segunda-feira, janeiro 5, 2026

Artigo | Cerca de 18 anos depois, ‘Wall-E’ segue mais atual – e necessário – do que nunca

DestaqueArtigo | Cerca de 18 anos depois, 'Wall-E' segue mais atual – e necessário – do que nunca

Lançado em 2008, Wall-E é uma das ficções científicas mais espetaculares dos anos 2000. Porém, por se tratar de uma animação da DisneyPixar, muitos não encaram desse jeito, vendo o filme como “apenas” mais uma aventura animada do estúdio do camundongo. No entanto, ao revisitar esse filme, é possível encará-lo por diferentes óticas, principalmente no que diz respeito à Fórmula Pixar, que foi do céu ao inferno nos últimos anos, com uma possível fadiga do público a seu respeito.

Para quem não conhece, a tal fórmula foi moldada ao redor de cerca de 20 pontos que marcam todas as produções do estúdio, sendo a principal delas a ideia de que os filmes devem ser feitos para que os pais queiram levar os filhos aos cinemas, e não o contrário. E isso é construído por meio de personagens disfuncionais, “excluídos” da sociedade em que vivem, moldados de forma empática. Tudo isso embalado pela mais avançada tecnologia de animação, sempre inovando e buscando ao máximo o fotorrealismo, que foi o que deu ao estúdio suas maiores glórias.



E parte importante da narrativa do estúdio é mostrar que a vida nem sempre é ditada pelos sucessos e que os sonhos são importantes, mas quase nunca se realizam. Porém, a genialidade da Pixar ao abordar esse tema foi conseguir mostrar ao público, geralmente de forma muito emocionante, que está tudo bem se os sonhos não se realizarem, porque a vida encontra um meio de se desenvolver ante as frustrações. E talvez se não der para corresponder às expectativas, esses caminhos alternativos escondem recompensas tão boas quanto, quiçá melhores do que as sonhadas previamente.

Foi seguindo essa ideia que o Relâmpago McQueen perdeu sua primeira Copa Pistão, mas descobriu o amor verdadeiro e a paixão pelas corridas em Radiator Springs, que o levaram a um heptacampeonato da Copa Pistão nos anos seguintes. Foi assim que Carl Fredricksen descobriu que nunca ter levado sua esposa, Ellie, para o Paraíso das Cachoeiras – fazendo com que ele mergulhasse em um estado constante de luto, após a perda do amor de sua vida – não poderia impedi-lo de viver novas aventuras. Foi assim que Flick, após estragar acidentalmente a “oferenda” para os gafanhotos, mostrou a todo o formigueiro que eles eram explorados e viviam sob um regime de medo mascarado de normalidade, e que era possível eles tomarem o controle sobre a própria colônia, contanto que unissem forças. São filmes que dão esse choque no dia a dia dos personagens, mostrando que se as coisas não derem certo “como deveriam”, sempre haverá alternativas.

No entanto, Wall-E se destaca por seguir um caminho narrativo contrário em meio ao auge da Fórmula Pixar nos cinemas. A divulgação do filme foi toda voltada para o público infantil, com cenas do robozinho dançando e brincando por aí, apostando no visual simpático e divertido do protagonista e de sua relação com a baratinha de estimação. No entanto, o que se viu no filme foi algo completamente diferente do estilo de histórias contadas pelo estúdio. A começar pelo protagonista, que não tem muitas falas. Por isso, é um longa com pouquíssimo diálogo, algo praticamente impensável para uma animação dos anos 2000. Mais do que isso, ele mistura a animação 3D com cenas em live-action do ator Fred Willard. Algo inédito e nunca mais repetido pela Pixar nos cinemas. Por fim, o filme mostra um sonho frustrado que é retomado como solução após o surgimento deste pequeno e novo sonhador.

A trama se passa nos anos 2800. Após séculos de exploração capitalista desenfreada, a Terra “pediu arrego”. Diante do consumismo exacerbado, os recursos naturais se exauriram, os mares ficaram poluídos e uma nuvem de poluição bloqueou a incidência da radiação solar no planeta, impedindo a fotossíntese e, por consequência, a renovação ambiental natural. Sem o nascimento de novas plantas e com a vida marinha praticamente extinta, o ar ficou tóxico e a humanidade teve de deixar o planeta para viver provisoriamente em uma nave planetária no espaço, enquanto robôs de limpeza, os Wall-E, foram deixados para compactarem o lixo e recuperarem ao menos a superfície da Terra.

