A frase “não existe época melhor para ser fã de super-heróis de quadrinhos do que agora” poderia muito bem se encaixar nos clássicos do terror. A franquia Halloween vai muito bem (obrigado) com o recente Halloween Kills. O boneco Chucky ganhou uma nova e badalada série de TV. A assombração Candyman também ganhou seu reboot este ano e um novo Pânico estreia em janeiro de 2022. Se juntando a esta festa, em breve teremos a união de duas grandes mentes do gênero terror: Wes Craven e Jordan Peele. O citado A Lenda de Candyman (2021) foi uma reformulação muito bem vinda de um conceito que já era por si só muito representativo. Por trás do reboot, um nome muito associado a estas questões: o cineasta Jordan Peele, responsável por Corra! (2017) e Nós (2019). Era batata, Peele e Candyman pareciam ter nascido um para o outro.

Seguindo por esta linha, um ano antes da estreia de O Mistério de Candyman (1992), quem entregava uma produção de terror muito representativa e lotada de questões sociais muito pulsantes era ninguém menos que o pai de Freddy Krueger e de Ghostface em pessoa: Wes Craven. E adivinhe só, novamente Peele vai atrás com seu toque de Midas de um projeto que tem completamente sua cara. Depois de alguns percalços com possíveis remakes ao longo dos anos, com a aprovação do próprio criador Wes Craven, e de uma série que iria ao ar pelo mesmo canal SyFy (responsável pela novíssima série do Boneco Assassino) ser engavetada, quem toma posse do projeto é Jordan Peele, prometendo seguir na linha do que fez no novo Candyman, ao mesmo tempo em que honra o produto original.

O terror representativo e social As Criaturas Atrás das Paredes, de Wes Craven, completa 30 anos em 2021.

As Criaturas Atrás das Paredes (The People Under The Stairs, no original – algo como “as pessoas debaixo das escadas”) foi lançado em 1º de novembro de 1991 e acaba de completar 30 anos de sua estreia em 2021. Época de celebração para todos os fãs deste cult por excelência, dos fãs do saudoso Wes Craven (falecido em 2015) e os fãs de cinema que curtem as obras de um dos diretores mais criativos da atualidade, o prestigiado Jordan Peele. Tudo o que o cineasta toca termina com um sabor especial, e Peele se tornou um destes artistas que sempre esperamos para ver seu próximo esforço. Com ele a bordo, qualquer reimaginação instantaneamente desperta nosso interesse. E sua escolha por este filme, digamos, menos conhecido ou menos apreciado de Craven, mas não menos memorável, não foi à toa.

Escrito, dirigido e produzido por Wes Craven, aqui o cineasta, como dito, cria talvez seu filme mais pungente e com mais mensagens nas entrelinhas. Sim, Craven criou ícones do terror e produtos extremamente vendáveis como Freddy Krueger e Ghostface, mas aqui os vilões são mais reais e podem ser lidos como uma grande analogia social. A história se desenvolve numa parte pobre da cidade, num bairro de classe baixa, onde acompanhamos o protagonista, o menino de 13 anos Pointdexter Williams, conhecido como “Fool” (Tolo), papel de Brandon Quintin Adams – ator mirim conhecido na época. Sua mãe se encontra doente acamada, sua irmã mais velha possui filhos para cuidar, e eles precisam pagar o aluguel correndo o risco de serem despejados de seu apartamento caindo aos pedaços, num prédio mais caótico ainda – um retrato do gueto (ou nossas favelas).



O menino “Fool” (Brandon Quintin Adams) é o herói desta aventura macabra de Wes Craven.

Assim como a recente série coreana Round 6, na qual pessoas desesperadas e sem qualquer outra opção aceitam participar de jogos mortais a fim de receberem uma bolada em dinheiro, o pequeno Fool não vê outra opção para salvar sua família do despejo a não ser cair na lábia de Leroy, o amigo de sua irmã, papel de Ving Rhames. Politizado, ele discorre sobre como os senhorios do apartamento de Fool sabem exatamente das dificuldades de sua família, mas simplesmente não ligam. Como diz outro personagem do filme, o vovô Booker (papel do veterano Bill Cobbs), os Robeson, os tais senhorios, são envolvidos com especulação imobiliária e tem intenção de despejar os moradores do prédio que são donos para vendê-lo (por isso não fazem melhorias propositalmente).

Sim, As Criaturas Atrás das Paredes antes mesmo de revelar “seus monstros” fictícios apresenta seus monstros bem reais, que sobressaem muito mais do que qualquer fantasia. Deu para notar como Craven carrega no comentário político de seu filme. É a velha luta de classes, dos ricos contra os pobres, que a Coreia do Sul tem feito tão bem em seus mais recentes filmes de sucesso. Para apimentar ainda mais seu discurso, a vizinhança pobre e perigosa é repleta de personagens negros, assim como o menino protagonista. E os senhorios, a insana família rica Robeson, são brancos.

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Drama social e luta de classes está no cerne do terror, por isso Jordan Peele se interessou em refilmar.

