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Cannes 2025: Conheça Todos os Brasileiros na 78ª Edição do Festival


Em um ano em que o Brasil é oficialmente homenageado na França, o Festival de Cannes 2025 se transforma em uma vitrine vibrante da diversidade e da força do cinema brasileiro. A seleção deste ano celebra um momento emblemático para o audiovisual nacional: Kleber Mendonça Filho retorna à competição principal; quatro curtas-metragens integram a Quinzena dos Diretores, sob curadoria de Karim Aïnouz; e há uma justa homenagem ao mestre Cacá Diegues na seção Cannes Classics.

A presença brasileira também se destaca em iniciativas paralelas: os cineastas Marcelo Caetano e Marianna Brennand integram júris e premiações; as produtoras Jessica Luz e Paola Wink participam da mostra ACID; o projeto Muganga, de Rodrigo Ribeyro, figura na residência oficial do festival; e a produtora Tatiana Leite marca presença na mostra Un Certain Regard. Conheça todos eles abaixo:

Seleção Oficial 

O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho



Velho conhecido de Cannes, Kleber Mendonça Filho apresenta O Agente Secreto, entre os 22 títulos na disputa pela Palma de Ouro em 2025. Conhecido por tensionar o realismo político com elementos de gênero — como em Bacurau (2019) e Aquarius (2016), Kleber é uma das vozes mais proeminentes do cinema brasileiro contemporâneo. 

Apenas em quatro anos, o pernambucano apresentou o elogiadíssimo documentário Retratos Fantasmas, fora da competição; participou como jurado do festival; e levou o Prêmio do Júri. Protagonizado por Wagner Moura (Guerra Civil), O Agente Secreto é um dos títulos mais aguardados da Croisette e tem grandes chances de voltar para casa com uma estatueta. 

Para Vigo Me Voy!, Lírio Ferreira e Karen Harley 

Já na mostra Cannes Classics, a dupla Lírio Ferreira e Karen Harley apresenta Para Vigo Me Voy!, um documentário que mergulha na obra de Carlos Diegues, falecido em fevereiro deste ano. Trechos de suas obras, intercalados com entrevistas, percorrem 60 anos de carreira. O longa acompanha a evolução de seu cinema e de seu discurso, costurando esse diálogo com imagens inéditas de seu último projeto Deus Ainda É Brasileiro; uma sessão de Bye Bye Brasil (1980) na Favela do Vidigal; e um grande encontro de Carlos Diegues com companheiros de jornada. 

O cineasta Lírio Ferreira é figura-chave do movimento manguebeat no cinema, tem em seu currículo filmes como Baile Perfumado (1996) e Árido Movie (2005). Já Karen Harley é uma montadora e diretora envolvida em diversos projetos premiados, como Lixo Extraordinário (2010) e Que Horas Ela Volta? (2015). 

O Futuro do Cinema Brasileiro

Muganga, Rodrigo Ribeyro


Rodrigo Ribeyro é nosso representante entre os seis rostos da 49ª edição de La Résidence du Festival de Cannes, após ter sido premiado no Cinéfondation em 2021. De 15 de março a 31 de julho de 2025, ele viverá em Paris e se beneficiará de um programa personalizado de apoio à escrita de roteiros e reuniões com profissionais do cinema. O projeto já recebeu mais de 250 cineastas de cerca de 60 países, entre eles estão o nosso Karim Aïnouz, e a espanhola Carla Simón, concorrente à Palma de Ouro deste ano.

Para a residência em Paris, Rodrigo está desenvoveldo o filme Muganga, que narra a aventura de dois amigos que escapam de um dia de trabalho em São Paulo para conhecer a Floresta da Cantareira. Enquanto estão lá, no entanto, um ataque nuclear atinge sua cidade natal e a transforma numa área radioativa, forçando-os a sobreviver em meio a natureza. O enredo mistura mistério, ficção-científica e autodescobrimento. 

Quinzena dos Diretores sob a Tutela de Karim Aïnouz

O projeto Director’s Factory da Quinzena dos Diretores tem como objetivo fazer emergir novos talentos de cinema internacional, permitindo que jovens locais e cineastas criem juntos. Para sua 10ª edição, o mentor é Karim Aïnouz. Conheça abaixo os quatro curtas participantes: 

Ponto Cego, Luciana Vieira 

A brasileira Luciana Vieira, ao lado do cubano Marcel Beltrán, assina a direção do curta Ponto Cego, que acompanha Marta, engenheira encarregada das câmeras de segurança do porto de Fortaleza. Em um ambiente hostil de invisibilidade feminina, Marta decide romper com o silêncio. A obra propõe uma crítica sutil ao apagamento das mulheres em espaços industriais e de vigilância, usando o olhar da câmera como metáfora poderosa.

