Cannes 2026: 22 apostas para a seleção oficial, com a presença de Selton Mello, Rodrigo Teixeira e Fellipe Barbosa


Após o Oscar 2026, o circuito internacional volta suas atenções para a 79ª edição do Festival de Cannes, cuja seleção oficial será anunciada na quinta-feira, 9 de abril. O Brasil aparece com duas chances discretas — por meio de um diretor e de um ator, ainda que fora de produções nacionais —, mas pode surpreender nas mostras paralelas. Nomes consagrados como Lars von Trier e Asghar Farhadi parecem certos, enquanto o festival segue se afirmando como peça-chave na temporada de premiações. Fora de competição, são aguardadas estreias de Steven Spielberg e Pedro Almodóvar.

Neste ano, os filmes exibidos no festival somaram 19 indicações ao Oscar, incluindo o vencedor de Filme Internacional, Valor Sentimental. Destaque também para O Agente Secreto, que recebeu quatro indicações após conquistar os prêmios de Melhor Direção para Kleber Mendonça Filho e Melhor Atuação Masculina para Wagner Moura.

Em entrevistas de aquecimento para o anúncio desta semana, Thierry Frémaux afirmou à Variety que os novos filmes de Alejandro González Iñárritu e Christopher Nolan não ficarão prontos a tempo de uma estreia mundial em maio. Ele também indicou que o primeiro anúncio será incompleto: ainda há muitos títulos em avaliação. Como a competição pela Palma de Ouro costuma reunir cerca de 22 filmes, reunimos aqui 22 apostas às vésperas da divulgação.

1  — After, de Lars von Trier

Cineasta de obras perturbadoras como Anticristo e Dançando no Escuro (Palma de Ouro em 2000), Lars von Trier não apresenta um filme em Cannes desde A Casa que Jack Construiu (2018). Após o diagnóstico de Parkinson, em 2022, manteve-se recluso, mas voltou à ativa no fim do ano passado com After, projeto ainda cercado de mistério, centrado no tema da morte.

2  — Memória de Menina, de Judith Godrèche

Após apresentar o curta Moi Aussi em Cannes 2024, Judith Godrèche surge como nome forte com seu primeiro longa, adaptação de Mémoire de fille, de Annie Ernaux. O filme aborda a primeira experiência sexual da autora, tema que se insere no debate mais amplo sobre memória, consentimento e formação feminina. Eixo central das discussões impulsionadas pelo movimento #MeToo, do qual Godrèche se tornou uma das vozes mais proeminentes na França após denunciar o diretor Jacques Doillon por abuso no set de filmagem durante sua adolescência.

- Ads -

3  — Succederà questa notte, de Nanni Moretti

Vencedor da Palma de Ouro por O Quarto do Filho (2001), Nanni Moretti é um nome recorrente na competição. Seu novo longa, estrelado por Louis Garrel e Jasmine Trinca, surge como um candidato natural à seleção principal. Na trama, quatro inquilinos moram no mesmo prédio, em uma cidade israelense, e enfrentam problemas pessoais e um vazio emocional. Suas vidas se entrelaçam enquanto buscam realização, conexão e redenção.

4  — Histórias Paralelas, de Asghar Farhadi

Condecorado com o Prêmio do Júri por seu último filme, Um Herói (2021), Asghar Farhadi é um dos autores mais respeitados do cinema contemporâneo. Desde o sucesso de A Separação (2011), suas obras costumam figurar entre os concorrentes à Palma de Ouro. Seu novo projeto, em língua francesa, com elenco estrelado por Vincent Cassel, Isabelle Huppert, Virginie Efira e Catherine Deneuve, aborda os atentados de Paris em novembro de 2015 e se encaixa no perfil de crise sociopolítica frequentemente privilegiado pelo festival.

5  — Fjord, de Cristian Mungiu

Com quatro filmes já selecionados para competição e uma Palma de Ouro — 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007) — no currículo, Cristian Mungiu pode concorrer mais uma vez com um drama psicológico que envolve paranoia social e julgamento coletivo. A narrativa acompanha uma família romena que migrou para a Noruega e passa a ser investigada, sendo julgada não apenas pelo sistema judicial local, mas também pela opinião pública.

6  —Minotauro, de Andrey Zvyagintsev

Após quase uma década sem lançar longas, Andrey Zvyagintsev deve retornar com uma fábula política que mistura suspense e tragédia — um tipo de narrativa densa e alegórica frequentemente valorizada pelo festival. Vale lembrar que ele já esteve três vezes em competição: O Desterro (2007), Leviathan (2014) e Sem Amor (2017).

