São poucos os artistas que carregam consigo legados atemporais no cenário musical: temos, por exemplo, o impacto inegável do rei e da rainha do pop, Michael Jackson e Madonna, a emblemática Britney Spears e a titânica Beyoncé, cada qual remodelando uma indústria efêmera e muitas vezes nociva a seu bel-prazer e tendo influenciado gerações e gerações de performers (principalmente quando nos referimos ao escopo mainstream). E, talvez, Lady Gaga tenha sido o último nome a ter alcançado esse patamar.
A Mother Monster, como foi alcunhada por sua crescente legião de fãs, é o que podemos encarar como zeitgeist cultural, navegando pelos altos e baixos do mundo do entretenimento e entendendo as dinâmicas e as engrenagens desse efervescente cosmos a fim de encontrar uma voz única e, ao mesmo tempo, uma ponte entre passado, presente e futuro que estremeceu as estruturas por vezes engessadas da música. Tendo feito sua magnífica estreia em 2008 com ‘The Fame’, o alter-ego de Stefani Joanne Angelina Germanotta trouxe o synth-pop e o dance-pop de volta aos holofotes com singles memoráveis e que, quase duas décadas desde seu lançamento nas rádios, continuam a integrar playlists e setlists ao redor do planeta. Afinal, como nos esquecermos das robóticas e explosivas incursões de “Poker Face”, uma das canções que definiram os anos 2000? Ou a instigante e ousada narrativa de “Paparazzi”, que se tornou uma de suas assinaturas? Ou a sexy e ambígua incursão de “LoveGame”?

Com apenas 22 de idade, Gaga causou fervor com ‘The Fame’, que, hoje, reside como um dos grandes álbuns de todos os tempos com mais de 40 milhões de cópias vendidas – e cujo sucesso absoluto deve-se também à versão deluxe, ‘The Fame Monster’, que não apenas apresentou um sólido corpo de oito impecáveis faixas inéditas, como cimentou a cantora, compositora e produtora como uma das maiores de todos os tempos.
Não é surpresa que 2008 e 2009 foram dominados pela presença de Gaga em absolutamente qualquer tipo de mídia jornalística: através de “Bad Romance”, “Alejandro” e “Dance in the Dark”, a performer tomou as rédeas de uma estética mais dark e atrevido que foi incorporada por veteranas da indústria como Beyoncé, Katy Perry e Nicki Minaj; nos dias de hoje, Billie Eilish, Chappell Roan e Rina Sawayama trouxeram as raízes de Lady Gaga de volta a produções aclamadas pela crítica e premiadas pelo planeta inteiro. E, é claro, o sucesso desenfreado atraiu tabloides sensacionalistas com manchetes exageradas e sem sentido que começavam a compará-la com a lendária Madonna (alguém que, como dito pela própria Gaga, é uma de suas principais inspirações).

Os comentários ganhariam mais força em 2011, quando a cantora e compositora, sempre defensora da comunidade LGBTQIA+ e utilizando com frequência permanente sua plataforma para apoiar as causas das minorias sociais, lançou ‘Born This Way’. Considerado por inúmeros consórcios de imprensa como um dos maiores e mais importantes álbuns de todos os tempos, Gaga não pensou duas vezes antes de construir o hino queer mais marcante da indústria musical – o lead single homônimo, que estreou em primeiro lugar em dezenas de charts -, além de abordar vários temas de importante discussão. Com “Americano”, Gaga criticou as políticas norte-americanas que se opunham à presença de imigrantes em solo nacional; com “Hair”, esquadrinhou o empoderamento corporal como parte da identidade individual; com “Scheiße”, uniu sexo e feminismo em uma vibrante construção em electro-pop; e com “Judas”, borrou as linhas maniqueístas entre o bem e o mal com uma imponente releitura bíblica que culminou em seu banimento em vários países.
A artista sempre respirou arte, tendo integrado o corpo estudantil da Universidade de Nova York e, anos depois, incorporado os elementos da arte performance sob a tutela de Marina Abramović. E, sem sombra de dúvida, seu projeto mais conceitual viria em 2013 com o subestimado ‘ARTPOP’. Ao referenciar Abramović, Andy Warhol e Sun Ra, Gaga promoveu um encontro entre os diversos tipos de expressão artística em acepções contundentes que variam desde os rompantes sintetizadores até uma análise sobre fama, status quo e libertação. Não é surpresa que, apesar do fracasso crítico e comercial à época, ele tenha sido redescoberto pelo público e pela crítica, que agora o caracterizam como um projeto à frente de seu tempo e incompreendido.

Todavia, considerando as poucas e boas que enfrentou à época, uma repaginação era necessária – e, mesmo que alguns insistam em dizer diferente, suas incursões em outros gêneros ajudaram a reafirmar uma habilidade camaleônica invejável. Com ‘Cheek to Cheek’, Gaga se aliou a Tony Bennett para uma releitura de clássicos do jazz e do blues dos Estados Unidos (ambos conquistando uma estatueta do Grammy pelo projeto); ‘Joanne’, por sua vez, a colocou lado a lado com o country-pop e o glam-rock em uma pessoal e dolorida declaração que influenciaram nomes como Kylie Minogue, Harry Styles e Miley Cyrus. E essa versatilidade foi vista também em 2015, quando levou um Globo de Ouro de Melhor Atriz em Antologia por ‘American Horror Story’; e em 2018, com sua estreia como protagonista no cenário cinematográfico: o remake de ‘Nasce Uma Estrela’ não apenas lhe garantiu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, como lhe permitiu quebrar recordes e mais recordes com a música mais premiada da história, “Shallow” (dueto com Bradley Cooper).
Sua paixão pela reinvenção e por explorar elementos diferentes de uma carreira esplêndida continuaria sem previsão de acabar. Nas telonas, Gaga voltou a ser elogiada por seu trabalho na cinebiografia ‘Casa Gucci’ (2021), encarnando a assassina Patrizia Regianni, além de ter eternizado uma nova versão da icônica Arlequina com ‘Coringa: Delírio a Dois’ (2024). Já na música, ela conquistou mais uma indicação a Álbum do Ano com o álbum ‘Love for Sale’, retomando parceria com Bennett (em sua última incursão fonográfica antes de falecer); mergulhou no house e no dance com o frondoso e vibrante ‘Chromatica’; e, no ano passado, entregou uma obra-prima incomparável com uma mistura irruptiva de gêneros que recebeu o título de ‘MAYHEM’ (e que lhe rendeu mais duas estatuetas do Grammy).

Ainda que certos comentários de haters insistem em diminuir o crescente impacto de uma das maiores artistas de todos os tempos, Lady Gaga permanece no topo por uma razão: sua arte. Seja reunindo 2,5 milhões de pessoas na Praia de Copacabana, seja ao lançar a canção mais bem-sucedida da história com Bruno Mars, “Die With a Smile”, a titânica performer construiu e continua a construir um legado prestigiado e memorável em todos os aspectos.

