Após polêmicas ao longo de todo o festival, motivadas pelas declarações do presidente do júri, Wim Wenders, sobre o cinema não ser político, a cerimônia de premiação deste sábado, 21 de fevereiro, foi marcada por discursos de apoio à Palestina e a outras nações em conflito.
De forma surpreendente, após uma recepção fria da crítica, o vencedor do Urso de Ouro foi o turco Yellow Letters, de İlker Çatak, exibido logo no primeiro dia da mostra competitiva.

Antes da celebração, a diretora do festival, Tricia Tuttle, comentou sobre os dez dias de evento:
“A liberdade de expressão na Berlinale não é uma única voz. São muitas vozes. Às vezes calmas. Às vezes iradas. Às vezes parecem silenciosas, mas estão falando através do cinema. Essas vozes podem ser contraditórias. Um festival não resolve os conflitos do mundo. Mas pode criar espaço para a complexidade, para ouvir e humanizar uns aos outros.”
Sem adotar um posicionamento direto, a diretora buscou apaziguar os ânimos após dias de discursos inflamados e manifestações públicas. Ela completou afirmando que a complexidade também se refletia nos filmes da competição:
“Eles não oferecem uma única perspectiva — embora todos tenham algo em comum. Compartilham uma profunda preocupação com este mundo e com as pessoas. Exortam, inspiram, exigem e insistem, silenciosamente ou em voz alta, para que nós vejamos.”
Na mostra de curtas, o prêmio de melhor filme foi para a produção libanesa Someday a Child, de Marie-Rose Osta. O filme aborda crianças com superpoderes que enfrentam aviões que bombardeiam a Palestina. Os discursos políticos atravessaram toda a cerimônia, e até mesmo Wim Wenders leu uma carta para tentar “tirar o elefante da sala”, mas sem se aprofundar diretamente nos conflitos mencionados.
Entre os momentos mais celebrados da noite estiveram os prêmios de atuação. O Urso de Prata de Melhor Atuação Coadjuvante foi dividido entre Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay, que interpretam um casal lidando com a progressão da demência da esposa em Queen at Sea, de Lance Hammer. Ambos roubaram a cena dançando no tapete vermelho e sairam do palco com incubência de dividir o urso entre eles. Já o prêmio de Melhor Atuação Principal ficou com Sandra Hüller, por sua performance de homem em Rose, dirigido por Markus Schleinzer.

Para surpresa da crítica, dois dos três principais prêmios da noite foram para filmes que não figuravam entre os favoritos. Produções de forte viés político, abordando genocídio e injustiça social, acabaram dominando o resultado final. Os brasileiros Karim Aïnouz e Beth de Araújo não foram lembrados por Rosebush Prunning e Josephine, respectivamente.
Confira todos os vencedores:
Urso de Ouro: Yellow Letters, de İlker Çatak, Alemanha, Turquia e França
Urso de Prata – Grande Prêmio do Júri: Salvation, de Emin Alper, Turquia
Urso de Prata – Prêmio do Júri: Queen at Sea, de Lance Hammer, Estados Unidos
Urso de Prata – Melhor Direção: Grant Gee, por Everybody Digs Bill Evans, eino Unido
Urso de Prata – Melhor Atuação Principal: Sandra Hüller por Rose, de Markus Schleinzer, Áustria
Urso de Prata – Melhor Atuação Coadjuvante: Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay por Queen at Sea, de Lance Hammer, Estados Unidos
Urso de Prata – Melhor Roteiro: Geneviève Dulude-de Celles, por Nina Roza, Canadá
Urso de Prata – Contribuição Artística Excepcional: Yo (Love is a Rebellious Bird), de Anna Fitch e Banker White, Estados Unidos
Prêmio FIPRESCI (Competição): Soumsoum, the Night of the Stars, de Mahamat-Saleh Haroun, Chade



