Crítica | Disney aborda o luto de forma belíssima em ‘Versa’

Por décadas, a Disney encantou o mundo com seus curtas-metragens. Fossem eles lançados diretamente nos cinemas para sessões exclusivas, ou exibidos antes dos longas da casa, ou até mesmo lançados como bônus de VHS, DVD e Blu-Ray, a tradição dos curtas perdurou por anos na casa, servindo como um tipo de laboratório de testes para futuros diretores dos longas animados. A Pixar, por exemplo, descobre seus novos talentos assim.

Porém, com a popularização dos streamings, a magia de conferir os curtas antes dos filmes ou nos bônus das versões de Home Video acabou se perdendo. Isso porque os curtas-metragens acabaram virando uma “isca” do estúdio para trazer mais assinantes para o Disney+, com a promessa de lançamentos de conteúdos inéditos. Entretanto, a divulgação desse material não ganha tanto destaque quanto a de filmes e séries que entram no catálogo. Por exemplo, nesta sexta-feira (27), Versa chegou ao Disney+ e praticamente não se falou nele.

Com aproximadamente seis minutos de duração, esse curta é conduzido sem diálogos, focando na história de um casal cósmico que vai do céu ao inferno em um estalar de dedos. Eles descobrem que estão esperando um bebê e começam os preparativos para sua chegada. Porém, uma infelicidade indescritível acontece e eles acabam perdendo a criança antes do nascimento. Como seguir a vida desse jeito?

Os personagens não têm nomes, vozes ou uma história prévia. Só o que se sabe sobre eles é que se amam e se movimentam pelo cosmo como em um balé sobre o gelo. Quando o amor acaba sendo engolido pelo luto, um dos sentimentos mais complexos de se vivenciar, a magia do dia a dia se perde, enquanto uma é tomada pelo vazio da perda, e o outro tenta agir com naturalidade, ignorando – mesmo que de forma despercebida – a tristeza que toma conta de sua existência.

Com uma narrativa densa e sem diálogo algum, a trama é conduzida justamente pelas expressões do casal e pela ambientação, que sai de um vermelho vivo para um azul melancólico após a perda. Por se tratar de um curta que aborda justamente essa “dança da vida”, com altos e baixos, alegrias e tristezas, expectativas e frustrações, a movimentação dos protagonistas é fundamental para expressar sentimentos e sensações.

Para criar esse casal, a equipe criativa se inspirou em um casal de patinadores de gelo da vida real, Ben Agosto e Katherine Hill, que fazem coreografias espetaculares no YouTube. O time prestou consultoria e ajudou a trazer à vida essa história sobre resiliência e as dores do dia a dia que nem todo mundo vê, apesar de estarem acontecendo a todo momento por aí. É uma história belíssima, contada de forma concisa e extremamente emotiva. A fluidez da movimentação dos personagens dá a sensação do público estar assistindo uma apresentação olímpica de patinação ou um balé clássico feito com o que há de melhor na animação 3D. É de encher os olhos, tanto narrativa quanto esteticamente.

E se essa história dramática funciona é porque foi inspirada em um acontecimento real da vida do roteirista e diretor do curta, Malcon Pierce. Como o próprio explica na introdução do curta-metragem, ele viveu um período que deveria ser de muita alegria em sua vida, mas acabou ficando marcado por um trauma capaz de tirar a sanidade de qualquer um. Enquanto ele trabalhava na supervisão da animação Moana (2016), perdeu seu bebê, Cooper. A situação foi devastadora. E como o chá de bebê de Cooper havia sido feito com o tema “Brilha, Brilha, Estrelinha”, Pierce manteve o filho em seu coração como uma estrela em sua vida.

O problema é que lidar com essa perda não foi fácil. Apesar do apoio dos amigos, conseguir sentir a perda foi algo muito cruel para o casal, que sofreu de suas respectivas formas. A ideia do diretor, ao voltar a trabalhar, era encontrar uma forma de homenagear o filho perdido, buscando de sua experiência pessoal uma forma de abordar o luto de forma sincera e respeitosa. Eventualmente, o casal conseguiu ter outro bebê, Casper, que acabou sendo concebido após eles vivenciarem seus momentos de cura. E foi dessa jornada de cura e autodescoberta que surgiu a alma de Versa, a grande homenagem sonhada pelo pai.

O mundo passa por um momento de muitas perdas, e isso reflete na arte de forma geral. Em 2025, por exemplo, plateias de todo mundo se debulharam em lágrimas com Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, que mostra a arte como cura para o luto também proveniente da perda de um filho e do efeito explosivo que isso pode ter na vida de uma família. Mas a verdade é que o tema vem sendo cada vez mais explorado desde a pandemia, quando o planeta foi tomado pela Covid-19, que deixou mais de 7 milhões de mortos por aí.

Produções da própria Disney, como a série WandaVision (2021), já abordaram o tema do luto por sua própria perspectiva, mas talvez nenhuma dessas obras da “leva” pós-pandêmica tenha conseguido abordar essa temática de forma tão breve e sensível quanto Versa, um curta que mesmo sem ter uma fala sequer, tem muito a dizer – e sentir. É um dos melhores curtas da casa neste século, sem exagero algum.

Versa está disponível no Disney+.

Notícias

As MELHORES Animações do Ano (Até Agora)

Estamos nos aproximando do fim da primeira metade de...

‘Barbie’ vai ganhar um NOVO filme!

Chris Meledandri, CEO da Illumination, comentou recentemente sobre os...

‘Mensagens para Isabelle’: Rom-com com Zoey Deutch e Nick Robinson SURPREENDE no Rotten Tomatoes!

'Mensagens para Isabelle' ('Voicemails for Isabelle'), comédia romântica estrelada...

Kara e Krypto se DIVERTEM no novo teaser de ‘Supergirl’; Confira!

'Supergirl', o mais novo filme do DCU que traz Milly Alcock...
Pedro Sobreiro
Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.