Steven Spielberg é um dos maiores e melhores storytellers da história do cinema e é a mente responsável por alguns dos filmes mais elogiados de todos os tempos. Mente responsável por clássicos dramas como ‘A Lista de Schindler’ e ‘Império do Sol’, e aventuras inesquecíveis como ‘Indiana Jones’ e ‘Jurassic Park’, Spielberg tem uma visão única sobre o mundo e faz questão de transformar cada um de seus projetos em um espetáculo visual. Por mais que escorregue aqui e ali, o realizador é, sem sombra de dúvidas, um mestre em seu ofício, pincelando até mesmo seus filmes mais despojados com mensagens sutis que servem como retrato de uma realidade complexa e, muitas vezes, exaurível.
E é em um de seus longas mais subestimados, ‘Jogador Nº 1’, que essas reflexões se tornam tão sublimadas a ponto de serem quase esquecidas. Lançado em 2018, o filme fez um enorme sucesso de bilheteria ao arrecadar impressionantes US$607,9 milhões ao redor do planeta, e teve uma recepção sólida por parte da crítica – conquistando os espectadores por irromper como uma grandiosa ópera de referências à cultura pop, desde a presença de King Kong e MechaGodzilla até uma espécie de experiência imersiva em ‘O Iluminado’. Entretanto, para além da vibrante carta de amor que constrói àquilo que ainda o move, Spielberg aproveitou para oferecer uma sombria e agourenta distopia sociopolítica que soa mais próxima do que nunca – e que usa os tropos da ficção científica e da fantasia para explorar problemáticas capitalistas e o corporativismo predatório.

A trama nos apresenta ao OASIS, um incrível mundo virtual criado pelo genial James Halliday (Mark Rylance) que é visitado diariamente por milhões de pessoas. Lá, qualquer um pode ser o que desejar, além de conhecer outros jogadores, escolher missões lendárias das quais participar e navegar por um cosmos tão diferente da brutal realidade em que vivem que a experiência exterior se torna quase impalatável. Após sua morte, James resolve criar um concurso inesperado em que os participantes devem encontrar três chaves espalhadas em qualquer canto do jogo: o primeiro que conseguir colocar a mão nos objetos, terá total controle do OASIS, bem como ganhará uma herança de meio trilhão de dólares em ações que o criador do game deixou para seu sucessor.
A partir daí, uma corrida contra o tempo toma forma – e o nosso protagonista, Wade Watts (Tye Sheridan), que assume o avatar de Parzival no jogo, é um daquele que ainda está tentando vencer o primeiro desafio. Localizado ao final de uma mortal maratona automobilística recheado de personagens icônicos da cultura pop e com armadilhas prontas para atacar os competidores, Parzival enfrente um exército de jogadores conhecidos como Seis, que fazem parte dos programas de cooperação da conhecida empresa de tecnologia IOI, controlada pelo ambicioso magnata Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn) e com o único objetivo de colocar as mãos no controle da OASIS. Divertindo-se em meio a tentativas constantes ao lado dos amigos, Aech (Lena Waithe), Sho (Philip Zhao) e Daito (Win Morisaki), e cruzando caminho com a misteriosa Art3mis (Olivia Cooke), Wade vê tudo mudar quando ele descobre uma pista importante nos arquivos de memória de James e vence o desafio.

Como podemos imaginar, a mentalidade controladora e manipuladora de Nolan o compele a uma caçada por Wade, tentando contratá-lo como caçador de recompensas em troca de uma inimaginável quantia que poderia resolver todos os seus problemas em um piscar de olhos. Todavia, Wade percebe que o magnata não se importa com o real propósito do mundo virtual criado por James, tentando transformá-lo em algo que compreendemos como um retrato cuspido de uma realidade abismal entre as pessoas, criando pacotes premium e bombardeando a tela dos óculos de VR de seus futuros clientes em uma publicidade ambulante e nauseante. A partir daí, as linhas inimigas estão traçadas – e Wade e todos aqueles com quem se importa se tornam alvos de um homem que fará de tudo para ganhar.
O filme faz questão de deixar os comentários sociais claros, ao menos quando pensamos na premissa que se espalha através de duas horas: de um lado, Wade, seus amigos e os incontáveis avatares que povoam OASIS utilizam o jogo como um escape, um momento em que conseguem superar os diários obstáculos e mergulhar de cabeça em um hedonismo inescapável, como se fossem encobertos por uma névoa de opioides determinada a fazê-los esquecer da tristeza e da melancolia. Afinal, como mencionado no começo do artigo, Spielberg constrói uma distopia inescapável que ocorre após a escassez de alimentos e culmina em uma dominação corporativa que subjuga os mais pobres e protege os mais abastados – algo que é cíclico na história do mundo.

De certa maneira, o cineasta arquiteta uma atmosfera sombria, mascarada pelas cores vibrantes e pela fuga que o OASIS promove. Quando dentro do jogo e ao lado de seus amigos, Wade se sente invencível, envolvendo-se com a maior caça ao tesouro de todos os tempos e com o objetivo de vencer, não para colocar as mãos no dinheiro, e sim, como é-nos mostrado com mais sutileza, para provar o seu valor e provar a si mesmo que é capaz. Arremessado de volta à realidade, as coisas são bem mais derradeiras: a IOI mantém centros de cooperação para aqueles que não conseguiram pagar as dívidas contraídas com a companhia, caçados pela impetuosa F’Nale Zandor (Hannah John-Kamen), líder de operações e braço-direito de Nolan, e aprisionados em condições análogas à escravidão para sanarem um débito que cresce dia a dia.
Nolan é a materialização do autoritarismo, recorrendo a meios condenáveis para controlar sua legião de servos e para garantir que Wade e seus companheiros não se transformem em um problema maior do que já são. Além das ameaças à integridade física do protagonista, Nolan resolve transformar sua tia, a única pessoa restante de sua família, em um alvo – detonando explosivos que o deixam sozinho e o lançam em solidão extrema. Todavia, ao ser resgatado por Samantha, nome verdadeiro de Art3mis, ele entra para um grupo dissidente que deseja destruir o império corporativo da IOI e impedir que o OASIS caia nas mãos erradas.

É notável como a trama acompanha várias histórias que lidam com a luta de classes e o levantamento dos oprimidos frente a uma opressão constante e inacabável: ‘Vida de Inseto’, ‘Jogos Vorazes’, ‘V de Vingança’ e ‘The Handmaid’s Tale’ são apenas alguns que já exploraram essas incursões das mais variadas formas – e o que torna ‘Jogador Nº 1’ um membro inequívoco desse seleto grupo é a forma como Spielberg transforma incursões sociopolíticas e antropológicas em uma clássica jornada do herói e em uma divertida e inspirada trama que nos convida à reflexão sem ao menos percebermos.
Lembrando que o filme está disponível na HBO Max.
