quarta-feira , 26 fevereiro , 2025
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Jogos Vorazes: Em Chamas (2)

CHAMAS DA VINGANÇA

Jogos Vorazes é a melhor franquia para o cinema baseada numa obra literária infanto-juvenil. A única outra que ficaria à altura é Harry Potter, mas o material criado pela escritora americana Suzanne Collins consegue ser mais urgente, sério e provocador, mesmo disfarçado em um blockbuster pipoca para ser consumido pelos jovens. O segundo exemplar, Em Chamas, não deixa a bola cair. Vejam se essa ideia soa familiar, ou talvez com uma realidade terrivelmente próxima: Um governo totalitário e corrupto usa a TV como forma de anestesiar o povo, que se banha em grande miséria enquanto os poderosos usufruem de um status intocável.

Essa é a ideia central da obra, que ainda exibe diversas outras subcamadas em sua trama, como a personalidade de cada um dos vários personagens bem explorados. Em matéria de ideias latentes, podemos afirmar que essa produção “mirada ao público jovem” (como é definida ainda por muitos simplesmente por preconceito), consegue ter mais o que dizer até mesmo do que a maioria dos filmes de super-heróis, extremamente populares e que se tornaram um subgênero por si só. Jogos Vorazes é o filme com uma super-heroína que grandes empresas (como a Marvel) jamais conseguiram fazer. E essa é justamente outra quebra de barreira da obra, emplacar uma superprodução de conteúdo protagonizada por uma jovem mulher.

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É claro que aqui também é encontrada muita adrenalina, cenas de ação, aventura, momentos tensos, e o típico triângulo amoroso. Mas dá pena de quem só consegue enxergar isso. Ao contrário da maioria do que é visto dentro do cinema de entretenimento de Hollywood, dá prazer anunciar que a franquia Jogos Vorazes continua a ter o que dizer, e a querer ser relevante e pertinente sobre assuntos como política, sociedade, e por que não, entretenimento. Além do material principal, tudo é tão bem feito e detalhado dentro da produção que acreditamos e sentimos cada momento em relação ao que nos é mostrado na tela. Isso é saber contar uma história.

Um exemplo disso é numa cena durante os jogos, quando uma fumaça ácida é solta, que quando entra em contato com a pele humana a desfigura com terríveis queimaduras instantaneamente. O conceito é tão louco e surreal, que o imagino em qualquer filme de super-herói, como Homem-Aranha, ou Superman, sem que déssemos a devida importância. O segredo aqui é que os envolvidos (diretor, produtores, escritores e atores) criam personagens com os quais nos importamos, mortais e falhos. Então quando uma ameaça chega, mesmo que desse nível de surrealismo, sentimos por eles.

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Em Chamas começa com os vencedores do último jogos vorazes, Katniss e Peeta (vividos por Jennifer Lawrence e Josh Hutcherson respectivamente), precisando manter a ilusão de seu romance para as câmeras. Seu relacionamento se dá pela ameaça direta do presidente Snow (Donald Sutherland), já que a figura de Katniss incitou uma onda de protestos e revoltas contra o governo, em variados distritos. Nesse momento sobra alfinetada até mesmo para a vida forjada de celebridades, que imaginamos ser perfeita, como nos é vendida. São realidades que vão desde casamentos para esconder homossexualidade, até mesmo mudanças bruscas de comportamento, ou melhor dizendo, reinvenção de uma personalidade ou marca (afinal será que existe desespero maior do que as das personas de Lady Gaga e Miley Cyrus).

Assim, o governante escuso logo desenvolve uma forma de calar a rebelião. Formular um novo jogo, comemorando seus 75 anos de existência. Uma edição apenas com ex-vencedores, já que os tais (e não apenas Katniss) representam uma nova ameaça. Dessa forma, Peeta e Katniss voltam aos jogos. Junto com eles uma nova gama de personagens, dentre os quais valem ser mencionados o boa praça e exímio guerreiro Finnick (vivido por Sam Claflin, de Branca de Neve e o Caçador); o cerebral Beetee (Jeffrey Wright, de Cassino Royale); e a temperamental Johanna (Jena Malone, de Sucker Punch – Mundo Surreal). E dentre os novos personagens, ganham destaque o novo programador dos jogos, Plutarch (afinal qual filme não se beneficia em ter o grande Philip Seymour Hoffman no elenco), e o violento militar Comandante Thread (Patrick St. Esprit, de Super 8).

