Em 2021, Adam McKay viria a lançar o que apenas podemos considerar como o filme mais popular de sua carreira – ‘Não Olhe para Cima’. O diretor, que já havia trabalhado no excelente ‘A Grande Aposta’ e comandado a cinebiografia ‘Vice’, resolveu manter-se fiel à identidade trabalhada em seus projetos anteriores para mergulhar numa comédia político-satírica que serviu como reflexo de uma fervilhante realidade enfrentada pelos Estados Unidos, em que a ascensão da extrema-direita e a derrota de Donald Trump em sua tentativa de reeleição transformou o país em palco para teorias conspiratórias, disseminação de fake news e até mesmo o negacionismo científico em meio à pandemia de COVID-19.
O complexo panorama em questão foi traduzido por McKay nessa épica ironia cinematográfica que contou com um elenco de peso e uma predileção por criticar absurdidades inacreditáveis através de uma alegoria que, apesar de ter sido explicada pelo realizador como metáfora para as mudanças climáticas, consegue servir de instrumento de análise para inúmeras vertentes. A trama gira em torno do Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) e sua aluna de mestrado Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), que descobrem que um meteoro conhecido como “assassino de planetas” está a caminho do planeta Terra e irá exterminar a raça humana caso o governo dos Estados Unidos não mobilize forças para impedir o impacto.

Com a ajuda do Dr. Teddy Oglethorpe (Rob Morgan), chefe do Departamento de Coordenação de Defesa Planetária, os astrônomos são convocados até a Casa Branca para explicar à presidente Janie Orlean (Meryl Streep) a necessidade de garantir que o Cometa Dibiasky, como fica conhecido, seja destruído. Porém, a urgência da situação é tratada sem muito interesse e importância por Janie e por seus assessores, que incluem o estranho filho Jason (Jonah Hill). Dessa forma, Randall e Kate tentam chamar a atenção da mídia para convencer os outros de pressionar as autoridades para tomarem uma atitude contra a mortal ameaça – incluindo o programa dos supercarismáticos e condescendentes apresentadores Brie Evantee (Cate Blanchett) e Jack Bremmer (Tyler Perry). Todavia, tudo o que conseguem é se tornarem piadas mundiais, levando-os em uma espiral de descrença na falta de atenção de todos.
Não demora muito até que a presidente resolva chamá-los de volta para a Casa Branca em meio a uma crise de imagem que, magicamente, a compele a recuperar sua aprovação em meio ao próprio partido e aos olhos dos eleitores. Assim, ela destina um orçamento de emergência e esquadrinha um plano de enviar uma frota de ônibus espaciais desativados e ogivas nucleares para destruir o corpo celeste e salvar o mundo. E é claro que as coisas não saem como o planejado: os planos mudam quando o magnata da tecnologia Peter Isherwell (Mark Rylance) descobre que o cometa está recheado de minérios imprescindíveis para o país e que tirariam o monopólio de outras grandes economias, reafirmando a onipresença estadunidense. Logo, ele e Janie firmam parceria para implodir o assassino de planetas pouco antes dele adentrar a atmosfera terrestre – levando Randall e Kate a uma luta para trazer a verdade à tona.

McKay constrói uma narrativa que, como percebemos, é fácil de ser acompanhada e faz um ótimo uso de sarcasmos inteligentes e propositalmente exagerados para garantir que as mensagens sejam transmitidas com clareza ao público. Em meio à simplicidade do enredo, erros técnicos são cometidos em uma constância maior do que poderíamos imaginar – mas ao menos os temas analisados carregam uma importância que, ano a ano desde seu lançamento, continuam atuais. Percebemos como uma das principais incursões exploradas é o negacionismo: afinal, desde a falta de aceitação da presidente frente a ameaça do cometa até a crescente aderência de grupos à defesa do que o governo deseja fazer, há uma onda que renega fatos científicos em prol de teorias conspiratórias que servem apenas como bode expiatório de um problema muito maior.
É dessa maneira que o realizador parte para outra exploração: o capitalismo predatório. Afinal, é notável como há um embate claro que satiriza de maneira jocosa e bastante ácida a mentalidade adotada pela extrema-direita de maximização dos lucros em detrimento do ser humano em si – e que, como podemos ver, compele Janie, uma clara representação caricata de Trump e de seus aliados republicanos, a apenas adotar medidas drásticas quando sua reputação está em jogo. E isso não é isso: no momento em que percebe que pode ultrapassar seus principais “inimigos” socioeconômicos (no caso, a China), ela volta atrás em sua decisão e visa a um acúmulo de riquezas que ultrapassa a questão máxima da sobrevivência, defendida pela presença categórica de Kate e de Randall (ainda que este tenha se rendido por um tempo às falsas promessas da fama e do reconhecimento).

As investidas sobre negacionismo, ultraindividualismo e ufanismo exacerbados partem de um princípio consciente de absurdez, como já mencionado alguns parágrafos acima, e remodela a estética non-sense para um equilíbrio entre comentários ao mesmo tempo autocríticos e alheios a como a realidade, de fato, é. Temos a descrença promovida por uma mídia sensacionalista e a preocupação dos grandes veículos em focar em uma política informativa à la “pão e circo” que promove cortinas de fumaça e uma supressão do que realmente deve ser defendido. E, à medida que o cometa se aproxima e o fim parece inevitável, há inclusive retaliações bélicas promovidas pelos apoiadores de Janie para impedir que os outros países tentem destruir o corpo celeste antes que ele extermine a Terra.
Por mais que não funcione o tempo todo, o irônico e despojado discurso promovido por McKay funcione em vários âmbitos e, mesmo quatro anos depois de seu lançamento, permanece com explorações que refletem a complexa e melancólica realidade em que nos encontramos.
‘Não Olhe para Cima’ está disponível no catálogo da Netflix.
