Quando pensamos no cinema internacional, raras vezes pensamos no cinema português. Porque fato é que com a predominância cultural globalizada, é difícil imaginar uma indústria do cinema de um país com o tamanho do Rio de Janeiro e metade de sua população. Mesmo desconhecido da maioria dos brasileiros, o cinema português existe, e vem, aos pouquinhos, tentando se mostrar para o público brasileiro. Felizmente temos oportunidades como o Festival do Rio, que traz para os espectadores nacionais filmes como ‘Santo António: O Casamenteiro de Lisboa’, uma comédia da terrinha que teve exibições durante o evento, com a presença ilustre do diretor e de uma das atrizes.

Carmo (Rita Blanco) e Valentim (Joaquim Monchique) trabalham juntos na Câmara Municipal de Lisboa, onde ajudam a organizar casamentos na paróquia de Santo Antônio, o santo casamenteiro. Acontece que nos últimos anos, o número de pessoas interessadas em casar na igreja diminuiu drasticamente, e, com isso, também o orçamento e a receita da paróquia foi afetada. Para evitar demitir funcionários e impedir a entrada de uma empresa francesa nos negócios, Carmo e Valentim têm uma brilhante ideia: modernizar todo o processo, para, assim, atrair e convencer os casais a realizarem o matrimônio. Mas, para isso, eles antes terão que descobrir como funciona toda essa modernidade que eles estão tanto querendo implementar.
Com uma pegada bem leve mas bastante atenta à atualidade, ‘Santo António: O Casamenteiro de Lisboa’ busca traçar um paralelo entre tradição e modernidade numa sociedade cosmopolita cujos valores e desejos vieram se modificando nas últimas décadas. Ou seja, o que o filme busca salientar é que por um lado temos a tradição da velha Europa, com castelos seculares, igrejas milenares, costumes enraizados e tradições passadas de geração em geração; por outro lado, temos uma galera que já cresceu no mundo globalizado, misturado com os imigrantes, amplamente conectado nos apps e que embora conheça e respeite as tradições, não está tão interessado em segui-las. E ambos os opostos convivem diariamente no mesmo país. Essa dualidade se acentua dentro da igreja, onde as pessoas que se amam não têm mais interesse em gastar dinheiro e/ou realizar um casamento religioso, e sim apenas morar junto, enquanto a instituição, em si, vê o declínio de sua renda e de suas atividades mais antigas.

Para construir esse mote tão interessante, o roteiro de Ruben Alves e Fernando Pérez tece personagens que representam a diversidade social que compõe o convívio interpessoal no núcleo da igreja de Santo Antônio: um casal homoafetivo, um outro composto por uma mulher mais velha com ares de herança e um brasileiro imigrante com suspeita de interesse, uma mulher que cai na lábia de um bandido, um casal que esperou a vida inteira para ficar junto e um outro que, embora já não haja amor, entra nessa empreitada por conta do sorteio de uma casa.
Com personagens com panoramas tão interessantes, o diretor Ruben Alves encontra certo equilíbrio para desenvolver o pano de fundo de cada um nessa comédia de costumes que, aqui e ali, dá uma acentuada nas interpretações. Ainda temos a presença do ator brasileiro Pedro Nercessian (da série ‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’), como o tal imigrante supostamente interesseiro, e do tarimbado Joaquim de Almeida (de ‘Velozes e Furiosos 10’), no papel do padre. O surpreendente final consegue, ainda por cima, emocionar.
Através de sua originalidade despretensiosa, ‘Santo António: O Casamenteiro de Lisboa’ foi uma das gratas surpresas do Festival do Rio, e torce-se para que seja distribuído no Brasil em breve, pois é o tipo de filme que agradaria ao público numa sessão da tarde.



