Em um dos meus primeiros filmes da vasta programação do Festival do Rio 2026, o longa-metragem alemão Um Homem Perdido, fiquei diante de uma condução delicada sobre as feridas ainda em aberto, guiada pela compaixão e a sensibilidade de se entender um momento dilacerante na vida de quem já amou. Você não só assiste: você sente cada instante.
A narrativa cadenciada busca não se apressar e caminha de forma sutil e preponderante pelo silêncio, pelos desabafos quando ninguém vê, chegando a um despertar para as lacunas incompletas de um passado. Através de seus ricos personagens, apresenta a complexidade humana e todas as suas facetas.

Hanne (Dagmar Manzel) é uma professora e artista que vive um casamento feliz ao lado do ex-pastor Bernd (Agosto Zirner). Um dia, bate à sua porta um homem desnorteado que insiste que aquela é a casa dele. Esse homem, Kurt (Harald Krassnitzer), é o ex-marido de Hanne, uma pessoa que ela não via há décadas. Ele está com demência e mal se lembra de importantes memórias, além de ser escanteado pela filha workholic, que não sabe lidar com a situação. Tendo que lidar com esse destino peculiar, Hanne convence Bernd a passar mais tempo com Kurt, fato que desencadeará em novas descobertas e obstáculos pela frente.
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Exibido no Festival de Cinema de Rotterdam deste ano, O Homem Perdido coloca sob os holofotes uma das doenças mais devastadoras, o Alzheimer, transtorno neurodegenerativo que deterioriza a memória e representa um enorme desafio a todos que estão ao redor da pessoa diagnosticada. Um assunto difícil, pois os paralelos com a vida real chegam com força para quem já teve alguém na família nessa situação.
Explorando esse entorno com uma leveza ao abordar o tema, o filme consegue fazer você rir em alguns momentos, mas logo nos conduz para refletir por meio de camadas que se abrem de forma profunda. O roteiro, que se distancia de redundâncias ou mesmo conveniências, consegue reunir as passagens de tempo, revisitando o passado através do momento presente, guiado pelo olhar da protagonista e seus conflitos. E vale a menção: uma baita atuação da atriz alemã Dagmar Manzel.

Dirigido pelo cineasta Welf Reinhart, Um Homem Perdido chega ao circuito exibidor brasileiro em 2027 – o filme já tem distribuidora no Brasil, a Kajá Filmes. Uma obra que, além de não ter pressa para emocionar, nos guia por comportamentos e experiências, colocando na vitrine as fragilidades humanas e mostrando como o dar as mãos pode ser o início de um novo momento.


