Quando pensamos na união da dupla Wes Craven e Kevin Williamson, a primeira coisa que nos vem à mente é a franquia Pânico. No entanto, nove anos depois do filme original, os cineastas voltaram a se reunir para dar sua visão a um universo jovem, desta vez em torno da mitologia do lobisomem. Com a confirmação de um novo filme do monstro peludo (já em fase de pré-produção) pelas mãos da Universal Pictures, dando continuidade ao sucesso de O Homem Invisível (2020), criado pelo mesmo Leigh Whannell e com o astro Ryan Gosling no papel principal, esta é uma boa oportunidade para revisitarmos um filme de mesmo tema – criado por dois mestres do terror – que está completando 15 anos em 2020.

Amaldiçoados (Cursed) foi lançado no dia 25 de fevereiro de 2005 nos EUA (sem uma exibição para a imprensa – o que nunca é um bom sinal), chegando em nosso país cinco meses depois, no dia 15 de julho de 2005. O diretor Wes Craven, é claro, se tornou uma lenda no gênero ao entregar em 1984, A Hora do Pesadelo – um dos filmes de terror mais famosos de todos os tempos, e que gerou uma franquia de nada menos que nove filmes. Andando meio mal das pernas em meados da década de 1990, ele daria a volta por cima, reinventando o cinema slasher para toda uma geração ao dirigir o roteiro de um novato no ramo em seu primeiro texto para o cinema – o escritor Kevin Williamson. É claro que falamos do sucesso Pânico (1996).

A dupla se reencontrou para a sequência Pânico 2 (1997) um ano depois, e a esta altura Williamson já era tido como o novo Midas do terror adolescente, entregando roteiros para Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Prova Final (numa parceria com Robert Rodriguez) e até se arriscando na direção com Tentação Fatal. Além, é claro, de criar seu próprio programa na TV: Dawson’s Creek (1998-2003), fenômeno juvenil que exportou talentos como Katie Holmes e principalmente Michelle Williams. Muitos podem não saber, mas o roteirista também foi responsável pela criação de seriados de sucesso depois do drama coming of age citado, como Diários de um Vampiro (The Vampire Diaries), que durou oito temporadas; e The Following, protagonizada por Kevin Bacon.



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Devido a uma agenda cheia (segundo afirma o roteirista), Williamson ficou de fora de Pânico 3 (2000) – o elo mais fraco da “quadrilogia” – com texto assinado por Ehren Kruger. Assim, por quase dez anos sem trabalhar juntos, os colegas estavam sentindo saudade da parceria e resolveram arquitetar um projeto para reatar os laços. Tudo, é claro, capitaneado pela mesma Dimension Films (braço da Miramax, estúdio dos irmãos Weinstein, para lançar obras de terror e ficção). Os planos originais eram para uma franquia, nos moldes de Scream. Assim nascia o problemático Amaldiçoados (cujo título faz alusão à maldição da besta, tirado do clássico O Lobisomem, 1941), obra que pretendia ser tão esperta quanto à parceria anterior da dupla, trazendo o tema para a Los Angeles moderna, e fazendo para os filmes de lobisomem o que seu primeiro trabalho fez para os slasher de assassinos mascarados.

Existe muito para saber antes de crucificarmos o resultado final, que, diga-se de passagem, é uma bagunça completa. O filme viveu para se tornar um fracasso, um dos maiores nas carreiras de ambos Wes Craven e Kevin Williamson, além de todos os outros envolvidos. Dono de 17% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, o longa contou com um orçamento de US$38 milhões (o qual segundo as más línguas ultrapassou os US$40 milhões) e viu de volta apenas US$19 milhões nos EUA – e mais US$10 milhões ao redor do mundo.



O que vemos em tela no produto final é um whodunit (no estilo Pânico) com lobisomens, onde a pergunta é quem dentre os jovens personagens é a verdadeira identidade da besta espreitando e dilacerando suas vítimas. A trama gira em torno de um acidente de carros na famosa estrada Mulholland Drive, onde uma criatura mitológica fere dois irmãos, aos poucos transformando-os em seres semelhantes. A “Sidney” da vez é Ellie, personagem de uma Christina Ricci (Família Addams) sem qualquer energia. Seu irmão caçula Jimmy é vivido por Jesse Eisenberg – já exibindo muitos de seus maneirismos e carisma nerd em um de seus primeiros papeis de destaque no cinema. Sua subtrama, aliás, tem muito de O Garoto do Futuro (1985), clássico 80’s com Michael J. Fox, já que de nerd retraído e impopular ele se torna a sensação do colégio, até mesmo conquistando a garota de seus sonhos, após ir se transformando num lobisomem.

A trama se divide em duas, com dois núcleos que se cruzam ao final. Temos o núcleo do high school de Jimmy, com a paquera Kristina Anapau (True Blood) e o valentão Milo Ventimiglia (o filho de Rocky Balboa nos últimos filmes); e o núcleo adulto, com Ricci nos bastidores de um talk show, onde se encontram a irritante colega de trabalho (Judy Greer, a filha de Jamie Lee Curtis no reboot de Halloween) e o namorado (Joshua Jackson, da citada Dawson’s Creek). Temos ainda as participações da cantora Mya (sensação no início dos anos 2000, sendo parte do quarteto da chiclete Lady Marmalade – que embalou a superprodução Moulin Rouge) e de Portia de Rossi (esposa da apresentadora Ellen DeGeneres) como uma vidente que prevê a tragédia toda. As semelhanças com a fórmula de Pânico continuam com uma primeira vítima famosa (Shannon Elizabeth, de American Pie e 13 Fantasmas), a suspeita do envolvimento do namorado, cameos com tiração de sarro (aqui com o ator Scott Baio e o apresentador Craig Killborn interpretando eles mesmos) e o uso de humor – que nunca acerta a nota, se tornando não intencional.