Então o desespero de Fool o faz aceitar a proposta de Leroy, ou seja, invadir a casa dos cruéis proprietários e roubá-los. Porém, é aí que teremos o primeiro ponto de virada na trama. Assim como em O Homem nas Trevas (2016), a casa invadida logo irá se tornar o último lugar do mundo onde estes invasores desejariam estar. É a fórmula do “home invasion”, filme de invasão domiciliar, subvertida. Os assaltantes rapidamente se tornam as vítimas por quem iremos torcer, uma vez que seja revelada toda a loucura atrás das paredes daquela casa macabra.

Wes Craven costumava tirar suas ideias para seus filmes de situações reais (ou surreais), que terminam inspirando-o. Para A Hora do Pesadelo foi uma reportagem real sobre asiáticos que se privavam do sono com medo de que não conseguissem acordar. Em Pânico, escrito por Kevin Williamson, a inspiração veio de um massacre real promovido por jovens nos EUA. E aqui, ela veio de uma outra investigação sobre assalto em uma casa. Uma vez que a polícia chegou no local, os ladrões haviam fugido, mas as autoridades encontraram portas trancadas em alguns cômodos, onde os donos da casa mantinham seus filhos, sem que permitissem jamais sair.



As tais “criaturas” do título são apenas crianças sequestradas, abusadas e torturadas por seus “pais”.

Na trama do filme, os ambiciosos proprietários do prédio que planejam despejar os moradores sem se importar com as pessoas, somente com o dinheiro, são um casal incestuoso de irmãos chamados apenas de “pai” e “mãe”. Estes lunáticos, é claro, são os verdadeiros depravados e humanos podres da história. Eles são os grandes vilões, uma analogia aos empresários poderosos do mundo – o chamado 1% que retém a riqueza. Craven quis ainda traçar um grande paralelo com a América da época. Adicionando ainda mais em seu estereotipo de crueldade, a dupla mantém crianças e jovens, filhos da relação incestuosa que nasceram deformados, ou simplesmente que roubaram da vizinhança, trancafiados em seu porão, criados como animais, para quem o pervertido patriarca dá carne humana como alimento. Eles são as criaturas atrás das paredes do título e à primeira vista são os monstros do filme, em especial devido à sua aparência grotesca.

Assim como em Os Goonies (1985), em que o mostrengo Sloth termina sendo o herói trágico e maltratado, aqui o ditado “as aparências enganam” também entra em cena, quando “as criaturas” se mostram na verdade as vítimas de um casal acima de qualquer suspeita. Quando são denunciados por seus atos grotescos, a dupla recebe a polícia em casa à base de chá e biscoitos. As autoridades se certificam de proteger os direitos deles, “cidadãos de bem”, enquanto a “gentalha” do bairro, pretos e pobres, são logo desmerecidos e descreditados.

“Mãe” e “Pai”, os vilões do filme, são uma analogia dos ricos e poderosos, que não pensam nas pessoas, mas somente no lucro financeiro.

Para os papeis dos antagonistas dementes, Wes Craven recorreu ao seriado cult Twin Peaks, de David Lynch, que na época se encontrava no ar e em seu auge de popularidade. Aí está uma ligação entre As Criaturas Atrás das Paredes e Twin Peaks que a maioria talvez não tenha percebido. No programa, os atores Everett McGill e Wendy Robie viviam o casal Big Ed Hurley e Nadine Hurley, uma dupla igualmente, digamos, peculiar. Craven gostou tanto da química entre os dois que se inspirou em trazer ambos para seu filme para desempenharem esta atuação única, e um pouco mais psicótica. Uma curiosidade, ainda focando no elenco, é que a atriz duas vezes vencedora do Oscar Hillary Swank fez testa para um dos papeis no filme, a “criatura” Roach (ou Barata na tradução), um dos jovens que ajudam Fool e tem a língua cortada. Embora seja homem no filme (vivido pelo ator Sean Whalen), no roteiro ele havia sido escrito para ser homem ou mulher, dependendo do ator contratado. Swank não conseguiu o papel, mas três anos depois estrelaria em Karatê Kid 4.

As Criaturas Atrás das Paredes possui muitas boas ideias em suas entrelinhas, mas seu resultado termina soando pouco sutil e extremamente caricato e exagerado. Bem, não podemos esquecer que esse é um filme de gênero, mas um que funciona como crítica. O “drama social” e de luta de classes disfarçado de filme de terror de Wes Craven se mostrou um sucesso de bilheteria, apesar das críticas mistas e de sua pouca ressonância – ele vem sendo cada vez mais redescoberto como cult atualmente. O grande crítico Roger Ebert, por exemplo,  o definiu como um “Esqueceram de Mim no Funeral”. Apesar disso, o longa se pagou logo em seu fim de semana de estreia e num orçamento de US$6 milhões arrecadou mundialmente para a Universal Pictures o valor de US$31 milhões. Em seu fim de semana de estreia se manteve na liderança do ranking em primeira posição dos filmes mais vistos, desbancando a concorrência de peso de superproduções como Highlander 2 – A Ressurreição e Billy Bathgate – O Mundo a Seus Pés.

Sendo assim, a reimaginação de Jordan Peele, muito provavelmente mais centrada em certo realismo, é muito bem-vinda e promete atualizar essa história atemporal para os dias de hoje. O tempo passa, mas nem tudo muda.

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