7  — Paper Tiger, de James Gray

Outra figura constante na Croisette, James Gray pode voltar pela sexta vez ao tapete vermelho de Cannes com o suspense policial Paper Tiger. Com elenco composto por Scarlett Johansson, Miles Teller e Adam Driver, o projeto reforça seu potencial competitivo. Vale destacar que conta com produção do brasileiro Rodrigo Teixeira.

8  — Jack of Spades, de Joel Coen

Segundo filme solo de Joel Coen, após A Tragédia de Macbeth, na AppleTV+, Jack of Spades é uma obra de mistério gótica ambientada na Escócia em 1880. Com apelo artístico e histórico, o filme conta com sua esposa Frances McDormand e Josh O’Connor no elenco.

9  — Sheep in the Box, de Hirokazu Kore-eda

Palma de Ouro com Um Assunto de Família (2018), Hirokazu Kore-eda pode chegar à sua décima participação no festival com Sheep in the Box, obra que explora tecnologia, luto e humanidade — temas recorrentes em sua filmografia.

10  — Histoires de la Nuit, de Léa Mysius


Verdade seja dita, as mulheres ainda são minoria na competição oficial pela Palma de Ouro — seguimos à espera de uma edição que alcance a equidade de gênero. Nesse contexto, esta é apenas a segunda diretora da nossa lista. Após estreias em seções paralelas de Cannes, com Ava (2017) e Os Cinco Diabos (2022), Léa Mysius pode chegar à seção principal com a adaptação literária Histoires de la Nuit, de Laurent Mauvignier, centrada em tensões familiares e na invasão do espaço íntimo.

11 — Bunker, de Florian Zeller

Após Meu Pai (2020) e Um Filho (2022), Florian Zeller pode apresentar seu terceiro longa em Cannes. Bunker é um suspense psicológico filmado na Espanha e estrelado por Javier Bardem e Penélope Cruz, além de contar com Stephen Graham e Paul Dano no elenco. A história acompanha um casal casado há 17 anos, cujo relacionamento é abalado após o marido aceitar um projeto polêmico.

12 — L’inconnue, de Arthur Harari

Co-roteirista de Anatomia de uma Queda (2023), ao lado de sua esposa, Justine Triet, Arthur Harari já esteve na mostra Un Certain Regard com Onoda (2021). Agora, seu terceiro longa pode ser uma aposta à Palma de Ouro. A história acompanha um fotógrafo que passa a viver no corpo de uma mulher misteriosa, interpretada por Léa Seydoux.

13 — Milo, de Nicole Garcia

Três vezes concorrente à Palma de Ouro, Nicole Garcia pode retornar à disputa com o drama familiar Milo. Com Marion Cotillard e Laura Calamy no elenco, o filme acompanha uma mulher que, após sair da prisão, se aproxima de um jovem mecânico por motivos pessoais.

14 — Covarde, de Lukas Dhont

Premiado em Cannes anteriormente com o belíssimo Close (2022) e O Florescer de Uma Garota (2018), Lukas Dhont pode retornar ao festival com um drama histórico sobre um soldado belga dividido entre a covardia e o heroísmo nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

15 — Gentle Monster, de Marie Kreutzer

Após o sucesso de Corsage (2022), Marie Kreutzer aposta em um projeto em inglês com Léa Seydoux (sim, é a terceira vez que ela é mencionada em um dos possíveis projetos selecionados) e Catherine Deneuve. Na trama, uma pianista renomada muda-se com a família para o campo, onde descobre uma verdade comovente que a obriga a enfrentar as complexidades do amor, da confiança e da traição.

16 — Leila e a Noite, de Fellipe Barbosa

Conhecido por Casa Grande (2014) e Gabriel e a Montanha (2017), Fellipe Barbosa pode representar o Brasil na competição. A produção francesa, estrelada por Roschdy Zem e Marina Foïs, narra a história da fotógrafa Leila Alaoui, morta após um atentado em Burkina Faso, em 2016.

17 — Hombre al agua, de Gael García Bernal

Este é o terceiro longa dirigido por Gael García Bernal. Conhecido por sua carreira como ator, atrás das câmeras, ele já apresentou Chicuarotes (2019) em Cannes, fora de competição. Desta vez, pode disputar a Palma de Ouro como diretor e roteirista.

