Diretor já se aventurou em temática tão adorada e emulada no gênero do terror

Em tempos onde mesmo com a oferta de quatro vacinas diferentes (Coronavac, AstraZeneca, Butantan e Pfizer) o distanciamento social ainda é a forma mais indicada por médicos para conter o avanço da Covid-19. Como consequência, pelo segundo ano a vida de muitas pessoas ao redor do mundo continua sendo pautada pelo princípio da solidão e, em alguns casos, da total falta de interação com outras pessoas fora do círculo pessoal estabelecido no início da pandemia.

A temática de solidão não é desconhecida para o cinema; seu potencial de gerar conflitos e auto-questionamento nos personagens se mostrou várias vezes como essencialmente interessante e até mesmo poderoso em certas situações. Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, é muito sobre representar o choque de diferentes pontos de vista e de vivência tendo como cenário único uma cabana isolada no meio de uma montanha nevada.

Ao mesmo tempo que o tema incentiva um trabalho de reflexão muito interessante em alguns projetos mais dramáticos, ele também tem plena capacidade de exercitar o sentimento da instabilidade (principalmente a mental) em um indivíduo único ou num grupo de pessoas que estejam isoladas do resto do mundo. Esse caminho é o favorito para produções do gênero do terror ou suspense que dessa maneira podem regular melhor os níveis de ansiedade da audiência.



Em “Os Oito Odiados” a paranoia do isolamento é um fator constante

Historicamente O Iluminado, de Stanley Kubrick, é a referência máxima quando o assunto é a decadência de um indivíduo quando privado do resto do mundo; mesmo tendo a seu alcance um núcleo familiar que lhe é naturalmente próximo, o isolamento tende a ser uma força invencível que cedo ou tarde enlouquece sua vítima. Em outros casos, como no recente Hush – A Morte Ouve (2016), ele não é tanto um elemento corrosivo como é um fator de desvantagem para o protagonista, atuando para dificultar seu triunfo frente a ameaça de um invasor.

Por volta de 1968, o diretor sueco Ingmar Bergman lançou A Hora do Lobo (ou no original Vargtimmen) tendo como dupla protagonista seus colaboradores de longa data: Liv Ullmann e Max von Sydow. A trama é sobre o último relato de um artista que, morando em uma ilha junto a esposa, acabou desaparecendo. De alguma forma seu estranho comportamento foi se intensificando após a chamada hora do lobo (momento entre a noite e o amanhecer quando coisas sobrenaturais são mais propícias para ocorrer).

Por toda sua filmografia, Bergman se notabilizou por um estilo bastante único que era impresso em seus projetos: longas tomadas com som ambiente acompanhando um único personagem ou tendo como única ação uma troca de diálogos entre dois indivíduos. Essa técnica é exibida claramente no monólogo conduzido por Liv Ullmann logo ao início da produção em uma sequência de plano único aonde ela mesmo não ciente de haver um espectador externo ao filme, acaba mesmo assim dirigindo suas palavras para o público.

Coisas ruins acontecem durante a hora do lobo

Dessa maneira, logo em seus primeiros minutos o diretor já disseca um de seus personagens principais e estabelece que tanto ela quanto o marido não só vivem longe da civilização mas também que há profundas rachaduras no relacionamento. Tão importante quanto, o elemento sobrenatural também já é introduzido desde cedo como algo presente pelas beiradas no dia a dia do casal.



Porém, mesmo com o estilo de filmagem característico do sueco, certas questões envolvendo a temática (que só se popularizaram décadas depois) já eram apresentadas aqui na figura do marido. Desde bem cedo a personagem de Ullmann já aponta que seu marido é um sujeito que tem passado por dificuldades pessoais e tem demonstrado comportamento incomum; comportamento esse que vai se intensificando após a hora do lobo.

Conforme a película avança se tornam cada vez mais visíveis alguns pontos de ligação com a obra prima de Kubrick mencionada anteriormente e não só o mote total do isolamento. A questão sobrenatural, representada pela hora do lobo e por outros acontecimentos, se mistura à frustração da dupla com as escolhas de vida que os levaram até ali. Para o marido existe a dúvida quanto à sua própria capacidade artística gerada pela dificuldade em vender seus quadros. Essa ansiedade acaba encontrando com a exaustão de um horário de sono irregular e assim gerando uma vulnerabilidade aos acontecimentos sobrenaturais.

A personagem de Liv Ullmann é a representante do espectador

Seguindo pelo mesmo trajeto vem a esposa, cuja desilusão pela escolha de uma vida em um local recluso não demora a surgir. Suas próprias experiências com o desconhecido acabam por colocá-la em uma rota de colisão com o cônjuge levando a uma única consequência: a destruição do casamento. Essa que parece uma casualidade inevitável quando um casal enfrenta uma auto desconstrução; o foi assim com a família em O Iluminado e com os cônjuges em Possessão décadas depois.

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Nem mesmo as breves interações dos dois com um grupo aristocrático que vive na ilha amortece a inquietude da solidão. O que fica claro em A Hora do Lobo é que se o isolamento pode ser lentamente corrosivo, a socialização pode instantaneamente incomodar. A hábil montagem de Ulla Ryghe (colaborador assíduo de Bergman em trabalhos prévios) na cena do jantar que reúne todos os habitantes da ilha é veloz e nunca fica focada em um único indivíduo à mesa, porém, nos momentos em que os protagonistas ficam em evidência fica claro o desconforto de ambos para com aquela gente.

A adulação de todos pelo suposto artista diferenciado que é o marido nunca soa verdadeira e esse suposto motivo oculto por trás dos sorrisos e tapinhas nas costas é perceptível pela personagem de Liv Ullmann, que a essa altura já é a representante do espectador naquele ambiente. Esse acaba sendo o elemento diferenciador entre esse filme e tantos outros de mesma temática que viriam depois; aqui as relações sociais não são de todo esquecidas mas são trabalhadas como algo que suga muita força interna, quase um vampirismo social por natureza.

Ao final de A Hora do Lobo é interessante observar como a temática da febre da cabana pôde ser desenvolvida antes do surgimento das obras famosas que viriam mais para frente. A ideia do isolamento desde cedo é atrelada já a um sentimento de terror e construção gradual de que algo dará errado para os envolvidos mas Bergman, durante as breves interações entre o casal e os vizinhos, já explora o lado negativo de também se viver em sociedade; algo que foi se perdendo em filmes similares sobre esse tema que viriam mais tarde.

 



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