Alguns envolvidos, como a atriz Judy Greer e o próprio diretor Wes Craven, por exemplo, se pronunciaram sobre a produção ao longo destes 15 anos. Greer diz ter se divertido muito durante as filmagens e afirmou, durante uma entrevista em 2014, não entender como o longa pôde ter saído tanto dos trilhos. Segundo ela, o roteiro era engraçado e eles filmaram material suficiente para uns três filmes. Já o saudoso mestre Craven, falecido em 2015, relembrava de sua experiência no filme com pesar. O diretor revelou ter perdido dois anos e meio de sua vida com um filme que não saiu como foi pensado, devido à interferência do estúdio – nesse período deixando outros projetos de lado em nome do dinheiro (segundo Craven, os Weinstein pagaram o dobro do salário do diretor para que ele permanecesse no projeto, e isso custou um preço alto à sua carreira – depois de Amaldiçoados, o cineasta lançou apenas mais três filmes).

Amaldiçoados sofreu um embargo de mais de um ano para ser lançado (o projeto teve início em 2000 e a produção começou em 2003), e quando finalmente chegou às salas nos EUA, o apresentador Craig Killborn (parte da trama, já que a protagonista trabalha em seu programa) já havia sido substituído por Craig Ferguson no Talk Show The Late Late Show. Ou seja, mais um tiro no pé da produção. O motivo do atraso foi a exigência do poderoso chefão Harvey Weinstein para que o roteiro fosse reescrito e mais da metade do filme fosse regravado – uma prática comum dos Weinstein, segundo relatos. Os produtores queriam um filme nos moldes do sucesso Pânico, daí o resultado final com inúmeras semelhanças, como o desfecho com o namorado da protagonista.



Craven e o editor Patrick Lussier (Drácula 2000, Dia dos Namorados Macabro 3D e Fúria Sobre Rodas) tiveram que se virar nos trinta, e entregar praticamente um filme novo. O fato causou a debandada de parte do elenco, e outros tantos foram sumariamente limados do corte final, uma manobra bem no estilo de Terrence Malick. Gente como Heather Langenkamp (a Nancy de A Hora do Pesadelo), Scott Foley (Pânico 3), Omar Epps (Pânico 2), Robert Forster (Jackie Brown) e Corey Feldman (Os Garotos Perdidos) terminaram junto de suas cenas no chão da sala de edição. Já outros como Skeet Ulrich (o Billy Loomis de Pânico), que seria um dos protagonistas e o namorado original, e Mandy Moore, pediram para sair, sendo substituídos por Joshua Jackson e Mya respectivamente.

Ao menos, em todas as versões e alterações, o crédito do roteiro sempre foi de Kevin Williamson. Mas será que isso é uma coisa boa? Afinal, a edição pode picotar o seu texto e aqui foi exatamente isso que aconteceu através dos mandos e desmandos dos Weinstein. Cenas desconexas, como a abertura na qual a personagem de Mya simplesmente desaparece deixando a amiga Shannon Elizabeth sozinha à noite na praia, já haviam sido filmadas com outro contexto e inseridas em outra parte da estrutura narrativa. Essa, por exemplo, era uma cena que ocorreria mais para frente no filme, e era um momento protagonizado entre Elizabeth e Skeet Ulrich (cena filmada inclusive), onde a personagem chama por Vince, depois dublada como “Jenny”. Tudo isso faz de Amaldiçoados, embora sendo um filme sobre lobisomens, uma produção verdadeiramente Frankenstein, na qual muito não se encaixa em sua curta projeção de 90 minutos.



Até mesmo os efeitos práticos da criatura peluda originalmente tinham a mão de Rick Baker, uma sumidade no tópico tendo levado os Oscar de maquiagem pelo clássico Um Lobisomem Americano em Londres e pelo remake O Lobisomem (2010) – além de uma carreira com mais 5 estatuetas da Academia. Com as refilmagens, Baker saiu, sendo substituído pela empresa KNB. Os Weinstein não gostaram nada dos efeitos práticos criados pela companhia (que convenhamos, são bem capengas), ordenando que fossem quase todos substituídos por CGI (os efeitos de computadores) – que melhoram a coisa um pouquinho. O editor Patrick Lussier inclusive afirmou que ainda possui as três edições filmadas, a versão bruta ainda sem cortes com o elenco original completamente diferente, o desfecho original, cenas mais violentas e com muito mais gore em sua totalidade, e inclusive os efeitos práticos de lobisomem criados por Rick Baker. Apesar dos fãs de Craven exigirem tal versão, os proprietários dos direitos pouco se mexem para realizar essa vontade. Onde está um #releasethecravencut de Amaldiçoados quando precisamos dele?

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