Artigo | A representatividade feminina em Hollywood: analisando os filmes ‘Roxie Hart’ e ‘Chicago’

O artigo em questão é continuação das matérias sobre o Código Hays e do Teste de Bechdel e finaliza nosso especial sobre a representatividade feminina em Hollywood.

O filme ‘Roxie Hart’ (1942) foi baseado na peça de mesmo nome estreada em 1926. A peça, baseada em fatos reais, conta a história do julgamento de duas mulheres, Roxie Hart e Velma Kelly, que assassinaram, respectivamente, seu amante e seu marido. Em 1975, ‘Chicago’ foi transformado em um musical, e sua mais recente adaptação é o filme homônimo de 2002.

Apesar de ter sido baseado na peça Chicago, o filme ‘Roxie Hart’ é uma adaptação bem distante da original. Na peça, Roxie é culpada do crime que cometeu, e nas adaptações musicais, usa o assassinato e o julgamento para se promover, assim como Velma Kelly.

Porém, por ter sido produzido durante o período do Código Hays, a personagem não podia ser culpada do assassinato, e se fosse, deveria ser punida no final. Portanto, Roxie é inocente no filme de 1942, mas ainda usa o crime para se promover.

À primeira vista temos a impressão de que a personagem principal é uma mulher forte que manipula os homens, essa impressão é reforçada pelo modo como trata seu marido e por toda a representação dele durante o filme. Contudo, durante o decorrer do filme, percebemos como Roxie é, na verdade, manipulada pelos homens ao seu redor, e tem pouco controle sobre suas próprias ações em seu esquema de publicidade.

Após sua prisão, seu marido consegue contratar um dos melhores advogados de Chicago, Billy Flynn, o homem que acaba controlando todo o esquema de Roxie, que também foi sugerido por outro homem, o jornalista Jake Callahan. No final, Roxie consegue se salvar, mas não inteiramente por mérito próprio, mas porque fez exatamente tudo o que seu advogado oportunista lhe disse para fazer, e mesmo assim não consegue a fama, e acaba se casando com o jornalista que nos narra a história, e com ele tem uma dezena de filmes. Um final típico dos filmes produzidos durante o Código.

Além de tudo, Velma Kelly, personagem que na peça original e nas outras adaptações divide o protagonismo com Hart, aparece somente uma vez sob o nome de Velma Wall, em uma única (e curta) cena em que briga com a protagonista. Aliás, durante a briga escutamos barulhos de gatos, colocados no filme para nos remetermos às “cat fights”.

Se compararmos ‘Roxie Hart’ com o filme ‘Chicago’ (2002), podemos perceber como o Código Hays também afetava negativamente a representação das mulheres nos filmes. Em primeiro lugar, no filme dirigido por Rob Marshall, Roxie, que manipula e menospreza seu marido, realmente mata seu amante Fred Casely, e se aproveita da situação para se promover. Ao contrário da Roxie de 1942, a personagem encontra Billy Flynn e tenta contratá-lo por conta própria, e chega até a oferecer seu próprio corpo como pagamento. Durante a contratação do advogado, ela manipula e usa seu marido apenas como um meio para pagar Flynn. Outra grande diferença é o fato de que muitas vezes a Roxie da nova adaptação confronta o advogado e age por conta própria, e isso gera alguns conflitos entre os dois. Ela faz somente o que acredita que irá beneficiá-la, e não segue cegamente o que seu advogado quer que faça.

Velma Kelly é uma importante personagem em ‘Chicago’ de 2002. É a concorrente de Roxie, outra mulher que usa o crime que cometeu (ela assassinou seu marido e sua irmã após descobrir que eles tinham um caso) como publicidade, e é a estrela da prisão e dos jornais até a chegada de Roxie, que a admirava muito.

Vale lembrar que na adaptação para musical temos o número “Cell Block Tango”, com Velma e outras cinco mulheres que contam o motivo para terem assassinado seus maridos e namorados, e se justificam diversas vezes no decorrer da música – como nos versos “se nos usaram e abusaram, como podem dizer que estamos erradas?”. Algo desse tipo jamais seria permitido durante o Código.

Uma das maiores diferenças entre os dois filmes analisados também se encontra no final. Como já foi dito, na produção de 1942, a inocente personagem é absolvida; porém, ela não consegue a fama e acaba se casando e tendo filhos com um jornalista que se mostra apaixonado por ela no decorrer da trama.

Esse final pode ser visto como uma punição pelo fato de Hart ter desejado a fama através de um assassinato, já que Roxie não fica famosa e se torna novamente o tipo de pessoa que não queria ser – uma simples dona de casa com uma vida comum. Em ‘Chicago’, Roxie, culpada pelo crime que cometeu, também é absolvida e não consegue a fama que buscava, mas não torna a se casar após se separar de seu marido Amos. Em vez disso, começa a fazer audições em grandes teatros e cabarés, seguindo seu sonho de fama. Velma é liberada pouco depois e procura Hart com a proposta de fazerem um número juntas, já que ambas se tornaram famosas durante o tempo que passaram na prisão. A performance tem um enorme sucesso e ambas terminam exatamente onde queriam – em um número musical de empoderamento e de libertação.

Podemos observar como a influência do Código Hays afeta a complexidade e representação dessas personagens. Em 1942, Roxie é inocente, controlada pelos homens de sua vida e torna-se a dona de casa que nunca seria ser, como punição. Em 2002, a mesma personagem é culpada pelo crime que cometeu, controla seu próprio “esquema” com a ajuda do charmoso advogado Billy Flynn (Richard Gere), é absolvida e termina bem sucedida com outra mulher, que trilha um caminho similar.

Em relação ao Teste de Bechdel, pode-se analisar as disparidades de representação feminina que ambos os filmes apresentam. Enquanto ‘Roxie Hart’, por mais que se passasse numa prisão feminina e apresentasse cenas em que mulheres conversavam, sempre faziam alusão a homens e/ou assassinatos envolvendo homens. ‘Chicago’, por sua vez, apresenta diversas cenas em que Velma, Roxie e outras personagens conversam entre si sobre a possibilidade de libertação, redenção e aumento da publicidade, bem como autonomia artística e política.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.