Crítica | Nem mesmo Carla Gugino consegue salvar o insosso terror sobrenatural ‘A Caixa do Demônio’

Carla Gugino é uma das atrizes mais versáteis e habilidosas da atualidade e ganhou uma nova onda de reconhecimento por seus incontáveis trabalhos no cenário do terror. Após ter nos fisgado com uma performance irrefreável no suspense psicológico ‘Jogo Perigoso’, ela se aliou com o realizador Mike Flanagan para uma série de colaborações que lhe renderam vários elogios, incluindo ‘A Maldição da Residência Hill’, ‘A Maldição da Mansão Bly’ e a obra-prima ‘A Queda da Casa de Usher’, cujo seminal trabalho merece contínuo aclame. E, um ano depois de sua última incursão fílmica na comédia de ação ‘Chefes de Estado’, ela faz seu retorno ao gênero com ‘A Caixa do Demônio’, que chega aos cinemas no próximo dia 22 de outubro.

Na trama, Gugino interpreta Ellen Hershbergen, uma mulher marcada pelo trauma que, após perder a mãe para o Alzheimer, se muda para a pitoresca cidade de Pontiac, no Michigan, a fim de recomeçar. Porém, sua solitude não dura muito tempo quando um membro distante de sua família pede para que ela cuide do primo, Winthrop Benson (Lou Taylor Pucci), um ex-veterano de guerra que sofre da síndrome do estresse pós-traumático e que pode usar a companhia de Ellen para conseguir se curar – enquanto ela, por sua vez, anseia por uma companhia para fazê-la esquecer dos fantasmas do passado que a assombram.

Todavia, as coisas tomam um rumo sombrio no momento em que ela conhece a excêntrica vizinha Vahna Minter (Katharine Isabelle), que parece não ter muito senso de conveniência e de limites e que se aproxima dos dois de maneira um tanto quanto invasiva, além de trazer certos comentários controversos sobre a índole de Winthrop que imediatamente causam estranhamento em Ellen. E, à medida que os conflitos escalam, ela percebe que está sendo arrastada para uma artimanha sobrenatural que envolve um antigo demônio capaz de atitudes indescritíveis – e que pode colocar a vida do primo em xeque.

Como podemos perceber, toda a estrutura do projeto é bastante conhecida e bebe de diversos longas-metragens que partem de uma premissa similar, o que não necessariamente significa algo ruim. Entretanto, em vez de explorar aspectos diferentes de um território muito familiar ou de abraçar os convencionalismos em uma despojada narrativa fílmica, o resultado é muito aquém do esperado e desperdiça um talentoso corpo artístico em prol de algo que nunca se concretiza e que não tem absolutamente nada a dizer para o público. E, considerando que 2026 tem sido marcado por ótimas incursões do terror, como ‘Obsessão’, ‘Resident Evil’ e ‘Backrooms: Um Não-Lugar’, ‘A Caixa do Demônio’ de fato chama a atenção por todos os motivos errados.

O diretor Daniel Stamm, que não é nenhum estranho ao terror espiritual e que já comandou produções como ‘O Último Exorcismo’ e ‘A Luz do Demônio’, ironicamente mantém o nível de sua filmografia ao jogar no seguro e se apoiar em cenas que emulam, sem qualquer ímpeto ou desejo de fugir do óbvio, obras muito melhores. Seja com cansativos planos fechados que reiteram a inescapável jornada da protagonista, seja com jumpscares óbvios demais para serem levados a sério, Stamm finca os dentes em uma mitologia exaurível, recheada de metáforas vencidas e que, em última instância, não fazem muito sentido – procurando profundidade em uma ambientação rasa e esquecível.

Justin Yoffe, responsável pelo roteiro, também não parece disposto o suficiente para contornar as fórmulas, jogando os diálogos em um liquidificador desembestado que regurgita frases prontas e que destitui os personagens de quaisquer camadas aparentes – e que reflete na penosa atuação de Gugino, que mostra-se constrita demais para nos convencer das emoções que quer passar. O mesmo pode ser dito de Pucci, que mais causa desconforto do que intriga em maneirismos que beiram o risível, e de Isabelle, cuja sandice interminável é uma falha tentativa de trazer artisticidade a um lugar onde isso não é possível.

A verdade é que ‘A Caixa do Demônio’ poderia ter funcionado muito melhor caso não se levasse tão a sério ou tivesse um comprometimento um pouco maior com a “suspensão da descrença”, optando, em vez disso, por uma série de fatigantes escolhas técnicas e artísticas que transformam a breve duração do longa-metragem em uma interminável tortura cinematográfica – no pior sentido da palavra.

Lembrando que o filme chega aos cinemas nacionais em 22 de outubro.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.