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Em Chamas pode ser considerado até mesmo superior ao seu original. Algo como O Império Contra-Ataca, referência a todas as sequências que excedem os primeiros filmes. Tudo é maior, principalmente o desenvolvimento da trama e dos personagens. A violência, e principalmente a crueza de situações também são elevados, sem nunca serem gratuitas. Esse não é um mal de mentirinha, e sim bem real. No quesito das atuações, a vencedora do Oscar Jennifer Lawrence (menina de ouro de Hollywood) também se excede numa atuação consciente e levemente exagerada (o chamado overacting). Nada que tire o impacto do melhor blockbuster do ano, que chega para deixar Homem de Ferro 3, Thor, e todos os heróis e marmanjos no chinelo.  Esse, assim como a trilogia original da saga espacial de George Lucas, é um filme mais sombrio, e se encaixa perfeitamente como um episódio do meio, já que seu desfecho é brusco e inconclusivo.

Tatuagem

Ferino e artístico, Hilton Lacerda surpreende em seu primeiro trabalho como diretor.

Assim como Febre do Rato, de Cláudio Assis, abriu a quarta edição do Janela Internacional de Cinema do Recife, o primeiro longa-metragem dirigido por Hilton LacerdaTatuagem, iniciou o que foi o sexto episódio do festival. Ovacionados por público e crítica, ambos foram escritos pelo próprio Lacerda – roteirista já conceituado, que coleciona em seu currículo títulos como Amarelo MangaBaile PerfumadoÁrido Movie e Baixio das Bestas –, e se estreitam em vários aspectos sociais e artísticos. Ainda que o maior deles seja mesmo a luta pelo amor incondicional, entre os seres, e a arte surgindo como uma espécie de legenda, em relação à circunstância.

Livremente inspirado na setentista companhia teatral anárquica, Vivencial, e no trabalho do teatrólogo argentino, Túlio Carella, radicado em Pernambuco, Tatuagem se passa no Recife de 1978. Trazendo a história do também grupo de teatro escrachado, Chão de Estrelas, que realiza shows debochados, repleto de cenas de nudez e depravação, em plena época de ditadura militar. O bando é liderado pela figura andrógena, Clécio Wanderley (Irandhir Santos), que mantém um relacionamento aberto com a principal estrela da equipe, Paulete (Rodrigo Garcia).

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A vida dessas pessoas começa a mudar quando Paulete recebe a visita de seu cunhado, Arlindo Araújo (Jesuíta Barbosa), conhecido como Fininha, um garoto do interior que presta serviço militar na capital. Maravilhado com aquele universo mágico, Fininha logo é seduzido pelos encantos de Clécio. Iniciando, assim, uma tórrida paixão que desafiará infinitas barreiras daquele tempo, e que, infelizmente, até hoje, existem. É aí que se encontra a grande sacada da obra, onde o diretor pretendia fazer algo atemporal, sobre as perspectivas do futuro e o sucesso do país. Conseguindo não só tal feito, como indo até mais além.

Diferente do que eu havia idealizado, Hilton Lacerda realiza um trabalho bastante distinto de direção cinematográfica, em relação ao estilo do seu sempre parceiro Cláudio Assis – o que não aconteceu com Matheus Nachtergaele, em A Festa da Menina Morta, que soou bem similar. Se nos filmes de Assis, vemos a constante utilização de câmeras de mão, em meio a grandes planos sequências, obtendo um efeito documental semelhante ao Cinema Novo, com Lacerda a notamos mais estática e artística. O emprego de close-ups é bem explorado e a plástica das cenas mais evidente. Algo satisfatório e surpreendente, do ponto de vista estético.

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No entanto, assim como em toda sua carreira, Hilton aborda temas polêmicos e pungentes como sexualidade, religião, política e o poder judiciário. Ferindo, novamente, pela sua linguagem crua, com cenas impactantes que farão muitos se extasiarem, diante do que estão vendo. E, mesmo que muitas dessas tomadas tenham um forte apelo espetaculoso, a tensão que ronda aquele mundo causa sempre uma sensação de cautela. Mas pequenos gestos de amor dos personagens e a beleza de seus pensamentos também nos dão força para que acreditemos na vitória, dessa batalha covarde e opressora. É triste e decepcionante constatar que, mesmo com o passar dos anos, e de todas as barbaridades presenciadas, grande parte da nossa sociedade ainda tem raízes fortes da abusão ali aludida. Por outro lado, a ciência que escolhemos o caminho certo, é deveras reconfortante.

