É seguro dizer que desde meados da década de 2000, Hollywood passou por uma avassaladora onda de refilmagens. Tudo e mais um pouco que podemos pensar em matéria de filme ganhou nova roupagem no período – que para muitos só enfatizava a cada vez mais crescente falta de criatividade contida na indústria de Hollywood. No centro do alvo estava uma década específica, muito querida por todos que cresceram nela e até mesmo por quem não era vivo e apenas ouvia falar: os anos 80, é claro. Se pensarmos em como essa época foi revisitada pelos realizadores dos anos 2000, nos perderemos na imensidão de produtos recauchutados para os novos tempos – além das refilmagens estavam os reboots e as continuações.

Nessa época, diversas propriedades cultuadas e queridas pelo grande público foram revisitadas. A maioria rendendo revisões aquém de seus potenciais. Uma delas foi a nova versão de A Hora do Espanto. O que levou o cineasta Tom Holland (não, não aquele do Homem-Aranha) a criar a história do filme original de 1985 foi a paixão pelos filmes de terror e a paixão pela nostalgia do passado. Em meados da década de 1980, o cinema de terror era dominado por produções adolescentes e slashers, que centravam suas tramas em um psicopata mascarado perseguindo jovens. Pode até ser divertido, mas não era muito criativo. Holland cresceu com os clássicos do gênero e adorava filmes de vampiros, por exemplo. Monstros icônicos e atemporais.

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Assim, o diretor decidiu revisitar um tipo de filme feito no passado, mas acrescentando um frescor de modernidade. Esse seria um filme de vampiros passado no presente de 1985, e falaria sobre como um adolescente lidaria com este tipo de problema naquela época “descolada”. Ah sim, mas esse não seria um adolescente comum. Assim como o próprio Holland, Charley Brewster – o protagonista – era um rapaz aficionado pelo gênero do terror, que conhecia como ninguém toda a cartilha deste tipo de filme. Sua diversão era passar noites “maratonando” este produto na TV, e numa época em que a Netflix ainda não existia, a solução era recorrer aos programas exibidos na telinha, especializados neste tipo de produção. Essa brincadeira metalinguística, repleta de humor autoconsciente (como por exemplo adereçar no filme a predileção dos jovens da época por slashers) é o ponto forte de A Hora do Espanto.

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Pulamos para 2011, uma época já regida por adaptações, continuações e refilmagens – a tríade que dita Hollywood deste então. Na hora das marcas pré-estabelecidas não existe muito espaço para criações originais. Bem, ao menos não no cinemão-produto-entretenimento, onde as apostas e riscos são mais altos. Neste contexto nasce o conceito para a refilmagem de A Hora do Espanto. Não é tanto pela vontade ou por achar que algo de novo precisa ser dito. A investida soa mais como algo cínico de se manter uma marca em evidência. Soa como se o estúdio tivesse vasculhado suas propriedades e decidido que estava na hora de uma recauchutada em Fright Night. No comando, Craig Gillespie, que havia chamado atenção no indie A Garota Ideal (2007) – o filme em que Ryan Gosling arruma uma boneca como namorada -, foi contratado para a direção. Ou seja, vindo de um trabalho conceitual e “estranho”, mostra-se que a pegada para o remake partiria de tais características e não da paixão pelo terror – como no original.

Mas se por um lado o diretor Gillespie investiria em um produto diferenciado, no roteiro tínhamos uma verdadeira especialista no gênero vampiros. Marti Noxon é a roteirista e produtora de um verdadeiro ícone dos anos 1990, a série Buffy – A Caça-Vampiros – que pode ser considerada uma descendente à altura de A Hora do Espanto (1985) para a década seguinte. O resultado da refilmagem, no entanto, demonstra que em algum momento os estilos dos artistas não dialogaram. Desta forma, o remake de A Hora do Espanto se mostra um filme com ideias e conceitos interessantes, mas que em tela nunca conseguem atingir todo o seu potencial.


