Bonito Cinesur debate a Participação das Mulheres em Papéis Decisivos no Meio Audiovisual

A presença feminina no audiovisual ainda esbarra em um gargalo quando se trata de postos de decisão e controle financeiro. Esse foi o eixo central da charla “Vozes Femininas Sul-Americanas: Protagonismo e Resistência no Cinema“, realizada no domingo, 26 de julho, durante a quarta edição do Festival BONITO CINESUR. O encontro abriu o calendário das debates do BONITO CINESUR EDUCA e reuniu, na Sala Glauce Rocha, profissionais do Brasil, Chile e Argentina para discutir os obstáculos enfrentados pelas mulheres diante e atrás das câmeras.

O debate reuniu a atriz e diretora chilena Paulina García, homenageada desta edição do festival; a produtora e gestora cultural chilena Gabriela Sandoval; a produtora argentina Cecília Diez; a produtora brasileira Minom Pinho; e a professora Daniela Siqueira (UFMS).

Durante o encontro, as profissionais destacaram uma realidade comum aos três países: embora haja uma expressiva formação de mulheres na base do setor e em funções técnicas, a participação cai drasticamente em cargos como direção, roteiro e fotografia. O painel também contestou o argumento de que filmes dirigidos por mulheres teriam menor potencial comercial. Na prática, projetos com liderança feminina recebem orçamentos muito inferiores e enfrentam desvantagens na distribuição, publicidade e acesso às salas, o que perpetua uma estrutura desigual.

A atriz Paulina García trouxe a perspectiva de quem está diante das câmeras. Relembrando o início de sua carreira no teatro durante a ditadura chilena, ela ressaltou a dificuldade contínua de encontrar personagens femininas com real incidência sobre as histórias.

“Ainda recebo muitos roteiros nos quais as mulheres mais velhas aparecem apenas para adoecer, morrer ou ocupar posições secundárias”, pontuou, defendendo que o cinema precisa retratar vivências para além dos papéis de cuidadora, filha ou companheira. “É tão difícil estarmos presentes que o que nos cabe é apoiar umas às outras o máximo possível”.

Gabriela Sandoval e Paulina García Crédito: Fotografando Bonito
Gabriela Sandoval e Paulina García
Crédito: Fotografando Bonito

Para reverter esse cenário, a articulação e as políticas públicas são fundamentais. A produtora argentina Cecília Diez reforçou a urgência de ações voltadas à maternidade, ao trabalho de cuidado e à continuidade profissional. Já a brasileira Minom Pinho citou a criação de fundos de fomento, coletivos e festivais para mulheres. Segundo ela, essas iniciativas funcionam como uma provocação necessária diante da desigualdade, visando construir um cenário onde, futuramente, essa separação deixará de ser necessária.

A colaboração transnacional também foi apontada como ferramenta de resistência frente às instabilidades políticas e econômicas da América do Sul.

“Mais do que um conselho, eu diria: façam redes. O cinema é coletivo”, resumiu a chilena Gabriela Sandoval. Ela lembrou que a perspectiva de gênero não se restringe à identidade de quem dirige, mas às escolhas narrativas, de equipe e de recursos.

A mesa concluiu que transformar o cinema sul-americano exige mais do que ampliar estatísticas: é preciso garantir a ocupação compartilhada dos espaços de poder por equipes diversas, abrangendo mulheres negras, indígenas e trans, permitindo que o audiovisual finalmente represente a complexidade das sociedades que pretende retratar.

A 4ª edição do Bonito CineSur é realizada de 24 de julho a 01 de agosto na cidade de Bonito, Mato Grosso do Sul, e conta com o patrocínio master do Banco do Brasil e da Petrobrás e patrocínio da Caixa Econômica, da EMGEA, do Sesc MS e da Fecomércio MS. O Festival conta com o apoio da Prefeitura de Bonito, da FUNDTUR e do Estado de Mato Grosso do Sul. O evento é uma realização da Associação Amigos do Cinema e da Cultura (AACIC), Lei Rouanet e Ministério da Cultura.

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Renato Marafon
Renato Marafonhttps://cinepop.com.br/
Editor-chefe e criador do site CinePOP, apaixonado por cinema e filmes.