Saída do seriado de sucesso Gossip Girl (2007-2012) e formando ao lado do marido Ryan Reynolds um dos casais Hollywoodianos mais bem sucedidos e promissores em ascensão da atualidade, a californiana Blake Lively investe em reinvenções em sua carreira.
Das parcerias com cineastas renomados, vide Oliver Stone (Selvagens), Woody Allen (Café Society) e Ben Affleck (Atração Perigosa), conquistou destaque em personagens chamativas. Ao ponto de sozinha conseguir carregar produções grandes, como A Incrível História de Adaline (2015) e Águas Rasas (2016).
Recentemente, Lively se enveredou por uma obra menor – bem, para os padrões de filmes de grandes estúdios, já que o orçamento aqui ainda é de US$30 milhões (o que tenho certeza deixaria feliz qualquer produção nacional). E o filme está fazendo sucesso no catálogo do Prime Video.
Por Trás dos Seus Olhos é escrito e dirigido por Marc Forster, cineasta alemão que também já viu superproduções de perto, tendo comandado 007 – Quantum of Solace (2008) e Guerra Mundial Z (2013), Por Trás dos Seus Olhos é um filme intimista, mais próximo a trabalhos do diretor como A Última Ceia (2001) ou Em Busca da Terra do Nunca (2004). Filmado e coproduzido pela Tailândia, o longa apresenta um jovem casal vivendo no país, interpretados por Lively e Jason Clarke. Como se não bastasse o desafio de uma nova vida em um país exótico, devido ao trabalho do marido, a rotina da dupla é ainda mais complicada, já que a mulher ficou cega após um acidente de carro na infância, que tirou a vida de seus pais.
Lively e Forster expressam bem o sentimento de deficientes visuais em suas vivências (eu imagino, é claro), minuciosamente detalhando cada pequeno e possível percalço do dia – coisas sem importância para a maioria – através de imagens e sensações. Por Trás dos Seus Olhos, no entanto, é um filme que se propõe a discutir mais, é um filme sobre relacionamento e a conturbada pisque humana. Na reviravolta do roteiro, a personagem de Lively realiza a cirurgia de transplante e volta a enxergar. O fato muda diretamente sua percepção de mundo, de tudo o que conhecia e dava por certo. É como literalmente ser tirado da escuridão para a luz, e entre os fatores alterados está a forma como vê o marido – figurativamente.
Da fragilidade e dependência, trazidas pela deficiência física, a protagonista ressurge capaz de tomar as rédeas da vida, e exigir mais, em especial do companheiro. Por outro lado, o sujeito não é tratado como vilão, apenas um homem amedrontado, perdido, sem saber como agir perante as mudanças revolucionárias que se apresentam em sua vida. O medo, a dor e a possível perda pode fazer qualquer um se portar de forma errônea e egoísta, cometendo muitas vezes danos irreparáveis para as próprias vidas ou a de companheiros.
Por Trás dos Seus Olhos é uma obra repleta de camadas a serem interpretadas e discutidas. À primeira vista pode soar como de fácil acesso e digestão, o longa incompreendido esconde abaixo de sua superfície um ferrenho estudo psicológico pronto a ser debatido por especialistas. O filme é uma destas produções cinematográficas que merecem ser descobertas ou redescobertas, podendo vir a se tornar essencial dentro do gênero.




