De uns anos pra cá, talvez até mesmo por conta do período e as experiências vividas durante a pandemia, tanto o audiovisual quanto as artes, de um modo geral, têm falado mais sobre temas como luto, memória e saúde mental. Se durante a pandemia, com toda a situação que o mundo estava vivendo naquela época, esses assuntos se tornaram mais evidentes e urgentes, após a vacinação a impressão que se tem é que os artistas vêm se debruçando com mais interesse sobre esses temas. E alguns deles estão presentes no filme estadunidense ‘Parasita do Coração’, que teve sessões exibidas na Mostra Expectativa do Festival do Rio, com a presença dos diretores, dos roteiristas, da produtora brasileira e da protagonista.

Avena (Amber Gray) e Mark (Juan Riedinger) são um casal devastado pela perda da única filha, Zamira (Ellie Reine). Na dura convivência com o luto, eles recorrem à NeuraLife — um ecossistema digital idêntico à realidade, que oferece simulações avançadas geradas por IA, capazes de recriar memórias, vozes e personalidades. Quando uma falha misteriosa se propaga pelo sistema, memórias antigas ressurgem e o passado compartilhado pelo casal se recusa a permanecer enterrado. Enquanto Mark se refugia no mundo da NeuraLife, Avena atravessa uma jornada desconcertante, com lembranças, tecnologia e saudade, sendo levada a confrontar uma questão: quando a memória se torna um substituto perigoso para a aceitação?
‘Parasita do Coração’ tem um ritmo contemplativo, de quem vai sentindo o peso do momento à medida que a trama vai avançando. Isto dito, embora o filme tenha apenas uma hora e quarenta e cinco de duração, pode ser que a se tenha a sensação de ser bem mais; entretanto, esse ritmo desacelerado é justamente o tempo do luto, o tempo do sentir, e precisa ser respeitado tal qual proposto pelo filme.
O roteiro de Miriam Louise Arens e Mitchell Arens, que também dirigem o longa, detalha como a inteligência artificial e as tecnologias poderiam colaborar no adiamento, digamos assim, do luto, ao criarem ambientes e situações nas quais os entes queridos já falecidos pudessem ser recompostos, e onde as pessoas vivas poderiam se transportar de alguma forma para essas plataformas e poderiam interagir com os já falecidos – inclusive, criando novas memórias. Uma proposta bem delicada, posto que apenas cada um sabe o tamanho da dor que sente pela perda de outro alguém.

Embora esse seja o argumento do filme (bem interessante, diga-se de passagem), o que chama a atenção é a construção do roteiro em colocar o casal protagonista numa espécie de sala de terapia coletiva, onde eles e outros personagens se encontram para falar de suas dores. Não que isso não exista na vida real, claro que existe, mas ‘Parasita do Coração’ conduz seu enredo sempre passando por essa sala, evidenciando a importância da conversa e do coletivo na perlaboração e na cura do luto.
Outro ponto interessante é como os diretores-roteiristas localizam sua história num futuro não tão distante, em que a realidade virtual, a tecnologia e a inteligência artificial dominam muito mais o cotidiano dos cidadãos comuns, ao ponto de eles mesmos já não conseguirem mais diferenciar o que é verdade e o que é projeção. Ou seja, em ‘Parasita do Coração’ a ficção nos alerta para o futuro iminente.
‘Parasita do Coração’ é um drama de ficção científica que desperta o interesse, oriundo de um trauma vivido coletivamente em sociedade. Nos lembra do quanto, em momentos de desespero, gostaríamos de ter tido opções como as do filme para nos agarramos para sempre nas pessoas que amamos.