Porém, as coisas saem de controle e a humanidade passa nada menos que sete séculos na expectativa de voltar para casa. Nesse tempo, com gerações nascidas no espaço, a Terra vira apenas uma vaga lembrança nos registros do computador de bordo, fazendo com que a humanidade viva tranquila sob comando das máquinas, que fazem todas as atividades na espaçonave. É algo tão “confortável” que as pessoas sequer precisam andar, perambulando por aí em cadeiras automatizadas flutuantes.

Enquanto isso, na Terra, o projeto dos Wall-E deu errado, restando apenas um robozinho funcionando no planeta. E aí que nasce o nosso protagonista. Com o avanço dos dias, o Wall-E ‘sobrevivente’ desenvolveu uma rotina pautada não apenas em seguir seu protocolo de limpeza, mas pela curiosidade. Em um mundo abandonado pelos humanos, a curiosidade da máquina se sobressai, coletando e explorando a cultura, que foi o que restou da humanidade no planeta em meio ao lixo.

Brinquedos, obras, música e cinema marcam o dia a dia do simpático robozinho, que enxerga o amor retratado nos musicais como um sonho distante. Afinal, sua única companheira no dia a dia é uma baratinha atrapalhada que se alimenta dos bolinhos que ele resgatou – em uma ótima piada visual sobre a artificialidade dos alimentos ultraprocessados postos à venda nos mercados. E aí que entra a grande questão do filme. A Terra aflorou a humanidade em seu único habitante, mesmo que ele seja uma inteligência artificial, enquanto os humanos, que agora habitam o espaço sideral, ficaram cada vez mais automatizados, fazendo apenas aquilo que as máquinas os permitem fazer.

O grande ponto que distancia Wall-E dessa Fórmula Pixar, porém, é a quebra de expectativas. Enquanto os outros filmes carregam um tom otimista, que é quebrado pela frustração das coisas não se desenharem “como deveriam”, até encontrarem uma solução no inesperado, Wall-E já começa com um tom agridoce, mas vê o plano de recolonização da Terra sair exatamente como fora planejado nos anos 2100 – apesar de uma atualização secreta no meio do caminho.

O longa começa com um tom bastante melancólico, mostrando a Terra destruída pelo lixo, com “prédios” formados por entulhos e um clima estranho embalado pela trilha de Alô, Dolly!, musical dos anos 1960 que acaba tendo uma importância absurda na vida do protagonista.  Além disso, é possível ouvir uma versão de La vie en rose, interpretada por Louis Armstrong. É uma trilha musical majoritariamente romântica, escolhida para ambientar o último traço de humanidade que sobreviveu ao lixo das grandes corporações: o amor. Mesmo que não seja entre humanos, mas entre duas máquinas que sequer deveriam saber o que são sentimentos, muito menos o amor.

E é por meio desse amor, não apenas o romântico, mas pela curiosidade, que o filme se desenha em uma aventura. Até onde você iria por quem ama? O pequeno Wall-E, com sua curiosidade, otimismo e amor pela exploradora EVA, vai literalmente salvar o mundo por ela. Não porque ele acha que é certo, mas é que o ele, em meio aos seus circuitos ultrapassados, sente. E é o que basta. Nesse caminho, ele faz com que os moradores da Axiom, a nave planetária que detém a população de humanos sobrevivente, acordem do transe das facilidades da automatização da vida, descobrindo que eles podem andar e podem desafiar as ordens das máquinas que determinam quando eles acordam, quando eles dormem e até mesmo quando eles se reproduzem.

O longa se constrói com base no plano de recolonização elaborado pelos próprios responsáveis pelo fim do mundo, a Buy N’ Large. A ideia era tirar a humanidade do planeta enquanto os robôs limpariam a superfície. Assim que fossem registrados nascimentos de vegetação, sinal de que a luz solar teria voltado a incidir sobre a terra e a renovação do ar fosse possível novamente, a raça humana voltaria para retomar o controle da Terra. Porém, é revelado posteriormente que a própria BNL desistiu secretamente dessa ideia, mandando a humanidade para viver no espaço pela eternidade, já que eles consideravam impossível a recuperação do planeta. É daí, inclusive, que nasce o grande conflito do filme, entre o capitão da nave e A.U.T.O., o piloto automático que recebeu essa diretriz secreta de não permitir a volta ao planeta Terra.