Para começar, podemos dizer que A Hora do Espanto (2011) usa como base o que toda reimaginação deveria querer atingir: não é uma cópia carbono de seu original. O novo filme muda locações, elimina personagens, muda características e personalidades de muitos deles e inclusive sua dinâmica, além de acrescentar inúmeras novidades e cenas diferenciadas. Em sua essência possui a forma das melhores refilmagens. Para se contar uma história de vampiros, nada melhor do que centrar a narrativa na cidade de Las Vegas. A cidade do pecado, como é conhecida, além de exalar um teor lascivo esperado neste tipo de conto, ainda traz o elemento de ser um local onde muitos trabalham à noite e durante as madrugadas, dormindo durante o dia em suas casas com janelas de vidro fumê. “Aqui é Las Vegas, muitas pessoas tem o vidro preto em suas janelas”, diz um dos personagens. Perfeito.

Em resumo, o protagonista Charley era um nerd, o típico personagem boa-praça que permeava os filmes da década de 1980. Com a nova década, Charley, nas formas do saudoso Anton Yelchin, evoluiu e amadureceu. Ele agora não anda mais com “perdedores” como Evil Ed, e quer pertencer à turma dos descolados do colégio, o que inclui sua popular namorada Amy. Aqui, é Evil Ed (papel de Christoper Mintz-Plasse – o eterno McLovin de Superbad) quem assume basicamente o papel do Charley original: um amente de terror, que sabe tudo sobre vampiros e junta “um mais um” ao descobrir que os estudantes de seu colégio estão desaparecendo. É ele quem segue Jerry, o novo vizinho de seu melhor amigo, e aos poucos soma provas de que o sujeito seja na verdade um sugador de sangue das trevas.

Aqui existem dois problemas no roteiro. Como dito, a intenção era boa, mas talvez por intromissão de produtores, os arcos nunca terminam de forma completa. É quase impossível torcer para o protagonista vivido por Yelchin. Ele é o sujeito que virou as costas ao melhor amigo do passado e por causa dele é que o rapaz termina virando alvo do vilão e se tornando ele mesmo um ser amaldiçoado. Fora isso, o novo Charley não tem ressalvas ao eliminar o ex-amigo, agora uma criatura das trevas. E a mensagem implícita nisso tudo é bem torta. O texto de Noxon não traz redenção para Charley. Outro detalhe é que Evil Ed, por mais que qualquer ator jamais pudesse equiparar o retrato único de Stephen Geoffreys no personagem, o que poderia ser capturado com a escalação de Mintz-Plasse no papel seria o misto de doçura ingênua com a acidez “sacana” contida no personagem do ator no citado Superbad (2007). E toma-lhe piada sobre Crepúsculo – na época a franquia sobre os vampiros apaixonados ainda estava a toda, e qualquer menção a sanguessugas precisava alfinetar a obra mirada para as meninas adolescentes.


Outro ponto que devo adereçar como uma das maiores fragilidades deste remake é o fato da roteirista não conseguir criar sequer um personagem interessante, carismático ou com quem nos importemos. Não torcemos por ninguém porque não existe identificação como no original. Charley no passado era um adolescente comum, com paixões e questões. O novo Charley é em sua essência um “babaca”. É como se o filme enaltecesse tal comportamento equivocado e punisse um tipo de comportamento mais humano e afetuoso. Os personagens principais por quem deveríamos torcer e nos identificar possuem desvios de caráter tão reprováveis que nos pegamos nos perguntando a qual elemento redentor deveríamos nos agarrar. Sem falsos moralismos, nada contra personagens politicamente incorretos, mas nestes casos precisa igualmente haver algum nível de interesse, alguma característica curiosa ou inventiva sobre aquela pessoa que cause atração. É assim na vida real quando conhecemos qualquer um. E é assim no cinema quanto nos deparamos com personagens em um filme.