Um dos principais destaques da fita é o seu elenco. Repleto de jovens atores, muito envolvidos com o projeto, somos energizados pela alegria contagiante daquelas figuras. Irandhir Santos (O Som ao Redor), ator que vem fazendo sucessivamente trabalhos impecáveis, é quem comanda a trupe e vive o papel de Clécio. Lacerda confessa que escreveu o personagem com o ator em mente, concebendo-o especificamente para os seus movimentos corporais e a sua voz. Irandhir mostra versatilidade e engendra um estereotipo quase místico, se entregando por inteiro. Mas quem rouba a cena aqui é o estreante Rodrigo García, que dá vida ao revigorante Paulete. É um monstro quando está em tela, e faz os demais parecerem coadjuvantes. E, mesmo que boa parte de sua personalidade seja explosiva e cativante, quando é exigido num viés mais dramático, García surpreende com sua delicadeza e na veracidade obtida. Jesuíta Barbosa também não faz feio e desempenha bem sua função como Fininha.

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Assim, somos, então, envolvidos pela caravana Chão de Estrelas, no maior estilo Dzi Croquettes (grupo que certamente inspirou muitos outros da época, inclusive o próprio Vivencial), e suas apresentações musicais alegóricas. É bom ressaltar que por trás dessa espetacular trilha sonora, está Dj Dolores (Narradores de Javé), que novamente opta em trabalhar com sons diegéticos. Conferindo maior realismo aquela atmosfera. E também da participação do cantor pernambucano Johnny Hooker, que, em dado momento, faz uma apresentação belíssima e tocante, numa canção contemplativa. Você facilmente sairá da sessão cantarolando os temas de Tatuagem. Exatamente como deve ser, já que a obra e suas ideias precisam urgentemente se difundir nessa sociedade careta.

Texto originalmente publicado na cobertura do VI Janela Internacional de Cinema do Recife.

Cine Holliúdy

Halder Gomes acerta uma voadora na pleura, com sua ácida comédia rapadurenha.

Em 2004, o cineasta cearense Halder Gomes destacou-se internacionalmente por realizar o curta-metragem Cine Holliúdy – O Astista Contra o Caba do Mal, visto em 80 festivais de 20 países e vencedor de 42 prêmios. Alavancando sua carreira consideravelmente, teve as portas abertas e foi contratado para dirigir a continuação de terror Cadáveres. O que acabou não sendo algo proveitoso, do ponto de vista artístico, já que Cadáveres 2 foi terrivelmente ruim. Anos depois, Halder volta para sua terra e, em parceria com Glauber Filho, comanda o filme As Mães de Chico Xavier. Este, por sua vez, teve vários problemas de produção, atrasando assim o seu lançamento, sendo também massacrado pela crítica e não obtendo grande repercussão.

Talvez esses tropeços tenham feito Halder olhar para trás e perceber o incrível potencial deste antigo projeto, tão querido pelos que assim puderam conferir e ansiavam ver o conto ganhar maiores proporções. E, claro, tentar resgatar o prestigio, de anos atrás, com a mesma cartada, unindo o útil ao agradável. E, sim, acredito que ele tenha conseguido perpetrar tal objetivo, pois, ao transformar Cine Holliúdy num divertidíssimo longa-metragem, o diretor já alçou voos inimagináveis, e isso, sem precisar sair de casa.

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Estreando em terras cearenses, duas semanas antes do seu lançamento oficial, o filme levou cerca de 200 mil pessoas aos cinemas pra conferir as aventuras de Francisgleydisson e sua constante luta de manter a sétima arte viva nos corações sertanejos. Já que a estória se passa em Pacatuba, interior do Ceará, na década de 70. Pois, com a chegada das tevês, a população começou a se afastar dos cinemas, tornando os estabelecimentos cada vez mais escassos. É aí que o tal Francisgleydisson entra em cena. Mesmo com todos os empecilhos orçamentários, sociais e políticos, o sujeito tenta, a todo custo, manter o Cine Holliúdy de pé. Passando por cima do seu orgulho e utilizando da esperteza nordestina.

