Depois de trabalhos como ‘As Five’ e ‘O Coro’, Caio Mutai chega a setembro com dois projetos que o colocam em universos bastante diferentes no audiovisual. Em ‘Furnas Fundas’, que estreou em 17 de setembro nos cinemas, o ator vive Yukun, um jovem vampiro impulsivo e sedento em uma produção que mistura terror, fantasia, humor e sátira. Ao mesmo tempo, integra ‘AYÔ’, série brasileira que faz sua estreia internacional neste mês com exibições no Seriesly Berlin, na Alemanha, e no New York Latino Film Festival, nos Estados Unidos.
O encontro com o cinema de gênero abriu também um novo campo de interesse para o ator. Em uma recente declaração, Caio conta que a experiência de ‘Furnas Fundas’ aumentou sua vontade de explorar personagens e universos ligados ao terror, ao fantástico e à ficção científica. Depois do longa, ele chegou a participar de um curta-metragem sci-fi, projeto que a equipe pretende desenvolver em outros formatos no futuro.
“Definitivamente, sim. Eu amaria voltar à esses territórios sombrios. No ano seguinte ao Furnas, fiz um curta metragem sci-fi com uma das melhores equipes que já trabalhei na vida. Esse, sem dúvida, é um gênero que gostaria de explorar cada vez mais.”
Em ‘Furnas Fundas’, esse mergulho começa com um personagem que ainda está aprendendo a lidar com a própria condição. Yukun é o mais jovem de seu grupo e também aquele que foi transformado em vampiro mais recentemente, características que deram a Caio um ponto de partida para trabalhar sua impulsividade, sua sede e a dificuldade de controlar os próprios instintos.
“Yukun é o vampiro mais novo e o mais novo a ser transformado em vampiro também, o que o torna mais sedento e menos controlado de seu grupo. Acho que essa impulsividade, essa juventude rebelde e inconsequente é o que mais me chamou atenção. Ele é quem causa a bagunça toda no filme, como não gostar disso?”
A construção passou por um repertório amplo de referências do cinema de vampiros. Drácula, Nosferatu, Entrevista com o Vampiro e Only Lovers Left Alive, de Jim Jarmusch, estiveram entre os títulos observados durante a preparação, em um processo que buscou entender diferentes maneiras de representar elementos tradicionalmente associados a essas criaturas.
“Acho que bebi do que podia em termos de construção individual de personagem, mas principalmente a forma como essas referências abordam o sangue, os dentes, a fome, a sede, o descontrole, a mordida, a paixão, o sex appeal, a sedução, a beleza, a força, o comportamento em público, as vulnerabilidades e por aí vai. Cada um desses filmes traz algo de muito especial e, durante a preparação, fomos experimentando cada coisinha, cada detalhe.”
A referência, no entanto, serviu como ponto de partida e não como modelo. A própria linguagem de Furnas Fundas, que combina horror, humor e sátira, conduziu os personagens para um universo particular, construído também pelo texto, pelo visagismo e pela fotografia.
“Existe um certo nível de caricatura desenhada no texto, nos personagens, no visagismo, na fotografia, que é basicamente a linguagem do filme. Isso nos leva a um lugar muito diferente, que traz uma exclusividade nossa, e consequentemente para o meu Yukun.”
Se a preparação envolveu pesquisa e experimentação, o primeiro dia de filmagem tratou de colocar Caio imediatamente dentro da atmosfera do longa. A cena foi gravada em uma igreja completamente escura, com sangue cenográfico espalhado pelas paredes e três caixões no chão. Mas um detalhe específico tornou aquela experiência ainda mais concreta para o ator.
“Já no meu primeiro dia de set gravamos dentro de uma igreja absolutamente escura, com sangue cenográfico jorrado nas paredes, três caixões no chão… Não tinha como não me sentir já imerso no universo do filme. Mas preciso confessar que quando fecharam o caixão e eu fiquei lá dentro por um tempo, eu definitivamente pensei ‘ok, agora a brincadeira ficou séria’.”
A experiência de Yukun ganha outro contorno quando colocada ao lado de AYÔ. Criada por Lucas Oranmian, com direção geral de Yasmin Thayná, a série chega neste mês ao circuito internacional com exibições no Seriesly Berlin e no New York Latino Film Festival. Para Caio, os dois trabalhos exigiram processos muito diferentes justamente porque partem de linguagens e universos distintos.
Em Furnas Fundas, havia o desafio de imaginar fisicamente um personagem fantástico, construindo comportamentos, impulsos e movimentos que ajudassem a tornar aquele vampiro possível dentro da proposta do longa. “Em Furnas, com o Yukun, a construção é fantasiosa. É animalesca, é um ser que não existe na vida real. Me exige uma construção mais criteriosa e inventiva a respeito do corpo, dos sentimentos, das situações e dos acontecimentos. É uma construção muito pensada na imagem desse personagem, na caracterização e no impacto que essas figuras vampirescas vão causar.”
AYÔ, por outro lado, aproxima Caio de uma dramaturgia contemporânea e de personagens pensados a partir de experiências facilmente reconhecíveis pelo público. Para o ator, essa proximidade com a realidade determina também outro tipo de preparação e de presença diante da câmera.
“É uma série extremamente realista e contemporânea. Vocês vão ver que é quase como assistir alguém que você conhece. É uma história muito próxima ao público. E os personagens têm que ser também.”
Entre a fantasia de um jovem vampiro e a realidade cotidiana que atravessa AYÔ, Caio Mutai encontra em setembro dois projetos que mostram possibilidades bastante distintas de seu trabalho como ator. Se Furnas Fundas o levou ao cinema de gênero e despertou a vontade de continuar explorando esses territórios, a chegada internacional de AYÔ apresenta ao público outro registro de sua trajetória, desta vez construído a partir de relações, conflitos e personagens que procuram justamente parecer próximos de quem está do outro lado da tela.
O filme nasce como uma confluência de Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, com a ideia de mortos que retornam não como horror, mas como comentário, somada à sátira de olhar ácido e cômico do cartunista Angeli e à anarquia do texto original de Reinaldo Moraes.
“Durante a pandemia, vi um país mais interessado em escolher lados do que em enfrentar seus próprios problemas. A partir disso, surgiu a vontade de contar uma história que não fosse sobre partidos, mas sobre comportamento. Sobre essa tendência quase confortável de transformar tudo em disputa, enquanto o essencial permanece intocado”, conta Beto Marquez, diretor da obra.
“Acreditamos que o cinema pode ser uma importante ferramenta para levantar debates pertinentes para o público e Furnas Fundas: Uma fábula gótica brasileira é um ótimo exemplo disso. Mais do que uma disputa eleitoral, o filme traz temas que, com um pitada de humor e fantasia, nos fazem repensar nossos comportamentos” finaliza Edu Rezende, fundador da Capuri.
“Furnas Fundas: Uma fábula gótica brasileira” é uma produção da Midnight Japa, com distribuição da Capuri Filmes, e estreia em 17 de setembro nos cinemas brasileiros.
Na pequena cidade de Furnas Fundas, uma eleição feroz divide famílias, amigos e vizinhos. Enquanto todos disputam o futuro da cidade, ninguém percebe que um mal muito mais antigo está prestes a despertar.
À margem de tudo está Bartira e sua improvável gangue de deslocados, figuras que a cidade prefere esquecer. Mas quando a violência da campanha eleitoral desperta uma força sombria adormecida há gerações, serão justamente os excluídos que terão de impedir que Furnas Fundas se transforme em um banho de sangue.