A grande sacada da trama, que começa dessa forma sem muita esperança, é justamente mostrar que o sonho e a esperança são as chaves. Por meio do sonhador Wall-E, eles encontram uma plantinha, provando que é possível voltar para casa. É por conta do robozinho que os moradores da Axiom se desligam das telas e descobrem, mesmo que brevemente, que existe uma vida além daquela imposta pelas máquinas do local. Por meio dele, eles conseguem deter o A.U.T.O. e traçar o caminho para a Terra. E ao chegarem no planeta, por mais que ainda em meio a montanhas de lixo empilhado, eles descobrem que aquele plano idealista e – para os próprios criadores – impossível era, na verdade, muito possível.

E nesse ponto, Wall-E é um filme que mexe diretamente com a imaginação do próprio público. Ele termina com você se questionando sobre todo esse universo apresentado. Como a humanidade fez para reverter a perda óssea? Como foi a adaptação ao ar, ainda poluído, nos pulmões ambientados ao oxigênio artificial da Axiom? Como foi a reconstrução desse planeta e a construção de uma nova sociedade adaptada às máquinas com inteligência própria? É ficção científica pura e simples, da mais alta qualidade.

Então, chegamos aos créditos finais, que talvez sejam a parte mais incrível do filme, justamente por sintetizarem com maestria tudo o que faz de Wall-E essa obra tão única. Ao som de “Down To Earth”, do Peter Gabriel, os cards vão mostrando que a humanidade se readaptou ao planeta Terra. E que mesmo com a fisiologia humana alterada pela gravidade artificial, a “volta ao lar” foi melhor do que a esperada. Conforme os créditos avançam, é possível ver a retomada da agricultura, a limpeza e reexploração dos oceanos e a volta da vida marinha. Com isso, as estruturas sociais se restabelecem, com novas formas de comércio de peixes, trabalhos de replantio e reconstrução das moradias afetadas por 700 anos de deterioração. A nova humanidade, por sinal, não é obesa, mas também não é marcada pela magreza extrema. São seres humanos de estrutura corporal mais larga, com mais músculos, com torso, pernas e braços largos, dada a necessidade de maior “trabalho braçal”.

Mais do que isso, é mostrado que os robôs atuaram junto aos humanos nessa reconstrução social, inserindo essas máquinas na nova sociedade. Só que o detalhe que mais chama atenção é como essa história da “nova humanidade” é contada nos créditos. A equipe fez uma pequena viagem pela história da arte, utilizando técnicas de diferentes eras para trazer esses capítulos posteriores ao filme. Começa com a arte grega, com o estilo geométrico das cerâmicas adaptado aos créditos, para contar sobre o replantio. Posteriormente, técnicas de pintura, como o pós-impressionismo e o pontilhismo, aparecem para mostrar épocas mais voltadas ao desenvolvimento social de humanos e robôs. Mostrando como não apenas a humanidade se desenvolveu, mas também como a arte renasceu e ajudou a reconstruir a Terra após anos de abandono.

Em meio a essa retomada, Wall-E e EVA vivem sua paixão, explorando um mundo cada vez mais verde e apreciando a pomposa árvore que sua grande aventura espacial virou.

Quase 18 anos depois de seu lançamento, Wall-E é uma mensagem cada vez mais necessária de como a humanidade deve se sobrepor às facilidades tecnológicas. Após a pandemia, o mundo pôde sentir na pele a importância da arte e como ela tem esse poder de mudar vidas. Mais recentemente, a questão do uso da Inteligência Artificial na arte vem tomando as rodas de debate, com diversas violações da moral e ética mundial. Esse tema já foi abordado no filme, que ressalta a todo momento a importância de mantermos a essência do ser humano em vez de vendê-la para as facilidades de uma vida automatizada.

Wall-E está disponível no Disney+.

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Pedro Sobreiro
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.
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