Curioso, desde o primeiro momento, por sua cópia nacional ser exibida com legendas em português, já que é o primeiro trabalho audiovisual falado em “cearês” – uma crítica aos sulistas que tendem a gozar o dialeto nordestino –, o filme tenta se infiltrar, ao máximo, na cultura local, com diálogos espertos e facetos, mas que soam expositivos e nada orgânicos. Principalmente por parte da atriz Miriam Freeland – interpretando Maria das Graças, mulher do protagonista – que ainda carrega vestígios de seu sotaque carioca, sabotando a veracidade de sua personagem e o envolvimento com a família. Até mesmo sua bela aparência não ajuda na caracterização. Por outro lado, é certo que Edmilson Filho seja mesmo o grande destaque da fita. Se doando completamente ao seu Francisgleydisson, o ator possui grande carisma e domina em tela. Com um belo trabalho vocal e corporal, algumas cenas são salvas pelo dinamismo e versatilidade do intérprete.

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Entretanto, Halder Gomes acerta por conceber uma narrativa direta e sucinta, que mantém um ritmo eletrizante e não deixa o espectador perder o foco. A fita é recheada de referências a antigos filmes de artes marciais (ou mesmo a clássicos como 2001 e Cinema Paradiso), de terceira categoria, aqui realizados pela própria produção, e que tem a função de transportar não só a imaginação do garoto Francisgleydisson Filho, mas também a da plateia, para aquela época e situação cultural, em que todos ali achavam tratar-se de grandes obras cinematográficas – quando na verdade eram antigas películas perdidas (ou pedaços delas) que eram exibidas sem a menor preocupação de continuidade.

A paixão de Halder por lutas vem de muito tempo atrás, já que, sendo ele mestre e 4° grau em Tae-kwon-do, trabalhou como dublê, em Los Angeles, e aprendeu por lá tudo que precisava para fazer cinema. Mas não é só em aspectos estéticos que Cine Holliúdy tem seus méritos, o roteiro realizado em cima do vocabulário rapadurenho, é digno de ser estudado por profissionais de gramática. Não pela complexidade do tema abordado, mas sim pela rica coleção de (novos) termos que substituem os conhecidos. Já o seu humor é ácido e politicamente incorreto, sem medo de brincar com temas mais polêmicos como xenofobia, homofobia e piadas com deficientes físicos – que naquela sociedade era (é) algo muito recorrente e, por que não dizer, inocente.

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Assumidamente brega, tanto no nome de seus personagens, quanto nos figurinos, à trilha sonora não poderia ser diferente, é composta por cantores da época como Márcio Greyck, Fernando Mendes e Odair José, que marcaram uma geração, e irão fazer os mais antigos voltarem no tempo.

Assim, em meio a tantas comédias ruins que a Globo Filmes e derivados vem produzindo, nos últimos anos, Cine Holliúdy é um alento bastante satisfatório, e se distancia, significativamente, dessa forma novelada que vem nos sendo empurrada goela abaixo. Ainda que possua algumas ressalvas, essa nova empreitada de Halder Gomes funciona quase que totalmente, pois, nos entrega um humor sincero, repleto de conceitos críticos, sendo eles, dentro e fora da arte, e que, acima de tudo, não deixa de ser cinema de boa qualidade e feito com o coração.

Vazio Coração

(Vazio Coração)

 

Elenco:

Murilo Rosa, Othon Bastos, Larissa Maciel, Bete Mendes, Lima Duarte, Oscar Magrini, Patrícia Naves, Malú Moraes, Vantoen Pereira, Lauro Moreira, Lucas Rosa.

Direção: Alberto Araújo

Gênero: Drama

Duração: 90 min.

Distribuidora: Califórnia Filmes

Orçamento: US$ — milhões

Estreia: 22 de Novembro de 2013

Sinopse:

VAZIO CORAÇÃO narra a história de Hugo Kari (Murilo Rosa), um cantor de renome nacional, que faz uma pausa em sua atribulada agenda para se encontrar com pai, o Embaixador Mário Menezes (Othon Bastos), em Araxá onde a família passava férias no passado. Ali, cercados de boas recordações, pai e filho tentam colar os cacos de uma relação despedaçada por desencontros, conflitos de ideais e, sobretudo, por uma tragédia que os marcou para sempre.

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Jovem & Bela

(Jeune & Jolie)

 

Elenco:

Carole Franck, Charlotte Rampling, Djedje Apali, Fantin Ravat, Frédéric Pierrot, Géraldine Pailhas, Jeanne Ruff, Johan Leysen, Laurent Delbecque.

