Um trem, criaturas indescritíveis e o lado moral na balança dos acontecimentos. Onze anos atrás, chegou ao universo cinematográfico um longa-metragem britânico que busca, através do terror, nos conduzir para uma ciranda agitada de acontecimentos, que liga os pontos dos deslizes morais se chocando com o sobrenatural.
Não há nada de muito novo em Uivo, obra de 90 minutos dirigida por Paul Hyett. Com o foco em catalisar a tensão através de uma dinâmica de confrontos entre personagens lutando para sobreviver, o projeto encontra um fator de interseção que chega com força nos acontecimentos que se seguem. Sem escantear nenhum personagem, chega com potência ao seu cume, apresentando criaturas indescritíveis que vão modelando um terror sangrento.

Joe (Ed Speleers) é um jovem funcionário de uma empresa ferroviária que, após não conseguir ser efetivado ao cargo de supervisor, acaba sendo punido por seu concorrente e designado para ser o cobrador do trem da meia- noite, a última composição a deixar a plataforma todos os dias. Durante a viagem, algo inesperado acontece e, parados no meio da madrugada em uma floresta, algo lá fora começa a querer entrar na composição. Assim, em busca da sobrevivência, o protagonista e o restante dos passageiros terão que encontrar soluções e contar com a sorte.
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O roteiro busca explorar ao máximo cada personagem, os posicionando diante de dilemas morais e ações inconsequentes que vão de encontro ao momento presente de cada um deles. Tem um inescrupuloso e machista empresário, uma jovem que busca seu caminho na vida, um casal de idosos que optou por não ter filhos, uma mãe batalhadora sem tempo para se dedicar à filha adolescente, um estudante de engenharia em busca de emprego, um fã de futebol que parece não se importar com a situação e o protagonista, um funcionário de uma empresa completamente saturado com o trabalho, fazendo com que se atrapalhe até mesmo no trato social. Cada um desses, contribui para a composição sombria que coloca em evidência os seres humanos diante do sobrenatural.

A narrativa, mesmo com a conveniência se apresentando em alguns momentos, tenta, de muitas formas, criar um clima constante de suspense. Seja com as sugestões sonoras e ações que requerem atenção, um pouco de susto súbito – o famoso jump scare – ou mesmo não driblando o desenvolvimento dos personagens, os elementos são bem encaixados em meio ao clima de apreensão que logo toma conta do principal cenário das ações. Você sente que está diante de um filme de terror desde o início.

Uivo chega ao seu desfecho com muito fôlego e com a coragem de apresentar criaturas misteriosas sem ir a dentro em explicações. Essa é uma tática arriscada, mas que funciona, pois uma base nas relações humanas já criou um elo importante com o público, que segue pelos calcanhares de Aquiles de cada personagem. Dessa forma, a luta pela sobrevivência torna-se apenas um requinte final de um projeto que tenta sua própria identidade em meio a um gênero marcado por fórmulas saturadas.


