Em uma era em que o mundo da música era dominado pelo pop, Adele ousou desafiar o status quo com sua obra-prima, 21. Lançado há incríveis dez anos, o álbum, que se tornou um dos mais aclamados de todos os tempos e até hoje colhe frutos de seu infindável legado, foi elogiado por sua arquitetura discreta e comedida e pelo cruzamento de diversos gêneros – algo que já não víamos por um tempo, talvez desde quando Alicia Keys havia feito sua grande estreia na indústria com ‘Songs in A Minor’.

Adele tem uma carreira invejável e peculiar quando comparada a suas conterrâneas e contemporâneas. Começando com apenas 19 anos, seu début homônimo não fez tanto sucesso crítico e comercial quanto o prometido, mas já demonstrava o poder vocal e artístico do que viria a se tornar um dos maiores nomes da indústria atual. Três anos depois, a cantora e compositora encantaria fãs ao redor do mundo com uma coesa e espetacular produção que trazia de volta reflexões intimistas e as declamações pessoalistas em detrimento das incursões musicais que tomavam conta do cenário mainstream – os electro-pop-bangers do final da década anterior e que se manteriam bastante sólidos até meados dos anos 2010.



São poucas as pessoas que nunca ouviram falar de Adele e de suas power ballads, reminiscentes das obras lançadas por Céline Dion nos anos 1990. Desde “Someone Like You” a “Rolling in the Deep”, a artista demonstrou uma crua versatilidade, com rendições que resplandecem o melhor do teatralismo musical e que criam uma montanha-russa sensorial como nunca visto. Utilizando suas próprias experiências como força-motriz de 11 breves faixas – eternizadas pela competência criativa e por um time artístico que inclui nomes como Paul Epworth e Francis White -, o resultado de 21 é uma majestosa celebração de todas as etapas da vida, seja no autodescobrimento, na perda de um amor e na propriocepção sobre um futuro agridoce. É claro que a breve discografia da performer, composta apenas por três iterações, ganhou reconhecimento por seu sofrimento metafísico, traduzido em versos sólidos e recheados de metáforas românticas e/ou realistas.

Não é surpresa que o álbum tenha alcançado um sucesso crítico e comercial inenarrável, que o colocou no topo das vendas durantes dois anos seguidos (feito que só havia sido conquistado por Michael Jackson com o lendário Thriller). Aqueles que duvidavam da capacidade de Adele em se reinventar pagaram com a língua ao observar os estupendos números que, hoje, passam das 30 milhões de cópias puras (e mais de 45 milhões de cópias equivalentes), tornando-o o mais vendido do século e o terceiro feminino mais vendido de todos os tempos. E, enquanto o teor mercadológico existe inegavelmente, os elogios feitos pelos especialistas renderam nada menos que seis estatuetas do Grammy, incluindo Álbum do Ano, Gravação do Ano e Música do Ano (algo que seria conquistado novamente com o conhecido 25), além de condecorações em listas e rankings mundiais.

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Fazendo parte do compilado de 500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos da revista Rolling Stones, Adele começava a amadurecer ainda numa época bastante jovial. Em apenas dois anos de sua incursão predecessora, a cantora já começava a observar o mundo com outros olhos – transformando-se em uma humilde e paciente mulher que reconhecia seus defeitos e que não sentia vergonha de assumir os erros (algo que ficaria provado em suas múltiplas aparições em eventos públicos). Se Adele é a mulher que todos conhecemos e adoramos hoje, é graças ao refrescante e saudosista intimismo melódico que imprime em cada track.

Talvez falar de idiossincrasia seja um tanto quanto exagerado quando pensamos na performer. Afinal, ela nunca deixou de mencionar suas grandes influências, desde Amy Winehouse a Beyoncé, das Spice Girls a Mary J. Blige – motivo pelo qual insurja como fonte de inspiração para tantos atos dos últimos anos. Adele tem um apreço notável pela nostalgia e pela amálgama inescrupulosa de gêneros, cuja praticidade é revitalizada em magia e em catarse. 21, de fato, é o álbum que reúne todos os melhores elementos da artista: temos o flerte com o pop em “Rumor Has It”, a forte presença do blues e do bluegrass em “Lovesong” e o neo-soul e R&B de “I’ll Be Waiting” (uma das melhores e mais subestimadas faixas). A estática do country e do americana também são agraciados ao longo da jornada construída, mas sem se render aos engessamentos do gênero, trabalhando para a prevalência do que eles ainda poderiam fornecer ao futuro da música.



Enquanto nos Estados Unidos o soul vinha ganhando uma prioridade com a supracitada Keys, Adele alcançou um patamar pioneiro do resgate do estilo em solo britânico – o qual já havia recebido centelhas com Winehouse, Joss Stone, Duffy e Lily Allen. A estética vintage acrescentaria ainda um novo capítulo ao classicismo dos anos 1940 e 1950, abrindo portas para um impacto multigeracional da mesma forma que Lady Gaga havia feito entre 2008 e 2011 e continua fazendo nessa nova década com precursora do neo-house.

Já faz um tempo desde que Adele não nos agracia com um compilado de originais – e, enquanto ela não resolve parar a indústria da música novamente, é sempre possível revisitar seus trabalhos anterior. Tendo 21 no topo de uma carreira esplêndida, o aniversário do álbum é um ótimo motivo para nos lembrarmos de que a vida é uma fusão de altos e baixos.

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