Direção: François Ozon

Gênero: Drama

Duração: 95 min.

Distribuidora: Europa Filmes

Orçamento: US$ — milhões

Estreia: 22 de Novembro de 2013

Sinopse:

Isabelle é uma bela jovem de 17 anos que, apesar de confortável condição social e familiar, se torna prostituta. Desprovida de culpa, moral ou traço de melancolia, a adolescente desassocia sexo de emoções, e se utiliza de suas aventuras sexuais para suprir algo que vai muito além do poder e consumação da sedução: o interesse em compreender seu próprio corpo. O longa se divide em capítulos que partem do olhar de quatro voyeurs (irmão, cliente, mãe e padrasto). Cada um se passa em uma estação do ano e tem canções compostas pela francesa Françoise Hardy. Competição de Cannes 2013.

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Blood Money – Aborto Legalizado

(Blood Money)

 

Elenco:

Documentário

Direção: David K. Kyle

Gênero: Documentário

Duração: 75 min.

Distribuidora: Europa Filmes

Orçamento: US$ — milhões

Estreia: 15 de Novembro de 2013

Sinopse:

Blood Money – Aborto Legalizado, é o polêmico documentário que disseca com realismo como a indústria do aborto nos Estados Unidos, onde a prática é legalizada há 40 anos, funciona. O filme procura esclarescer e debater o tema, mostrando de que forma as estruturas médicas disputam e tratam as clientes, os métodos aplicados pelas clínicas e o destino do lixo hospitalar, além de tratar dos aspectos científicos, legais e psicológicos relacionados ao assunto, com depoimentos de médicos e outros profissionais da área, de pacientes, cientistas e da ativista política, Alveda C. King, sobrinha do pacifista Martin Luther King, que também apresenta o documentário.

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37ª Mostra de Cinema de São Paulo: Cabra Marcado Para Morrer

REAL E COMPLEXO OU SERÁ QUE O COUTINHO IRIA GOSTAR DESTA RESENHA?

Uma das mais justas homenagens desta 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi a de Eduardo Coutinho. A retrospectiva completa de sua obra (inclusive trabalhos de ficção) foi um reconhecimento daquele que é, sem sombra de dúvidas, o maior documentarias brasileiro vivo. Costumo ser cauteloso com esses exageros, mas o caso permite. As honras contaram também com debates e lançamento de livro pela Cosac Naify (com um de seus trabalhos gráficos mais interessantes que já fez para o cinema).

Coutinho teve muitas fases em sua carreira. Entre curtas e longas, dirigiu documentários como Edifício Master, Peões e Jogo de Cena. Sua obra-prima continua a ser Cabra Marcado Para Morrer.

Nos anos 1960, Coutinho se envolveu com o Centro Popular de Cultura – CPC da União Nacional dos Estudantes – UNE para realizar filmes com comunidades do interior. Nessas viagens, conheceu a história de João Pedro Teixeira, líder da Liga Camponesa da Paraíba que fora assassinado por latifundiário da região, em 1962. O movimento dos colonos lutava pela desapropriação do Engenho da Galiléia e de Sapé, causa da qual saiu vitorioso.

Ao tomar conhecimento do crime, Coutinho decidiu, no começo de 1964, realizar um filme de ficção contando a história de João Pedro. Se chamaria Cabra Marcado Para Morrer. Os próprios colonos atuaram nas gravações e a esposa de João Pedro, Elizabeth Teixeira, fez seu próprio papel. As gravações foram abortadas em pouco tempo em razão do golpe militar de 1964. Os militares apreenderam o material, restando apenas algumas fotos e alguns minutos de filmagem, alegando tratar-se de material de propagando comunista (divulgaram na época, que a equipe era cubana!…).

Em 1981, Coutinho retoma Cabra Marcado Para Morrer como um documentário.  Em um cruzamento costura entre ficção e realidades, o agora documentarista, procura cada um dos colonos que participaram das filmagens originais. Além de exibir para eles os trechos que se salvaram do filme, Coutinho faz entrevistas procurando entender a importância para eles de atuar em um obra ficcional, suas visões sobre o assassinato de João Pedro, como estão suas vidas hoje e o quanto o contexto político cultural brasileiros no período de 17 anos (1964 a 1981) pesou em suas vidas.

