Crítica | ‘Casamento Sangrento: A Viúva’ é tão divertido e feroz quanto o filme original

Em 2019, três anos antes de comandarem o quinto capítulo da saga ‘Pânico’, os diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett lançavam um dos melhores filmes de “terrir” da década passada: Casamento Sangrento. Trazendo uma perspectiva original para incontáveis produções similares e trazendo Samara Weaving de volta ao gênero após seu ótimo trabalho em ‘A Babá’, a trama acompanhou Grace MacCaullay, uma jovem que se casou com o herdeiro de um império de jogos de tabuleiro – apenas para se tornar alvo de uma perigosa caçada em que será oferecida como sacrifício em um ritual satânico que garantiu o sucesso e a infindável riqueza da família de seu esposo.

Fazendo um estrondo de bilheteria ao arrecadar quase dez vezes o valor de seu orçamento e conquistando ótimas críticas por parte dos especialistas, a dupla de cineastas nos deixou animados ao anunciar uma sequência para o slasher cômico – que chega aos cinemas nacionais no próximo dia 19 de março. Intitulado Casamento Sangrento: A Viúva’, o segundo capítulo dessa inesperada franquia expande o universo criado pelos diretores e pelos roteiristas Guy Busick e R. Christopher Murphy de maneira firme, divertida e despretensiosa, apostando em uma espécie de “torneio de campeões” que parece servir de mote para diversas sagas do gênero – e que acerta em praticamente todas as notas.

A história se inicia logo depois dos eventos do primeiro filme, em que a família Le Domas falhou em matar Grace e, com isso, foi exterminada em meio a explosões de sangue e tripas. Sendo a única sobrevivente do brutal massacre, a jovem é levada para o hospital, onde é interrogada pela polícia local ao ser a principal suspeita dos assassinatos, e reconecta-se com Faith (Kathryn Newton), sua irmã distante. O que ela não imaginava é que a morte dos Le Domas daria início a uma artimanha ainda mais perigosa, em que as famílias mais poderosas do planeta se uniriam em um novo jogo para garantir a manutenção de seu status e de sua fortuna – colocando Grace e Faith em risco iminente e fazendo-as lidar com traumas passados para sobreviverem.

Assim como o primeiro filme, ‘A Viúva’ conta com um ensemble de extremo talento: de um lado, temos David Cronenberg como Chester Danforth, um magnata que fundou uma rede de resorts cinco estrelas de enorme prestígio e que deixa seu legado e a tarefa de reconquistar o trono da organização que serve à demoníaca entidade conhecida como Le Bail (um anagrama para Belial, um dos reis do inferno na literatura e na demonologia) aos filhos Ursula (Sarah Michelle Gellar) e Titus (Shawn Hatosy). Porém, na disputa pelo controle absoluto, temos também o patriarca Ignacio El Caido (Néstor Carbonell) e seus filhos Felipe (Juan Pablo Romero) e Francesca (Maia Jae); a imponente Wan Chen Xing (Olivia Cheng) e o jovem Wan Cheng Fu (Antony Hall); e os irmãos Madhu (Varun Saranga) e Viraj Rajan (Nadeem Umar-Khitab).

Cada um deles tem o mesmo propósito: matar Grace, assumir o posto de maior prestígio do Conselho e, com isso, ter uma jurisdição que ultrapassa os pensamentos mais sórdidos – e isso se torna um problema quando as complexas e rompantes personalidades dos algozes das irmãs entram em conflito constante e são subjugadas às regras de Le Bail, como a proibição de membros da competição em matar uns aos outros. A partir daí, Busick e Murphy vasculham outros elementos do universo que criaram para não apenas manter a essência do longa original viva, mas garantir que esse cosmos seja esquadrinhado ao máximo que pode – seja no grandioso escopo em que a caçada se dá, seja nas expectativas que caem sobre quem sairá vitorioso.

Weaving está de volta para mais uma ótima performance de sua carreira, reafirmando-se como uma das grandes scream queens da atualidade – cuja filmografia inclui uma memorável participação em ‘Pânico VI’. Aqui, vemos Grace imbuída com uma desilusão letárgica que é deixada de lado quando Faith está marcada para morrer; dessa forma, a nossa heroína se mostra maculada pelos traumas com a família Le Domas para se reerguer mais forte e com mais sede de vingança, meticulosamente arquitetando um plano para depor a insana seita satânica que quer vê-la morta. E, desfrutando de uma ótima química com Newton, Weaving encontra sucesso ao reprisar o papel principal.

Gellar, Cronenberg, Carbonell e todos do elenco secundário se divertem em seus respectivos personagens, com destaque ao insano trabalho de Hatosy, recém-saído de sua participação em ‘The Pitt’, como um odioso e psicótico antagonista que faz o sangue do público ferver, e à polida presença de Elijah Wood como o Advogado, intermediário dos mandamentos de Le Bail para que o jogo aconteça. Rodeados por uma sangrenta e explícita atmosfera que se mostra, por vezes, mais ácida que o longa de 2019, o projeto garante um instigante e dinâmico banho de sangue que, em segundo plano, constrói uma sutil crítica à fragilidade do status quo.

Casamento Sangrento: A Viúva’ é um dos melhores do gênero de 2026 e se esquiva dos costumeiros erros que sequências hollywoodianas tendem a cometer, deixando bem clara a ideia por trás da continuação e arquitetando um contraponto em relação ao capítulo predecessor que faz sentido dentro de um microcosmos (literalmente) explosivo, sarcástico e angustiante.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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