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‘Batman Begins’ completa 20 ANOS e causou uma revolução na DC


Há exatos 20 anos, em 15 de junho de 2005, os cinemas brasileiros recebiam uma obra que não apenas revitalizaria um dos personagens mais icônicos dos quadrinhos, mas também redefiniria o próprio gênero de super-heróis: Batman Begins. Dirigido pelo visionário Christopher Nolan, este filme não foi apenas um sucesso de bilheteria; ele se tornou um marco cultural e cinematográfico, transformando a percepção de como os heróis poderiam ser retratados nas telonas.

Antes de “Batman Begins“, a imagem do Cavaleiro das Trevas no cinema estava, para muitos, associada a produções com tons mais fantasiosos ou campy. Nolan, no entanto, ousou mergulhar nas origens do herói com uma abordagem mais realista e sombria, elementos que se tornaram a marca registrada de sua aclamada trilogia. O filme não se contentou em ser apenas uma aventura de ação; ele explorou a psicologia complexa de Bruce Wayne, os traumas que o moldaram e a linha tênue entre justiça e vingança.

Batman Begins é um ícone da fase sombria e realista da DC nos cinemas. Foto: Divulgação.

No início do século XXI, a DC passava por sérios problemas no cinema. Enquanto a Marvel, que ainda não era Marvel Studios, tinha três franquias estabelecidas e lucrativas nas telonas (Blade, Homem-Aranha e X-Men), a DC vinha da ressaca da desgastada franquia do Batman que começou com o Tim Burton e passou por uma série de alterações após a saída do diretor, passando pela fase dos bat-mamilos e do bat-cartão de crédito, que não agradaram ao público e meio que enterraram o personagem por um tempo. Da mesma forma, o Superman vinha da irregular franquia com Christopher Reeve, que já não apresentava a mesma força dos dois primeiros. Fora aquela aberração de filme chamada Aço, que tem como estrela o astro da NBA, Shaquille O’Neal. A saída, então, foi investir nas séries de TV e nas animações.



Quando o cinema voltou para a pauta, a decisão foi arriscada e um tanto quanto inusitada: começar uma nova era com um filme solo da Mulher Gato, estrelando Halle Berry. Paralelamente, dois projetos mais “seguros” vinham sendo planejados. Um filme do Superman que resgatasse o espírito do herói de Reeve, e uma nova versão do Batman, dirigida por um até então diretor “indie”, chamado Christopher Nolan. Vendo a abordagem dos três projetos, hoje, percebe-se que a DC não tinha a menor ideia do que queria do futuro. Cada projeto parecia querer resgatar uma fase de sucesso do passado do estúdio.

A Mulher Gato traria de volta aquele clima gótico dos filmes de Burton, o Superman deveria adaptar o otimismo dos anos 70/80 nos anos 2000. O único que tentava algo genuinamente novo era a abordagem realista e sombria que Nolan pretendia dar ao Homem Morcego. O resultado todos já sabem. Mulher Gato e Superman: O Retorno foram dois fracassos colossais de crítica e bilheteria, enquanto Batman Begins seguiu o caminho oposto. Uma das maneiras simples de medir o sucesso de um filme de franquia é ver o resultado de bilheteria da sequência.

Quando o primeiro “capítulo” é bom, a continuação costuma lucrar bem mais.

E não deu outra! Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) foi um sucesso estrondoso de crítica e renda, sendo o primeiro longa com heróis a arrecadar mais de um bilhão de dólares em bilheteria. Com o sucesso, a DC adotou a roupagem sombria e realista para seus filmes.

O fracasso colossal de “Superman: O Retorno” ligou o alerta da Warner de que o público queria inovação. Foto: Divulgação.

