Crítica | Cássia Eller

CríticasCrítica | Cássia Eller

O encontro da poesia com o escarnio

Estranho seria se eu não me apaixonasse por você…” Este trecho da canção All Star, de Nando Reis, sintetiza bem a impressão que geralmente as pessoas tinham quando conheciam Cássia Eller, como figura e cantora. Reis, não por acaso, a compôs pensando nela, num período que passou produzindo um de seus discos. O ex-integrante dos Titãs, na verdade, estava muito próximo da interprete e pôde absorver toda força artística e humana emanada ali – que era tátil tanto para a crítica, quanto pelo público. De modo que, cerca de treze anos após nos deixar, sua obra está mais viva do que nunca e é felizmente cultuada pelas mais variadas tribos. Ainda que os mais novos notem só a primeira camada punk.

Foi talvez pensando nessa pujança que o infalível Paulo Henrique Fontenelle – dos ótimos Loki – Arnaldo Baptista (2008) e Dossiê Jango (2012) – resolveu resgatar tal impressionante trajetória e mostrar para nova era digital quem foi a fenomenal Cássia Eller. Também seguindo a ótima safra nacional de documentários musicais, o caso dos recentes Raul – O Início, o Fim e o Meio (2012) e A Música Segundo Tom Jobim (2012), registros que não são apenas valiosos dentro de critérios informativos, mas cinematograficamente importantes.

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Mesmo introduzindo algumas trucagens visuais, como grifes de textos, molduras e símbolos, que esteticamente enriquecem a fita, Fontenelle prefere contar a história da roqueira carioca num formato linear, que pode soar convencional à primeira vista. No entanto, com o caminhar da trama, percebemos as sutilizas que estão impressas no documentário. Como a narração de antigos escritos ou exposição de fotos e vídeos da cantora, passados de maneira inimista, embalados por canções mais suaves.

O documentarista também conseguiu reunir um grande leque de personalidades que fizeram parte, direta ou indiretamente, da vida de Cassia. De produtores e músicos a amigos e familiares. E não é embuste dizer que cada depoimento, carinhoso ou não, possui função concisa para que entendamos a figura estudada. Por exemplo, vemos em Maria Eugênia uma visão mais humana e pessoal da interprete; já Zélia Duncan tem papel fundamental no que se refere a comentar sobre o estilo agressivo e a importância artística dela, como mulher, para a música; Nando Reis, num momento muito particular, além de expressar sua grande admiração, fala a respeito da relação de ensaios e feições mais técnicas que eram notavelmente singulares.

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Acima de tudo, Paulo Henrique Fontenelle faz aqui o trabalho mais apaixonado de sua carreira. Algo que, assim como O Equilibrista (2008), transcende a mídia documental, por enxergar a arte de modo sensorial. Por imprimir em tela a verdadeira essência de seu protagonista – no caso a inesquecível Cássia Eller, que carregava na alma e na voz a revolta e explosão do Rock, a beleza e sutileza da MPB e a elegância e estética do Blues. Em suma, é um belo filme que não desperdiça momentos e cumpre perfeitamente o seu propósito.

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