É um fato dizer que a Netflix tem um histórico bastante interessante, por assim dizer, em relação a seu catálogo de produções originais. Seja com séries ou filmes, a gigante do streaming acerta e erra na mesma quantidade de vezes e sempre nos deixa com um pé atrás quando anuncia um novo projeto. Todavia, quando os executivos da plataforma encontram o time certo, magia é criada – como é o caso de recentes incursões como ‘Criaturas Extraordinariamente Brilhantes’, ‘O Monstro em Mim’ e ‘Treta’ (títulos que deixaram sua marca na temporada de premiações e se tornaram favoritos de crítica e de público). E, seguindo os passos dessas produções, a minissérie ‘A Leste do Éden’ integra o grupo ao se firmar como uma das investidas mais ambiciosas do ano.
Contando com sete episódios, a obra é baseada no aclamado romance homônimo assinado por John Steinbeck, que inclusive o caracteriza como sua magnum opus. Levando-nos para o efervescente e rompante período entre o final do século XIX e a I Guerra Mundial, a trama nos apresenta aos meio-irmãos Charles (Mike Faist) e Adam Trask (Christopher Abbott), que vivem sob as mãos autoritárias do pai e, em meio a altos e baixos e circunstâncias que os afastam e os trazem de volta para a casa onde cresceram, veem sua vida virar de cabeça para baixo quando uma jovem chamada Cathy Ames (Florence Pugh) aparece na propriedade da família coberta por sangue e ferimentos.

Apesar das hesitações de Charles, Adam resolve acolhê-la e cuidar dela ao menos até que ela se recupere, mas não consegue impedir a si mesmo de se apaixonar por Cathy – e é aí que conhecemos a história que acompanha a controversa personagem. Enganada pela falsa bondade daqueles que passaram por sua vida, a jovem transformou-se em uma egocêntrica personalidade cujo único objetivo era encontrar a independência financeira, chegando a incendiar a casa em que morava com os pais antes de encontrar trabalho em um bordel. Após ludibriar um dos donos, ela foi deixada à morte até ser encontrada por Adam, vendo em sua ingenuidade e em suas prováveis falsas promessas uma oportunidade de se reerguer.
Navegando entre sentimentos conflitantes por Adam e por Charles, Cathy se sente mais uma vez controlada pela figura masculina quando, ao aceitar de ímpeto casar com aquele que cuidou dela, ela engravida de gêmeos. Recusando-se a enxergá-los como filhos, ela abandona a família após atirar em Adam, mudando-se para Salinas e conseguindo trabalho em um outro bordel, onde traça um plano meticuloso que lhe dará total controle do negócio e lhe garantirá tudo o que sempre quis: liberdade. Entretanto, ao passo que a narrativa de ambos os núcleos continua a se desenrolar, somos engolfados em um tour-de-force interminável que reflete a polvorosa sociedade estadunidense da virada do século em um questionamento sobre o que, de fato, significa ser livre.

Zoe Kazan, que fica responsável pela adaptação e assume o cargo de showrunner da atração ao lado de Jeb Stuart, faz um sólido trabalho ao capturar a essência dos escritos de Steinberg, oferecendo uma perspectiva mais aprofundada dos temas que o romancista explora em sua saga multigeracional. Responsável pelos roteiros de todos os episódios (e aliando-se a Alexander Chee para o quinto capítulo), ela esquadrinha a ambição humana como uma faca de dois gumes e deixa bem claro que esse impetuoso e individualista espírito da sociedade é a força-motriz de cada um dos personagens – seja na maneira contundente com que isso é encarnado por Cathy, seja nas comedidas e ambíguas ações de Adam.
Toda a ambientação da minissérie é infundida em um uso marcante de cores quentes que vão ao encontro das conflitantes personalidades dos protagonistas e coadjuvantes, tanto nas tensões que se agravam entre os irmãos Trask, quanto nas empreitadas de uma impiedosa Cathy, que não mede o peso de suas palavras e a transforma em uma espécie de sociopata cujas atitudes são “justificadas” pelo que passou em toda a sua vida. Em outras palavras, Kazan escala um habilidoso time artístico que ajuda a reiterar o caráter complexo dos personagens, garantindo que nenhum deles seja pintado com o maniqueísmo heroico de dramas de época similares – e, dessa forma, ela pinta um retrato melancólico e derradeiro que prenuncia a ruína de cada um deles.

O destaque maior, sem sombra de dúvida, vai ao irretocável elenco. Abbott entrega-se de corpo e alma à personalidade a princípio ingênua de Adam, construindo um arco bem estruturado a um personagem que não foi nomeado dessa forma por qualquer razão – e nutrindo de uma forte química com Faist, ainda que suas cenas compartilhadas não existam em grande número. Hoon Lee e Martha Plimpton também brilham em seus respectivos papéis como Lee, servo de Adam, e Faye, dona do bordel onde Cathy adota uma nova identidade e passa a trabalhar após abandonar o marido. Entretanto, é Pugh que rouba os holofotes em uma performance seminal para sua já invejável carreira, garantindo-lhe uma quase certeira e merecida presença na próxima temporada de premiações.
Mesmo não estando livre de erros – e aqui menciono algumas cenas novelescas demais para trazerem peso significativo à história -, ‘A Leste do Éden’ é uma grata adição ao extenso catálogo da Netflix e um ousado projeto que traz os escritos de Steinbeck em uma honrosa e envolvente saga familiar que merece ser apreciada em sua completude.