Quem se sai melhor em seu retrato – embora por vezes caricato e exagerado – é Colin Farrell. Afinal, ser sedutor e carismático parece vir naturalmente para o ator. Farrell cria um Jerry Dandrige (embora seu sobrenome não seja mencionado no filme) musculoso, que vive de camisetas, é prestativo e habilidoso com trabalho braçal. Existe uma diferença na abordagem que Chris Sarandon deu ao original, um retrato mais suave e sofisticado, que tinha a ver com a clássica interpretação de vampiros do passado, como o Drácula. O de Farrell é dono de um sex appeal moderno e vigarista – um sedutor de Las Vegas que faz piadinhas machistas para policiais quando estes suspeitam de algo nebuloso em sua residência. “Ouviram um grito vindo de sua casa”, dizem as autoridades; “Certamente a fiz gritar”, retruca o patife. É reportado que essa interpretação de Jerry soava demais como um predador sexual para Farrell, que reclamou e pediu que esta característica fosse mudada ou abrandada. Mas nenhuma mudança foi realizada.

Sim, é verdade que a mãe de Charley (Judy no original, e aqui Jane) recebeu mais destaque e interação na trama uma vez que foi contratada a indicada ao Oscar Toni Collette para o papel. Porém, quando o roteiro necessita, a tira de cena sem cerimônia da forma mais banal e fácil, e a mantém afastada durante todo o terceiro ato. Ah sim, o remake elimina um dos personagens mais interessantes do original, cuja dinâmica com Jerry acrescentava certo tom homoerótico subliminar ao filme: Billy Cole (Jonathan Stark), o “guardião” de Jerry, que zelava por seu sono diurno. Em seu lugar, o remake adiciona mais personagens desagradáveis, na forma dos valentões do colégio, encabeçados pelo Mark de Dave Franco que muito pouco adicionam à trama, somente mais aborrecimento.

Finalizando as alterações criativas dos personagens – cujo resultado final não deram muito certo – está um dos pilares desta história. De fato, o cineasta Tom Holland disse que só tinha um filme a partir do momento em que criou o personagem Peter Vincent, uma mistura de figuras como Vincent Price e Peter Cushing, veteranos de filmes de terror e vampiros da década dourada do cinema britânico de gênero. O sujeito era um ator no ostracismo, que sobrevivia apostando na nostalgia e apresentando um programa típico da época: maratonas de filmes de terror na TV. Tudo a ver com a proposta.


Mas como modernizar Peter Vincent, uma vez que tais formatos de programa na TV não existem mais e nem mesmo o protagonista tinha uma forte ligação com os filmes de terror? Estando esta trama situada em Las Vegas, a melhor solução encontrada pelo roteiro foi transformar Peter Vincent em um mágico, destes que se apresentam em espetáculos nos palcos – que são verdadeiras superproduções. Algo muito comum na cidade. E no caso deste, voltado a um teor assustador de vampiros. Mais do que isso, seguindo a tendência do período em que tudo precisava estar interligado na trama, a família de Peter Vincent havia sido morta por um vampiro em sua infância. E você ganha um prêmio se adivinhar quem era esse vampiro.

Incrivelmente, apesar de todos os seus problemas, o remake de A Hora do Espanto não foi um destroçado por críticos. Pelo contrário, o longa soma 72% de aprovação no Rotten Tomatoes. Tudo bem que não se compara aos 92% de aprovação do original, mas levando em conta toda a sua bagagem, em especial o fato de ser uma refilmagem de um produto querido, a reimaginação, ao menos com os especialistas, não fez feio. Porém, aqui ocorre uma inversão de valores, com este se tornando um daqueles filmes que o público (e os fãs) divergem fortemente dos críticos. Os maiores algozes de A Hora do Espanto (2011), justamente foram aqueles para os quais o filme foi feito. Com um orçamento de US$30 milhões aproximadamente, a produção recuperou em bilheteria para a Disney (sim, esse foi um remake da Disney em parceria com a Dreamworks) algo em torno de US$18 milhões nos EUA, e US$41 milhões, apenas conseguindo se pagar – e em seu país de origem nem isso. Quem sabe com o advento da plataforma Disney+ o estúdio não se anima de criar uma série adaptando novas aventuras assustadoras de Charley, Jerry Dandrige e Peter Vincent.

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