Crítica | Mesmo com o carisma nato de Millie Bobby Brown, ‘Enola Holmes 3’ é uma sequência AQUÉM do esperado

Millie Bobby Brown tem uma extensa história com a Netflix que inclui a premiada e popular série Stranger Things, em que eternizou a icônica Eleven, o sci-fi distópico ‘The Electric State’ e a fantasia sombria ‘Donzela’. E uma das atrações mais populares encabeçadas pela atriz indicada ao Emmy é a franquia de mistério ‘Enola Holmes’, que chegou ao streaming em 2020 e se tornou uma das produções mais populares da plataforma. Baseada nos escritos de Nancy Springer e inspirada nas histórias assinadas por Sir Arthur Conan Doyle – sim, a mente por trás do lendário detetive Sherlock Holmes -, a atração recebeu críticas bastante positivas por sua atmosfera despojada e muito envolvente.

Não demorou muito até a Netflix investir esforços em uma sequência que estreou em 2022, ampliando o vibrante universo protagonizado pela irmã mais nova de Sherlock e Mycroft e encontrando uma recepção igualmente favorável. Quatro anos mais tarde, somos convidados a explorar o terceiro capítulo de uma saga que parece ter muito a nos contar – porém, apesar das boas intenções, ‘Enola Holmes 3’ comete o crasso erro de tentar ser maior do que consegue e se esquecer de criar uma atmosfera que não se leve a sério, deixando de lado a diversão para uma história sisuda e um tanto quanto esquecível.

Na mais nova aventura de Enola, o angustiante e opressivo cenário londrino dá espaço para a idílica Malta, onde ela e o jovem Lorde Tewkesbury (Louis Partridge) estão prestes a se casar. Carregada com dúvidas que se estendem até o momento da cerimônia, Enola vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando o Dr. Watson (Himesh Patel) aparece e diz a ela que Sherlock (Henry Cavill) foi sequestrado. Para piorar, além de perder o próprio casamento, ela lida com o rapto de Lady Tewkesbury (Hattie Morahan), mãe de seu noivo – e tudo parece estar conectado com uma história de traição e de subjugação promovida pelo Império Britânico ao país insular onde exerce uma influência colonialista desde sempre.

Embarcando em mais uma jornada para resolver um intrincado mistério e reunindo-se não apenas com sua mãe, Eudoria (Helena Bonham Carter), mas com a perigosa mestre do crime Mira Troy, anagrama de Moriarty, (Sharon Duncan-Brewster) – que, de alguma maneira, conseguiu escapar da prisão para dar continuidade a seu reino de caos -, Enola compreende que as coisas não são tão simples quanto parecem e que tanto ela quanto Tewkesbury podem estar envolvidos em algo muito mais complicado que imaginavam.

O sucesso dos dois primeiros filmes não veio apenas com o roteiro de Jack Thorne, que retorna para o terceiro capítulo da saga, mas com a presença do diretor Harry Bradbeer, que imprimiu nas telinhas uma mistura de nostalgia e originalidade e construiu uma identidade única para o arco de amadurecimento da protagonista titular. Para o novo longa-metragem, Bradbeer cede espaço a Philip Barantini – que, de certa maneira, se mantém fiel ao escopo explorado nas entradas predecessoras e consegue arquitetar sequências sólidas e que trazem dinamismo à narrativa, mas que soam muito panfletárias em virtude do idílico palco em que os personagens estão. Em outras palavras, é notável como há uma falta de coesão entre os três atos que compõe a história, como se o projeto tivesse sido pautado em forma episódica e não-sequencial.

Thorne também aparenta estar cansado em mais uma colaboração para o universo ‘Enola Holmes’, preferindo esquadrinhar fórmulas do gênero e clichês diversos em detrimento de um mistério que seja realmente envolvente e recheado de camadas e reviravoltas. Há momentos que chamam a nossa atenção, com destaque às cenas em que o carisma nato de Brown, que de fato nasceu para interpretar a heroína, entra em conflito com a presença imponente de Duncan-Brewster – que se mostra comprometida o suficiente com o vilanesco papel que reprisa e rouba os holofotes com sua presença sobressalente; porém, quando colocamos as engrenagens uma ao lado da outra, notamos que a estrutura outrora inabalável da franquia se transmuta em uma colcha de retalhos costurada às pressas.

O restante do elenco também faz um bom trabalho – e é sempre interessante ver as personalidades conflitantes de Enola e Tewkesbury se complementando pela química de Brown e Partridge. Navegando em meio a mensagens anti-imperialistas que soam contemporâneas, ainda mais em meio ao barril de pólvora em que o mundo vem se transformando nos últimos anos, é possível até mesmo aproveitar as parcas centelhas críticas que se estendem por pouco mais de cem minutos de duração – mas nada que os filmes anteriores já não tenham feito antes.

Se você não está procurando nada além do óbvio ou se está em busca de algo rápido e que entretenha dentro de limites autoimpostos, ‘Enola Holmes 3’ é a pedida certa para um fim de semana tranquilo – mas é inegável dizer que o terceiro capítulo da franquia de mistério já denota um cansaço criativo incisivo e que, infelizmente, entrega um resultado aquém do esperado.

Lembrando que o longa-metragem está disponível na Netflix.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.