A Vaqueira, a Dançarina e o Porco, Stella Carneiro  

Apresentado como um western queer com pitadas de surrealismo, o curta A Vaqueira, a Dançarina e o Porco é dirigido pela brasileira Stella Carneiro em parceria com português Ary Zara. A trama segue uma cowgirl trans que visita sua amada — uma showgirl negra — presa sob o controle de um porco sanguinário. O curta flerta com o absurdo e a estética do confronto, em uma jornada de amor, sangue e sororidade.

Como Ler o Vento, Bernardo Ale Abinader

Em cocriação com a francesa Sharon Hakim, o brasileiro Bernardo Ale Abinader constroi uma narrativa delicada sobre herança e sabedoria ancestral em Como Ler o Vento. Cássia, uma curandeira tradicional, prepara sua jovem discípula, Marjorie, para receber seu legado. É um filme sobre tempo, escuta e transmissão entre mulheres, guiado por uma sensibilidade que transborda o enquadramento.

A Fera do Mangue, Wara 

Ao lado do israelense Sivan Noam Shimon, a brasileira Wara compõe uma história de fé e mito em A Fera do Mangue. O enredo parte da lenda de homens poderosos sedentos por descendência. Quando uma de suas vítimas evoca uma criatura mítica — a fera —, o mito se transforma em fúria e justiça, cruzando espiritualidade, vingança e forças da natureza.

Parcerias Internacionais em Cannes

O Riso e a Faca, produtora Tatiana Leite

Dirigido pelo português Pedro Pinho (A Fábrica de Nada), O Riso e a Faca é uma produção compartilhada entre Portugal, Brasil, Romênia e França na mostra Un Certain Regard. Em sua parte brasileira estão a produtora Tatiana Leite, da Bubbles Project, o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo, a montadora Karen Akerman e o editor de som Pablo Lamar. No total, a equipe reúne 31 profissionais do nosso país. 

Inspirado por uma música homônima de Tom Zé, o longa narra a história de Sérgio, engenheiro ambiental português que se muda para uma metrópole africana para trabalhar em um projeto de infraestrutura, onde desenvolve uma relação afetiva complexa com os personagens Diára e Gui (interpretado pelo brasileiro Jonathan Guilherme). A produtora Tatiana Leite é responsável pelos elogiados títulos Malu (2024), de Pedro Freire, e Regra 34 (2022), de Julia Murat

The Black Snake, produtoras Paola Wink e Jessica Luz

Dirigido pelo francês Aurélien Vernhes-Lermusiaux, A Cobra Preta é uma coprodução entre a empresa gaúcha, Vulcana Cinema, França e Colômbia. Representado pelas produtoras brasileiras Jessica Luz e Paola Wink, o longa estreia na mostra paralela ACID, dedicada aos filmes independentes em Cannes. O filme narra o retorno para casa de Ciro, após anos de ausência, no deserto colombiano de Tatacoa, onde ele se reencontra em um território tão frágil quanto encantador. 

Jessica Luz e Paola Wink têm apresentado um trabalho consistente no cinema nacional. Acabaram de apresentar Ato Noturno, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, na Berlinale 2025, e estão na produção do novo filme de Thais Fujinaga, Talismã, ainda em filmagens. 

Nomes Brasileiros em Evidência 

Marcelo Caetano, Queer Palm Jury

Após encantar o júri da Semana da Crítica no ano passado com a obra Baby, Marcelo Caetano volta a Croisette como jurado. Presidido este ano pelo cineasta francês Christophe Honoré (Canções de Amor), o Queer Palm é um prêmio independente que reconhece filmes de temáticas LGBTQIA + selecionados para o festival.

Criado em 2010, o festival já premiou 14 títulos, entre eles Retrato de uma Jovem em Chamas (2019), de Céline Sciamma, e o mais recente ganhador Três quilômetros até o fim do mundo, do cineasta romeno Emanuel Pârvu.

Marianna Brennand, Women In Motion Award

Vencedora do Prêmio de Direção na Giornate degli Autori do Festival de Veneza 2024, pelo filme Manas, a diretora brasileira Marianna Brennand será homenageada no Festival de Cannes 2025 com a recompensa Emerging Talent Award, uma importante distinção internacional voltada a novas vozes femininas no cinema. 

Com a premiação, Brennand junta-se a um seleto grupo de cineastas que receberam o apoio do Women In Motion para desenvolver seus segundos longas, entre elas Carla Simón, vencedora do Urso de Ouro em Berlim com Alcarràs (2022), e presente na disputa cannoise deste ano. O prêmio inclui uma bolsa de 50 mil euros para o desenvolvimento do próximo projeto da diretora.

Já conhecia todas essas presenças brasileiras em Cannes 2025? A partir do dia 13 até o dia 24 de maio, fique de olho na cobertura especial do Festival de Cannes no site e midias sociais do CinePOP

Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.
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