso Lar’, ‘Predestinado: Arigó e o Espírito do Dr. Fritz’ e ‘Divaldo: o Mensageiro da Paz’. São histórias inspiradoras de pessoas comuns que receberam o chamado de algum espírito que precisava se comunicar com aqueles que ainda viviam, e suas histórias, inspiradoras, tocaram o coração de milhares de pessoas. Mas no início de tudo, é claro, a sociedade julgava e desconfiava (ainda hoje, a bem da verdade). E é sobre esse início que se trata o longa ‘The Fox Sisters’, já em cartaz nos cinemas brasileiros.

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Estados Unidos, 1848. Enquanto o mundo ainda busca uma forma de tornar a energia elétrica uma possibilidade real na casa das pessoas, três irmãs viveram uma experiência extraordinária que mudaria para sempre as suas vidas, a vida de milhares de pessoas. Trata-se das irmãs Kate (Marie McHugh) e Maggie Fox (Sienna Belle), que, quando ainda eram crianças e moravam em uma casa grande com seus pais, sentiram o espírito de um homem que morrera naquela mesma casa, onde fora enterrado e cujos restos ele clamava estar escondido no porão. Inquietas com tal confissão, as crianças contam a seus pais sobre essa experiência, a que, obviamente, não são acreditadas. Mas, com o passar do tempo, mais e mais espíritos buscam Kate e Maggie, as Irmãs Fox, para se comunicar, e, com isso, a notícia começa a se espalhar pela pequena cidade onde moravam. A partir daí, se por um lado dezenas de pessoas, mesmo que desconfiadas, passam a procurar as Irmãs Fox para tentarem se comunicar com entes queridos que já partiram, por outro uma boa parte dos cidadãos, sem saber como lidar com aquilo tudo, insufla o ódio à prática da espiritualidade e tenta, a todo modo, expulsar a família dali.

Quase 180 anos se passaram entre a estreia do filme e a data dos acontecimentos de ‘The Fox Sisters’, e, no entanto, a história das três irmãs que se tornaram um canal de comunicação com o plano espiritual se mostra tão atual e forte quanto de quando ocorreu. E o diretor Wagner de Assis, responsável também pela franquia de sucesso ‘Nosso Lar’, soube exatamente capturar a essência da trama e transformá-la num filme tão inspirador quanto humano.

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A grande sacada do roteiro foi de não se limitar a apenas enfocar nos episódios espirituais vividos pelas duas irmãs Kate e Maggie, mas sim também mostrar que, antes de tudo, eram duas irmãs, duas jovens loucas para viver tudo que duas mocinhas sonhavam em viver naquela época: viver grandes paixões, conhecer o mundo, morar numa casa linda, ter uma bela família. Assim, o roteiro também encontra espaço para trabalhar a humanidade dessas protagonistas, incluindo seus defeitos; as brigas com a irmã mais velha Leah (Jamie Hughes), que inicialmente não acreditava no que acontecia mas depois viu a lucratividade da coisa e começou a monetizar as sessões das irmãs, o que gerou conflito constante entre elas; os desejos de casamento em embate com a responsabilidade com o plano espiritual, entre outros.

Embora seja uma história que se passa nos Estados Unidos, fato é que o espiritismo é forte aqui no Brasil, e, com um diretor brasileiro no comando do projeto, foi uma boa ideia levar atores brasileiros para compor o elenco desse projeto; assim,‘The Fox Sisters’ também inclui nomes como os brasileiros Gustavo Pace (‘Os Emergentes’) e Vitor Figueiredo (‘Querido Mundo’).

Superprodução com dedicação, ‘The Fox Sisters’ mostra que as histórias espiritualistas têm força e campo no audiovisual, sustentando o interesse do espectador nas mais de duas horas de longa. Pra ver nas telonas.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.