É tão bom assistir a histórias que nos tiram da zona de conforto. E isso, caro leitor (a), é uma das coisas mais fascinantes que a sétima arte pode nos proporcionar. Após uma passagem vitoriosa pelo Festival de Brasília, o novo longa-metragem do cineasta mineiro André Novais Oliveira, Se eu Fosse Vivo…Vivia , filme de abertura do CineBH 2026, cria um trampolim imaginativo fascinante, unindo uma simpática crônica do cotidiano a elementos fantásticos que potencializam nossas razões de existência, principalmente quando pensamos nos encontros marcantes que a vida nos proporciona.
A trama se divide em tempos distintos que circulam uma história de amor longeva, que usa de um estilingue temporal que atravessa dois momentos-chave ao longo de cinco décadas de uma feliz união. Esse recurso de atravessar o tempo, muito bem conduzido pela força do roteiro, encontra diálogos que fortificam a relação, preparando o terreno para a chegada de inusitados momentos que vão dar muito o que falar, bem na linha do interpretativo. Em cena, vale o destaque para Norberto Novais Oliveira, pai de André Novais Oliveira, e para a escritora Conceição Evaristo, em seu primeiro papel no cinema.

Gilberto (Norberto Novais Oliveira) é um jovem romântico, daqueles que não acham cafona uma serenata de desculpas. Apaixonado por Jacira (Conceição Evaristo) desde muito cedo, encontra nessa parceira sua razão de existência, vivendo com ela ao longo de 50 anos. Já na melhor idade, vivendo na simplicidade feliz da vida que construíram, problemas começam a serem inseridos nesse cotidiano, marcado por uma questão de saúde de Jacira que leva Gilberto a atravessar uma jornada pra lá de reflexiva e bastante curiosa.

Cheio de camadas bem exploradas, esse é um daqueles filmes em que cada pessoa, ao assistí-lo, seguirá numa própria jornada. Quem for mais pés no chão – e não que isso seja algo limitador -, terá à disposição uma crônica cotidiana da melhor qualidade e de identificação instantânea. Quem estiver aberto a viajar na proposta do fantástico, com a coragem de reunir a ficção científica às dores da perda do sentido de existência, ganha nessa ação complementar mais estradas para terminar o filme e pensar de uma maneira mais ampla sobre tudo que foi assistido.
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Ao longo dos cerca de 100 minutos de projeção, percebemos que a grande pergunta do filme é: como diminuímos o sofrimento e encaramos as dores do mundo? Em falar nisso, faz parte da trilha sonora uma canção famosa do compositor Hyldon que diz muito sobre isso: As Dores do Mundo, uma resposta ao filósofo alemão Arthur Shopenhauer, famoso por sua visão pessimista. Esse elemento se encaixa como uma luva na narrativa, somando-se ao contexto de um roteiro, assinado também por Novaes, que cria caminhos para as curas por meio dos sentimentos cultivados e florecidos em toda jornada de existência.
Ainda sem data de estreia no circuito, Se eu Fosse Vivo…Vivia fascina por sua estranheza, ao mesmo tempo que abraça a simplicidade de um olhar intimista de uma relação vitoriosa, sugerindo ao público o pensar sobre a importância de cada capítulo de nossa história como parte de uma enciclopédia de emoções que, ao final da vida, vira o melhor remédio para lidarmos com as partidas.

