A Memória que me Contam

A Memória que me Contam

Nota:


A ARTE IMITA A VIDA OU A VIDA IMITA A ARTE?

A Memória que Me Contam é uma das mais interessantes produções nacionais de 2013. Escrito por Tatiana Salem Levy e Lúcia Murat, e dirigido por Murat (Quase Dois Irmãos), o filme aborda um tema que ainda existe como grande ferida dentro do coração brasileiro, os resquícios da ditadura militar. Inconscientemente traçando um grande paralelo com a realidade extremamente atual de nosso país, a obra de Murat traz como protagonistas um grupo de veteranos militantes da árdua época da grande censura brasileira.

Hoje, bem sucedidos em suas vidas pessoais e profissionais, o grupo se reencontra para os últimos dias de vida, numa cama de hospital, da provável líder, Ana. A personagem nunca aparece em sua forma da terceira idade, apenas através de flashbacks e lembranças, nas quais todos interagem com sua presença ainda jovem, personificada pela talentosa Simone Spoladore (Sudoeste). Em tais momentos os personagens sentem-se em diálogos com alguém especial de seu passado, e que significou tanto para suas vidas e ideais.

Irene

Essa narrativa é muito interessante, sempre colidindo presente com passado, nos confundindo de maneira positiva inicialmente. A Memória que me Contam usa elementos, talvez ainda inconscientemente, de duas produções recentes. A primeira é a obra francesa As Invasões Bárbaras, na qual um grupo de idealistas, agora na terceira idade, se reúne para se despedir de um querido membro de seu grupo de amigos.

E o segundo, esse mais recente, é a produção americana Sem Proteção, dirigida por Robert Redford, onde um grupo de anarquistas veteranos ainda precisa lidar com as consequências de eventos passados há décadas. Esses dois elementos são encontrados na produção nacional, que acerta em cheio no retrato bem delineado de seus personagens, ao mesmo tempo em que trata com bastante seriedade um tema dolorido e muito polêmico.

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Simone 2

Murat expõe o pensamento, e os diversos pontos de vista, de seus personagens criados de forma distante uns dos outros, justamente para conseguir pegar todos os ângulos do que significou o período. Se existe um personagem que se destaca, é Irene, vivida pela veterana Irene Ravache (Depois Daquele Baile), uma cineasta. Ela representa a persona de Murat, que baseia sua obra em experiências pessoais e reais, modificando e alterando elementos em nome da produção.

Ao final recebemos uma bonita dedicatória da cineasta para Vera Sílvia Magalhães, em quem Murat se inspirou para criar a personagem Ana (Spoladore). No elenco eficiente destacam-se Otávio Augusto, que vive o insatisfeito e famoso “do contra”, Ricardo; Naruna Kaplan de Macedo, diretora e atriz de dupla nacionalidade (e sósia de Zooey Deschanel), que vive a sobrinha de Ana – e quase um triângulo amoroso com o casal gay de filhos do grupo (vividos por Miguel Thiré e Patrick Sampaio); e o veterano italiano Franco Nero (recentemente visto em Django Livre), que vive o reacionário Paolo.



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