Com um jogo de ficção e realidade, e sua intenção de compreender o destino de cada um daqueles trabalhadores, da família de João Pedro e dos Engenhos de Galiléia e de Sapé, Coutinho conseguiu, com ou sem intenção, criar uma documentário de muitas camadas que, tanto pelo o que expõem quanto pelo o que deixa de fora, consegue transmitir a complexidade da sociedade brasileira do período – além de gerar reflexões sobre o Brasil de hoje.

Falei acima “tanto pelo o que expõem quanto pelo o que deixa de fora” porque Coutinho faz em Cabra Marcado Para… uma clara opção pelo ponto de vista dos colonos (opção bastante natural, considerando o período de ditadura). Em outras palavras, em alguma medida, o filme é uma leitura pela esquerda dos acontecimentos desse período de 17 anos. De forma nenhuma é um defeito do filme. É apenas a perspectiva escolhida pelo diretor. Faço questão de ressalto esse pormenor, primeiro porque muitos têm a ideia de que documentários são retratos realistas da vida. NÃO! Documentários são pontos de vista de uma realidade. Segundo, para dizer que essa escolho em nenhum instante faz o filme cair no proselitismo. Coutinho é muito competente para isso.

Assim, pouco importa sua orientação política ou ideológica, ou seu completo desinteresse por política. Cabra Marcado… detém muitas camadas, permitindo que o espectador descubra uma nuance específica do Brasil do período – e mesmo de hoje. Alguns momentos deixam bem clara essa complexidade.

A maioria dos entrevistados – e o documentário como um todo – é um elogio ao movimento camponês. No entanto, um dos trabalhadores rurais entrevistados fala contra esses movimentos. É um depoimento breve, mas que abre uma fresta permitindo uma, digamos, dialética em seu interior. Seriam os métodos usados por João Pedro os melhores? Será que a grandeza de sua luta compensou sua morte brutal? Para esta pergunta, dois outros elementos são importantes.

Durante o filme, as declarações de Elizabeth Teixeira, esposa de João Pedro, trabalham em dois registros: a defesa da luta no campo (especialmente na parte final) e a tristeza pela distância dos filhos.

A simplicidade com que ela fala sobre a luta no campo é contrastante com os discursos dos líderes dos movimentos sociais de hoje (de MST ao Passe Livre). Nota-se nas palavras de Elizabeth Teixeira uma inocência, uma saudável “despolitização”. Hoje, alguns historiadores levantam a hipótese do governo Jango teria tentado um golpe vermelho no Brasil. Fato ou ficção, o documentário deixa claro que o governo estimulou a sindicalização dos trabalhadores e a formação de grupos como o de João Pedro. A pergunta que pode surgir: será que os anseios de Elizabeth Teixeira, explicitados especialmente no final do filme, eram os mesmos dos dirigentes do Brasil (pré e pós 1964)? Possivelmente, a resposta esteja no próprio filme, quando um de seu filho, já em 1981, fala que nenhum – NENHUM – político no Brasil olhou para os pobres!

Há uma tristeza em Elizabeth Teixeira por ter sido obrigada pela perseguição dos militares a se afastar de muitos de seus filhos. Boa parte do filme é dedicada à busca de Coutinho pelos filhos dela. Ao expor o rumo que cada membro dessa família tomou, o filme acaba chamando atenção para algo profundamente triste e revelador: o quanto os fatos/fardos históricos podem pesar na vida das pessoas, especialmente quando falamos de um Estado que decide tratar seu povo como gado. E não falo apenas dos milicos.

Mesmo sem ser intenção do diretor, é possível ler o documentário, do começo ao fim, como uma narração de como processos históricos impessoais/desumanos e coletivistas podem triturar a vida das pessoas.

Independente de sua filiação ideológica confie, o Cabra… é complexo!

Rápida Vingança

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Elenco: Dwayne “The Rock” Johnson, Billy Bob Thornton, Maggie Grace, Carla Gugino, Moon Bloodgood, Oliver Jackson-Cohen.

Direção: George Tillman Jr.

Gênero: Ação/Drama

Duração: 98 min.

Distribuidora: Imagem Filmes

Estreia: Direto em DVD – Julho de 2011

Sinopse:

Rápida Vingança‘ acompanha Driver (‘The Rock’), que passa 10 anos na cadeia após seu irmão ser assassinado em um golpe que eles sofreram durante um assalto, em que participaram. Agora, ele procura vingança contra os ex-companheiros de crime, enquanto tenta descobrir quem matou o irmão.