Christopher Nolan e David Goyer fizeram uma parceria de muito sucesso. A ideia de pegar um herói sem poderes – além do dinheiro ilimitado – e trazê-lo para o mundo real foi um toque de gênio. Para isso ficar crível, saiu a roupa de borracha e entrou um traje tático, mas sem perder a identidade visual. Os bat-trecos viraram aparatos militares fornecidos por Lucius Fox (Morgan Freeman), assim como o Batmóvel deixou de ser um modelo de luxo modificado, dando espaço ao Tumbler, praticamente um tanque de guerra capaz de saltar por telhados. Junto a isso, dois vilões realistas e aterrorizantes: Ra’s Al Ghul (Liam Neeson) e o Espantalho, interpretado pelo frio e calculista Cillian Murphy. Ra’s Al Ghul era um mestre de artes marciais, que treinou Bruce Wayne (Christian Bale) junto a Liga das Sombras, e o Espantalho queria infectar a água de Gotham para espalhar o terror e assumir o controle político da cidade e suas facções. Ou seja, por mais que force em alguns pontos, são motivações críveis, reforçadas pelas excelentes atuações do elenco.

O Tumbler abre mão da beleza em prol de funcionalidade. Um verdadeiro tanque saltando pelos telhados de Gotham. Foto: Divulgação.

Outro ponto inovador é o roteiro de Goyer. Até então, apenas o Homem-Aranha de Sam Raimi havia priorizado o homem por baixo do uniforme. Ou seja, ao trazer o herói para o mundo real, David Goyer entende que o Bruce Wayne é muito mais importante do que o Batman. E como adaptar a mente de um menino que convive com o terror e a solidão desde os 8 anos, quando viu os pais serem assassinados a sangue frio? Fazendo um filme sobre o medo. Esse é o grande trunfo. A cabeça de Bruce é claramente perturbada pelo medo constante, seja o medo de morcegos, da insegurança, da superficialidade das relações. Tudo é assustador e real. E quando os vilões da trama sabem exatamente como explorar os maiores medos do protagonista, como no momento em que Ra’s Al Ghul destrói a Mansão Wayne, num ato simbólico de corrupção das memórias de Bruce, e quando – na cena mais genial do filme, na minha singela opinião – o Espantalho faz com que Bruce tenha medo dele mesmo, é sinal de um roteiro fantástico, que entendeu primorosamente o personagem e o universo que tem em mãos. Fazer Bruce Wayne enfrentar e abandonar seu maior, que é o próprio passado, foi realmente algo genial. Tudo isso sendo dirigido por um Christopher Nolan empolgadão, que abusou de tons sóbrios e um filtro amarelado para trazer um visual feio e triste para uma Gotham City suja em depressão, assolada pelo crime e pelo medo. As cenas focadas em Bruce contam com alguns closes, usados para criar tensão e mostrar a fragilidade do herói, permitindo que as cenas seguintes, mais abertas, mostrem ele se superando. É um filme completo que se sustenta sozinho.

A trama do filme gira em torno do medo, suas consequências e diversas manifestações. Foto: Divulgação.

E pela primeira vez nos cinemas, as figuras no entorno do herói passam a ser explorados e ganham importância. Afinal, “diga-me com quem andas que te direi quem tu és”. Por isso, o mordomo Alfred ganha um papel praticamente de membro da família Wayne, servindo de apoio e inspiração para o herói. A atuação do veterano Michael Caine intensifica ainda mais a importância do personagem. Da mesma forma, o Comissário Gordon ganha mais prestígio do que nunca. Vivido pelo fantástico Gary Oldman, o detetive deixa de ser apenas o cara que chama o Batman e assume a função de um policial incorruptível e praticamente o braço direito do herói. E Rachel (Katie Holmes) surge como um ponto de fraqueza do herói, representando o amor e o apego a uma infância renegada.

Os coadjuvantes enfim ganham destaque e ajudam a construir o mito do Batman. Foto: Divulgação.

Com jeitão de suspense policial, Batman Begins chegou como a grande surpresa dos cinemas em 2005. E agora, 20 anos depois, podemos ver como ele foi o pontapé inicial para a DC nos cinemas como a conhecemos hoje. Uma obra fantástica, revolucionária e que só não é mais reconhecida porque a sequência, O Cavaleiro das Trevas, contou com a atuação colossal de Heath Ledger no papel do Coringa e acabou ficando mais famosa que o antecessor, mesmo que não tenha tanta consistência quanto o Begins. Um filme que beira a perfeição no gênero.

Batman Begins está disponível no catálogo da Max.

Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.
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