O nome John Carpenter não ascendeu a um dos mais conhecidos da cultura pop por qualquer motivo, e sim por ser o responsável por alguns dos filmes de terror mais icônicos e memoráveis de todos os tempos – como a franquia Halloween, A Bruma Assassina, Fuga de Nova York e ‘O Enigma de Outro Mundo’ (apenas a encargo de exemplos). Antes de Wes Craven eternizar Ghostface e Freddy Krueger com as sagas slasher ‘Pânico’ e ‘A Hora do Pesadelo’, antes de Sean S. Cunningham nos convidar para uma jornada mortal com ‘Sexta-Feira 13’, Carpenter já causava comoção generalizada com um estilo que ficaria marcado a partir do final dos anos 1970, influenciando uma geração inteira de realizadores que viriam depois dele.

Conhecido por seu estilo técnico minimalista – que se estende para a luz, a fotografia e para enquadramentos que não mergulham na superelaboração, mas buscam uma efetividade clara e ambígua -, Carpenter carrega consigo um diferencial que desde sempre o acompanhou: a música. Ele não é apenas um diretor e um roteirista, mas também um compositor muito talentoso que apenas serviu como reiteração de uma paixão pela multiplicidade artística, transformando-o em um performer completo que, até os dias de hoje, é revisitado por inúmeros cantores (e aqui, cito o álbum de Dia das Bruxas ‘TURN OFF THE LIGHT’, de Kim Petras, que bebe de Halloween em uma amálgama mimética diabolicamente deliciosa).

Assim como seus longas-metragens, o realizador transferiu essa necessidade funcional para belíssimas trilhas sonoras – e o fez com uma revolução premeditada que o calcou como um dos precursores do synth-music. É claro que investidas anteriores desse gênero aconteciam desde o rock eletrônico e até mesmo com o disco, mas não foi até os anos 1970 que ele ganharia maior notoriedade e uma possibilidade ainda maior de experimentações sonoras e de progressões que fugiam da obviedade. Inspirado pelo pai, que trabalhava como professor de música (via PMT), Carpenter sabia o que queria fazer e como queria fazer, permitindo que a industrialização sintética que acompanhava os instrumentos se transmutasse em uma sensorialidade atmosférica de arrepiar os cabelos e nos incitar a olhar para trás, com medo de que uma figura medonha nos seguisse pelas sombras.



Halloween é o exemplo mais clássico da utilização do synth que ele fazia: imortalizado como não apenas um dos maiores longas-metragens do gênero (incluindo o combo Michael Myers/Laurie Strode nas telonas), mas como uma das trilhas sonoras que definiram o século XX, cada elemento é pensado com exímia cautela. De um lado, o tema principal se esvai em toques de piano repetitivos e misteriosos, abrindo espaço para uma retumbante ambientação; de outro, o aspecto do medonho e do assustador grita através de reverberações propositalmente dissonantes ganha vida em uma materialização monstruosa e angustiante; aqui, demonstra-se um apreço pelo bizarro que seria revisitado em uma constância incrível, alicerçando uma identidade única.

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Carpenter apresentaria uma versatilidade muito bem-vinda com filmes subsequentes – sempre se mantendo fiel às traduções do sci-fi e do terror. Em A Bruma Assassina, seu primeiro lançamento nos anos 1980, promove-se um mergulho profundo num espectro mais dramático e orquestral, permitindo que a densa presença do piano desse o pontapé inicial na trilha sonora. Ao longo das tracks que se fixam no âmago de uma exploração musical, os sintetizadores se mostram com menos pungência – mas com impacto similar visto em Halloween. A progressão contínua e monofônica emula as grandes máquinas que pincelaram o imaginário de artistas da ficção científica, entregando um significado para além do óbvio e deixando claro que o perigo sempre está próximo e nunca deixa de existir.

Já em Fuga de Nova York, Carpenter decide gastar seu tempo com uma construção “mercadológica”, por assim dizer. Os sintetizadores permanecem vivos, mas dentro de uma pontualidade dramática e que reflete o arco dos personagens, não apenas o cenário em que eles se encontram – motivo pelo qual há uma maior correspondência com o pop e com o techno. Mais do que nunca, o realizador reafirma seu apreço pelo futurismo e pelo cibernético – e adentrar nesse onírico e distópico panorama se repetiria algumas décadas depois, com os compilados intitulado ‘Lost Themes’ (que merecem ser ouvidos, acreditem em mim). A partir da segunda metade dos anos 1990, Carpenter abraçaria conceitos fantasiosos e anacrônicos (no melhor sentido da palavra, diga-se de passagem), voltando e avançando no tempo com, por exemplo, a orquestral e evocativa trilha de A Cidade dos Amaldiçoados.



John Carpenter completa 74 anos no dia de hoje, 16 de janeiro de 2022, e, desde sua estreia no mundo do entretenimento à contemporaneidade, precisa ser descoberto pelas novas gerações e revisitado constantemente mesmo por aqueles que conhecem sua carreira de cor e salteado. Não me restrinjo apenas aos aplaudidos longas-metragens que comandou, mas, como ficou claro neste breve texto, às composições metamórficas que arquitetou com tanto espero. E, quando entremos a relação intrínseca entre sua música e sua arte fílmica, a experiência se torna mais completa e satisfatória – disso não tenham dúvida.

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