18 — A Cachorra, de Dominga Sotomayor

Aclamada por Tarde para Morrer Jovem (2018) e com histórico em festivais internacionais, Dominga Sotomayor apresenta chances de entrar como representante latino-americana ao levar às telonas a adaptação do polêmico romance homônimo, da escritora colombiana Pilar Quintana. Dois brasileiros marcam presença na produção: o ator Selton Mello e o produtor Rodrigo Teixeira, responsável por sucessos como Me Chame pelo Seu Nome (2017) e Ainda Estou Aqui (2024).

19 — All of a Sudden, de Ryûsuke Hamaguchi

Depois dos sucessos da crítica, como Drive My Car e O Mal Não Existe (2023), o novo projeto de Ryûsuke Hamaguchi já conta com distribuição internacional e coprodução com França, Bélgica e Alemanha, tornando-se um forte candidato a aparecer novamente em Cannes. Na trama, dois acadêmicos que trocam cartas sobre o acaso e o risco desenvolvem um vínculo mais profundo quando um deles adoece, transformando sua correspondência em conversas íntimas sobre a mortalidade.

20 — Her Private Hell, de Nicolas Winding Refn

Desde 2016 longe dos cinemas, a exuberância de Nicolas Winding Refn pode ser uma aposta certa para a competição pela Palma de Ouro deste ano. Seu último projeto, Demônio de Néon, estreou há exatos dez anos no Festival de Cannes. Sua obra de retorno é descrita como um suspense hipnótico e nonsense, repleto de glamour, sexo e violência — aquele cinema provocador que só Refn sabe fazer.

21 — Bucking Fastard, de Werner Herzog

Quatro vezes concorrente à Palma de Ouro, Werner Herzog é figurinha carimbada na Croisette sempre que apresenta um novo projeto. Com protagonismo das irmãs Kate e Rooney Mara, a narrativa nos conduz a uma existência excêntrica, fiel ao estilo inconfundível de Herzog. Segundo a sinopse, Jean e Joan Holbrooke são tão próximas que falam em uníssono, amam o mesmo homem e compartilham os mesmos sonhos. Em busca de uma terra imaginária onde o amor verdadeiro seja possível, elas cavam uma cordilheira.

22 — Água fresca para as flores, de Jean-Pierre Jeunet

Eternamente lembrado pelo culto clássico da virada do século, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Jean-Pierre Jeunet retorna ao público após o controverso BigBug (2022), lançado diretamente na Netflix. Com a adaptação do best-seller francês Changer l’eau des fleurs, de Valérie Perrin, a narrativa promete ser uma mescla de tristeza, luto e da impossibilidade de deixar ir — exatamente como o livro.

Fora de competição

23 — Amarga Navidad, de Pedro Almodóvar

Mesmo com estreia antecipada na Espanha, Pedro Almodóvar mantém histórico sólido com Cannes, o que mantém a possibilidade de seleção fora de competição. Outros filmes do diretor sempre respeitaram a estreia mundial em seu país de origem, consolidando tradição de confiança mútua com o festival.

24 — Dia D, de Steven Spielberg

Com trailer já revelado no último mês, a grande produção de Steven Spielberg pode aparecer como sessão especial, reforçando o lado mais midiático e espetacular do festival.

25 — Full Phil, de Quentin Dupieux

Figura recorrente em Cannes, Quentin Dupieux retorna com um projeto absurdo e internacional, com Woody Harrelson e Kristen Stewart. Como de costume, encontra espaço em sessões paralelas e fora de competição. Em 2024, ele abriu o festival com Segundo Ato, filme que, apesar de criticado, reforçou seu estilo provocador e inusitado.

26 — La bataille de Gaulle: L’âge de fer, de Antonin Baudry

Um dos grandes lançamentos do cinema francês este ano, Antonin Baudry apresenta a biografia em duas partes do general e ex-presidente da França, Charles de Gaulle. Os filmes acompanham sua vida e engajamento político entre 1940 e 1945, além da trajetória rumo à carreira política. Após o sucesso de bilheteria com o suspense Alerta Lobo (2019), este novo projeto é fortemente considerado para a seção Cannes Specials.

Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

Inscrever-se

Notícias

“WILSON!”: Cruzeiro encalha em Fiji próximo à ilha de Náufrago

O longa 'Náufrago' (2000), estrelado por Tom Hanks e...