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A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça | Relembrando o SUBESTIMADO terror gótico de Tim Burton


Tim Burton é um dos diretores mais conhecidos do cinema contemporâneo e é responsável por inúmeros clássicos do cinema fantástico dark, como ‘Edward Mãos de Tesoura’, ‘A Noiva Cadáver’ e ‘Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet’. Conhecido por seu apreço pelo estilo gótico e expressionista, que inclui personagens com expressões exageradas, ângulos e enquadramentos distorcidos e uma fotografia espectral e sombria, Burton costuma acertar a mão quando abraça por completo algum projeto. E, em meio a sua prolífica carreira, certos títulos não têm o reconhecimento que merecem, como foi o caso do clássico ‘A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça’.

Lançado em 1999, o longa-metragem é inspirado no famoso conto homônimo de Washington Irving e acompanha Ichabod Crane (Johnny Depp), um policial que é enviado de Nova York para a pequena e misteriosa cidade de Sleepy Hollow, responsável por investigar e encontrar um serial killer que aterroriza os habitantes locais e que já coletou três vítimas. Ao chegar lá, Ichabod se depara com uma densa atmosfera de tensão e medo que se apodera de cada uma das casas, sendo recebido com ânimo por Baltus Van Tassel (Michael Gambon), líder de Sleepy Hollow que assume a cadeira após o assassinato de Peter Van Garrett. Conhecendo também a jovem Katrina (Christina Ricci) e sua madrasta, Lady Mary Van Tassel (Miranda Richardson), o investigador logo percebe que as coisas são muito mais perigosas do que imaginava.



A verdade é que as vítimas foram alvo de uma criatura infernal conhecida como o Cavaleiro sem Cabeça, um brutal e sádico mercenário hessiano que foi decapitado durante a Revolução Americana e que, de alguma maneira, foi trazido de volta à vida para dar continuidade a seu reino de caos. Porém, conforme Ichabod se lança a uma missão quase suicida de entender o motivo por trás das motivações do cavaleiro, tendo Katrina e o jovem criado Masbath (Marc Pickering) como companheiros, ele percebe que uma conspiração muito maior envolve cada um dos moradores da cidade – e uma história que vem se desenrolando há décadas.

À época de seu lançamento, a produção teve uma recepção um tanto quanto favorável, conquistando 71% de aprovação no Rotten Tomatoes e faturando três indicações nas categorias técnicas do Oscar. Todavia, ao revisitá-la mais de vinte e cinco anos depois de sua estreia oficial, percebemos que o filme é um espetáculo visual e uma obra-prima da fantasia gótica que merece reconhecimento muito maior pela beleza estética, técnica e narrativa que apresenta aos espectadores. Ao longo de breves cem minutos, o projeto constrói um enredo literalmente visceral que conta com ótimas performances e que reafirma a visão de Burton como um dos grandes realizadores cinematográficos das últimas décadas.

Falar da condução do cineasta parece óbvio, considerando seus trejeitos e sua paixão inenarrável pelo expressionismo alemão – e, se Burton havia apostado fichas desse estilo fílmico em obras anteriores, aqui ele transforma um contrastante jogo de luz e sombras em um pesadelo palpável, marcado por cenários grotescos e uma veneração ao sobrenatural, visto na vegetação retorcida, na constante e inescapável neblina e na caracterização do antagonista titular. Mais do que isso, ele se alia ao icônico Emmanuel Lubezki para construir uma fotografia sinestésica, realizada com a dessaturação de cores e a supersaturação do preto para garantir a claustrofobia ineludível de Sleepy Hollow. Lubezki também pega elementos emprestados da Hammer Film Productions para garantir um ar mais clássico ao projeto e explorar, ao máximo, a potência das grande-angulares.

Danny Elfman é outro grande colaborador de Burton a regressar para mais um projeto: o compositor, prestigiado por suas incursões caprichosas e mirabolantes, como vemos em ‘O Estranho Mundo de Jack’, em ‘Desperate Housewives’ e em ‘Edward Mãos de Tesoura’. Aqui, Elfman traz aspectos esperados, como cordas dissonantes e crescendos retumbantes, para fornecer a angústia e o desespero às cenas em que o Cavaleiro vai atrás de suas presas, recuando-se para uma tétrica exploração quando o mistério envolvendo a cidade vai ganhando mais pistas. E, como a cereja do bolo, temos a instigante e dinâmica montagem de Chris Lebenzon, que acerta o ritmo em cheio em cada uma das sequências.

Depp faz um trabalho fabuloso como Ichabod, pegando páginas emprestadas de outros personagens burlescos que já havia encarnado, mas mantendo o pé no chão para não exagerar além do devido – e o charme encantador do protagonista traz momentos jocoso que aliviam a constante tensão do suspense. Porém, temos outros nomes que brilham nos holofotes, incluindo Ricci em uma ótima performance como Katrina, a presença pomposa de Gambon e de Richard Griffiths, aqui dando vida ao Magistrado Samuel Philipse, e uma rendição à la Femme fatale de Richardson, cuja quietude em cena apenas prepara terreno para uma potente atuação com a chegada do terceiro ato.

‘A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça’ é um dos títulos mais subestimados da carreira de Tim Burton e, com o passar dos anos, começou a ser reapreciado em sua completude – ainda que mereça mais. Funcionando como uma gratificante homenagem a Irving e à famosa história sobrenatural, o longa é uma carta de amor ao cinema gótico e nos satisfaz desde os primeiros segundos até os créditos finais.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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