‘American Horror Story’ e os Nove Círculos do Inferno

‘American Horror Story’ e os Nove Círculos do Inferno



Em 2017, Ryan Murphy confirmou que um de seus shows mais populares, American Horror Story, era, na verdade, uma gigantesca alegoria para um dos poemas épicos mais sombrios de todos os tempos: o Inferno de Dante Alighieri.

Antes de tudo, faz-se necessário entender que obra é essa. O livro, na verdade, é a primeira parte de uma longa viagem do próprio autor através de três lugares místicos: o Inferno, mencionado no parágrafo de cima, o Purgatório e o Paraíso. Essa “passagem” introdutória é composta por trinta e quatro longos cantos escritos à tradicional época do Humanismo literário na Itália.

Aqui, o personagem principal mergulha numa jornada que funciona como a representação material do submundo medieval. Neste caso, o herói é guiado pelo poeta romano Virgílio através de nove perigosos círculos cuja entrada se localiza na cidade de Jerusalém (local onde o anjo Lúcifer caiu do céu e abriu uma gigantesca cratera até o centro do mundo) e cujas tramas explicam as origens as consequências dos não tementes a Deus, dos pecadores, dos injustos e tantos outros mortais que pereceram no pós-morte.

Levando em consideração que a antologia de Murphy é uma exploração nem um pouco convencional de múltiplas narrativas de terror, não é com tanta surpresa que nos deparamos com uma referência clássica e secular que, até hoje, é utilizada por diversos artistas para criar contos sobrenaturais de perdição e redenção.

Com a chegada da nova temporada, a saga seriada se conclui (ao menos em relação aos círculos a que se dispôs explorar). É claro que a produção já foi renovada para um décimo ano – o que significa que a jornada dos espectadores ainda não terminou. Ainda devemos retornar desse retumbante e caótico cenário e talvez encontrar um pouco de luz restante.

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Mas esse não é o propósito dessa matéria: a ideia é analisar de que forma Murphy e seus frequentes colaboradores corroboraram para transformar um gigantesco poema em algo mais contemporâneo, principalmente para as gerações de hoje.

O primeiro círculo do Inferno é conhecido como o Limbo, um lugar marcado pela desesperança e por suspiros saudosistas. Coincidentemente, esse trágico território corresponde à primeira temporada, Murder House, cujo próprio nome já é uma símile para “portal”. A casa assombrada que foi comprada pela família Harmon funcionava como uma grande passagem para a além-vida, habitada por fantasmas de pessoas que morreram em trágicos acidentes. Em uma análise mais detalhada, é até possível perceber que cada um dos espíritos não sofre mais, mas nutre-se de um passado que chegou ao fim de modo abrupto, interrompendo suas vidas.

Seguindo viagem, o segundo círculo é destinado aos luxuriosos, aos pecadores da carne, que se recusaram a abraçar a santidade do casamento e se entregaram aos desejos mundanos (tudo isso partindo de uma perspectiva católica, que fique bem claro). Essa atmosfera foi destinada à nona e mais recente iteração da antologia, 1984 – e, apesar de ter estreado ainda ontem, é bem fácil perceber o porquê de essa ser a escolha mais óbvia.

O nono ano do show nos convida a voltar para a tumultuosa e fervorosa década de 80, mais precisamente para um acampamento cujos monitores são movidos à base de drogas e de sexo. A princípio, tais temas dialogam com as claras homenagens aos famosos filmes de terror daquela época, mas também mantém relações interessantes com o que se destina àqueles movidos pela lascívia.

O próximo círculo é a prisão dos gulosos; aqui, Murphy foge por completo do que poderíamos esperar e adiciona alguns elementos eróticos para o tema. Na verdade, o terceiro vale é representado por Hotel e pelos vícios insuperáveis de seus personagens: a Condessa (Lady Gaga) e sua sede insaciável de sangue; Sally (Sarah Paulson) e sua inebriante necessidade de se drogar com heroína; John Lowe (Wes Bentley) e sua busca por justiça e por algo pelo qual viver. De fato, o quinto ano é dotado de uma representação poética deliciosamente complexa – ainda que peque em sua narrativa principal.

Freak Show é espelho do círculo da Avareza. Se pararmos para pensar, o circo dos horrores comandado por Elsa Mars (Jessica Lange) nada mais é que um conglomerado de pessoas que, no final das contas, pensam em si mesmas e que, mesmo numa condição de marginalização social, não se importam com os outros. Bette (Paulson) quer se livrar da irmã siamesa Dot (também Paulson) não importa o custo; Elsa quer se tornar famosa e deixar seu passado para trás; Dandy (Finn Wittrock) dispensa explicações, visto que é a própria encarnação de qualquer criança mimada que não aceita “não” como resposta.

O quinto círculo também dispensaria explicações, visto que se configura como a Raiva. Essa patológica e incontrolável doença ganha um fértil território com Roanoke, e não é por menos: ao longo de dez episódios que reinventam a si mesmo semana após semana, o público é bombardeado com uma overdose visual de sangue, do mais puro gore e de uma matança imparável que se estende até os últimos momentos do season finale.

Murphy retorna com suas simbologias desconstruídas com Cult, iteração que representa o círculo da Heresia. Os descrentes em Deus, na verdade, são transpostos para os descrentes do culto que cresce dia após dia e que ousa desafiar todas as leis existentes numa sociedade tomada pelo medo e pela insegurança. Eventualmente, o grupo comandado por Kai (Evan Peters) passa para as mãos de Ally (Paulson), mas não deixa de se valer do crescente desespero para alcançar o que deseja.

Muitas pessoas podem se confundir entre os círculos da Raiva e da Violência (este aqui representando o antepenúltimo território antes do centro do Inferno), mas, enquanto Roanoke apenas traduziu um sentimento intimista e que não necessariamente precisa ser materializado, Apocalypse, por mais tragicômica que tenha sido em suas vertentes dramáticas adolescentes, representa uma materialização extrema e bem mais mortal de pensamentos condenáveis. Afinal, a história, mesmo que restrita a um número exagerado de flashbacks, é movida pela explosão de bombas atômicas que destroem quase toda a humanidade. É claro que, no final das contas, esse caos é revertido – mas vamos nos ater ao que realmente importa.

Asylum representa o oitavo círculo, destinado aos fraudadores. Em uma reflexão quase redundante, os demoníacos protagonistas do Manicômio Briarcliff não apenas mentem para si próprios, mas estendem esse ardil reino de hipocrisia para seus “residentes”. Desde o Dr. Arthur Arden (James Cromwell) até a Irmã Mary Eunice (Lily Rabe) vivem de conluios controversos, arrastando inclusive a jornalista e escritora Lana Winters (Paulson) para um completo pesadelo que tenta transformá-la em, bom, uma ameba.

Por fim, a fan-favorite Coven se situa no último e pior dos círculos: o da Traição. Ao longo da terceira temporada, as poderosas mulheres que compuseram o clã de Fiona Goode (Lange) e, mais tarde, de sua filha Cordelia (Paulson), não pensavam duas vezes antes se atacarem e passarem por cima de qualquer pessoa para conseguirem o que almejavam. Dito isso, grande parte do elenco encontrou sua ruína em meio à completa falta de dignidade – algumas nos arrancando suspiros de indignação e outras, de satisfação.

American Horror Story sem sombra de dúvida é uma série mais complexa do que acreditamos e se vale de antigas inspirações que nunca perdem capacidade de serem relidas. Apesar dos deslizes ao longo desses nove anos, é inegável dizer que a produção marcou gerações e que seu cânone servirá de referência para obras futuras. Ou pelo menos assim esperamos.



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