O cineasta Carl Rinsch, diretor do longa ’47 Ronins’, foi condenado pela Justiça Federal dos Estados Unidos a 30 meses de prisão pelos crimes de fraude eletrônica e lavagem de dinheiro. O diretor foi acusado de desviar cerca de US$ 11 milhões que seriam destinados a uma produção da Netflix.
A sentença final corresponde à metade da pena que havia sido recomendada pelo governo norte-americano.
De acordo com a Variety, o fator decisivo para a redução da pena aplicada pelo juiz Jed Rakoff foi a apresentação de evidências sobre a saúde mental do diretor, detalhes que, inicialmente, a própria defesa havia omitido durante o julgamento.
“Carl agora está enfrentando seus problemas de saúde mental, algo que antes ele não estava disposto a fazer”, afirmou o advogado de defesa, Daniel McGuinness.
Segundo o advogado, durante a produção da série interrompida, Rinsch “estava sob os cuidados de um médico que não estava fazendo o que deveria”. McGuinness acrescentou que, nos últimos meses, o diretor concluiu um tratamento e agora “relata estar se sentindo melhor e enxergando as coisas com mais clareza”.
Embora o juiz Rakoff tenha declarado que não identificou sinais óbvios de psicose durante as audiências, ele apontou que algumas decisões financeiras de Rinsch, como a compra de cinco carros da marca Rolls-Royce registrados em nome de terceiros, serviram como provas de “um estado mental maníaco que ia além da simples ganância”.
O magistrado também levou em consideração diversas cartas enviadas por colegas de Hollywood que descreviam Rinsch de forma positiva. Entre os relatos estava o do astro Keanu Reeves, que se tornou amigo próximo do diretor após protagonizar ’47 Ronins’.
Na carta, Reeves revelou que os problemas do cineasta já vinham de longa data: “Participei de uma tentativa, em 2019, de conseguir ajuda para Carl por meio de uma intervenção e tratamento profissional de saúde mental, que ele recusou. Acredito que surgiram circunstâncias em que sua saúde mental foi comprometida pelo uso inadequado de medicamentos e talvez por outros fatores, o que ampliou seus atos de autossabotagem e grandiosidade, afetando seus relacionamentos, seu trabalho e sua capacidade de concluir ‘Conquest'”.
A promotoria confirmou que as referências pessoais e o histórico criminal limpo do diretor evitaram uma recomendação de pena ainda maior, já que as diretrizes federais para fraudes desse valor estipulam punições que variam de 9 a 11 anos de prisão.
Antes de anunciar a sentença, o juiz Jed Rakoff refletiu sobre o impacto de punições severas em crimes de colarinho branco, defendendo o equilíbrio humanitário na decisão:
“A sentença deve ser suficiente, mas não maior do que o necessário. É muito fácil dizer: ‘Ele fez algo errado. Mandem-no embora por muito, muito tempo!’. Mas este é outro ser humano e, apesar de todos os seus problemas, precisa ser considerado como um ser humano”, acrescentou.
Além do período de reclusão, Rinsch terá que pagar US$ 11 milhões em restituição à Netflix, passar por um programa obrigatório de tratamento de saúde mental ambulatorial e se abster do uso de drogas. O magistrado reconheceu que a plataforma dificilmente recuperará a quantia total, ironizando as estratégias financeiras passadas do diretor:
“Não recomendo que ele continue investindo em criptomoedas. Aquilo é apenas um mercado para apostas”, destacou.
O advogado Michael Schafler, representante da Netflix, classificou o caso como “incomum” e informou que a empresa deixará o cronograma de pagamentos sob os critérios do sistema judiciário.
Carl Rinsch recebeu um prazo de 60 dias e deverá se apresentar voluntariamente ao sistema prisional no dia 1º de setembro para iniciar o cumprimento de sua pena.
Lembrando que o cineasta Carl Rinsch foi declarado culpado em todas as sete acusações apresentadas pelo Escritório do Procurador dos EUA do Distrito Sul de Nova York, incluindo:
- Fraude Eletrônica
- Lavagem de Dinheiro
- Múltiplas Acusações de Transmissão Ilegal de Dinheiro
As acusações referem-se a uma série de ficção científica da Netflix, nunca produzida, inicialmente intitulada ‘White Horse’ e posteriormente renomeada para ‘Conquest’.
Rinsch começou a filmar a série em 2017 com recursos próprios e de produtoras. O projeto, que focava em uma espécie humanoide, acabou recebendo um investimento inicial de US$ 44 milhões da Netflix.
Em 2020, Rinsch solicitou mais US$ 11 milhões para concluir a série. Em vez de utilizar o dinheiro na produção, ele transferiu o valor para sua conta pessoal de investimentos. Após perder metade do montante em operações arriscadas, ele obteve lucro investindo em criptomoedas.
De um lucro total de US$ 10 milhões, Rinsch deu início a uma onda de gastos extravagantes, conforme detalhado na acusação:
- Automóveis de Luxo: Compra de cinco Rolls-Royces e uma Ferrari, totalizando US$ 2,4 milhões.
- Mobiliário: Gasto de US$ 3,8 milhões em móveis e antiguidades, incluindo quase US$ 1 milhão em colchões e enxovais.
- Acessórios: Aquisição de US$ 650 mil em relógios.
A defesa de Rinsch alegou durante o julgamento que o pagamento de US$ 11 milhões não tinha um destino específico e que o valor serviria para reembolsá-lo por manter o projeto vivo. O júri, contudo, rejeitou a tese de mal-entendido contratual, concluindo que o diretor sabia que não podia usar os recursos livremente.
A Netflix cancelou ‘White Horse’ em 2021, após Rinsch entregar apenas alguns teasers.
O estúdio registrou todo o investimento de US$ 55 milhões no projeto como perda.
Em 2024, após arbitragem civil, a Netflix foi indenizada em quase US$ 12 milhões, embora, segundo relatos, o diretor ainda não tenha realizado o pagamento.