Curiosidades:

» A Sony Pictures lançaria o filme nos cinemas, mas a Imagem Filmes comprou os direitos.


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37ª Mostra de Cinema de São Paulo: Lições de Harmonia

LIÇÕES DE UMA TERRA DISTANTE

O franzino Aslan (Timur Aidarbekov) segura uma ovelha e amarra as patas dela. Sua avó lhe traz um punhal, que usa para matar o animal. Em seguida, retira tudo que é útil: a pele, as vísceras, as costelas. Este é umas das sequências iniciais de Lições de Harmonia, filme do Cazaquistão vencedor do Prêmio do Júri – Competição Novos Diretores na categoria melhor filme ficção da 37ª Mostra de São Paulo. Nem todos os seus primeiros minutos são tão indigestos. Seu começo é bastante irregular, sem deixar claro a que veio. Mas, assim como na cena do cordeiro, depois da calmaria, Lições de Harmonia começa a expor suas vísceras.

Apesar de vindo de um lugar, para nós, exótico, típico filme que só assistimos em Mostras, seu enredo é atualíssimo. O bullying que Aslan sofre em sua escola. É um realidade tão próximo da gente, que alguns poderiam até pensar que se trata de uma obra feita sob encomenda para o mercado internacional. Prefiro imaginar que tanto quanto os bons corações, a maldade é artigo comum entre crianças e adolescentes.

Bolat (Aslan Anarbayev), líder da gangue da escola, decide que ninguém deve fala com Aslan. Mirsain (Mukhtar Andrassov), aluno recém-chegado da cidade, ignora o aviso e torna-se amigo de Aslan. Daí em diante, o filme desenha a relação conturbada entre os alunos dessa escola.

Aslan é um garoto muito inteligente e tímido. Ele represa ressentimentos. Paulatinamente, observamos seu lado sádico, como a tortura que impinge a uma barata. Se seus ressentimentos geraram isso ou se lhe é algo natural, o diretor Emir Baigazin dispensa explicações.

Talvez pelo burburinho ao redor do filme, ou porque já o assisti na repescagem, não senti tanto o seu impacto. Quem sabe se tivesse visto antes, ou se revê-lo no futuro, o filme tivesse uma nota melhor. Mas, hoje, aprece não mais do que um bom filme vindo de uma terra distante.

Nota: A Repescagem da 37ª Mostra de Cinema de São Paulo encerrou no último dia 07/11.

Minha Vida Dava um Filme

TUDO PODE DAR CERTO (OU TERRIVELMENTE ERRADO)

Minha Vida Dava um Filme (Girl Most Likely) é uma dessas produções que se acham mais do que são. Com uma trama simples e reciclada, recheada de clichês do gênero, e sem momentos de brilho para dar espaço a seus atores, o filme soa extremamente genérico. Essa é também uma produção altamente esquecível, que desafiará nossas mentes por uma lembrança no mês quem vem. A pergunta que fica é: Por que diabos a distribuidora nacional Paris Filmes achou válido lançá-lo nos cinemas, ao invés de no sistema de home vídeo (sua casa mais apropriada).

Aqui temos a protagonista Imogene, vivida pela talentosa e graciosa Kristen Wiig (emergida do Saturday Night Live), uma das personagens mais angustiantes e menos identificáveis do cinema americano recente. Sabemos que Wiig possui talento, e que foi sucesso em Missão Madrinha de Casamento, mas aqui a comediante não tem muito com o que trabalhar em seu novo papel protagonista. Imogene é um ex-talento promissor na juventude, que deixou sua grande chance escapar e desde então viveu na sombra daquele momento. A personagem lembra o protagonista de Ben Stiller no ótimo O Solteirão (Greenberg), de Noah Baumbach.

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A personagem de Wiig é autora de peças, e quando seu namorado a deixa, surta e simula o suicídio. Personagem adorável, não? Ainda estão acompanhando? O ocorrido faz as autoridades responsáveis a colocaram novamente sob os cuidados de sua mãe extremamente disfuncional e odiosa, papel da grande Annette Bening (outra que desperdiça o talento aqui). É muito difícil nos identificarmos e nos importarmos com essas personagens, quando tudo o que queremos é parar de assistir e fugir para bem longe o mais rápido possível. O que acontece é que imediatamente criamos ligação com as pessoas que deveriam ser as antagonistas aqui, e entendemos o seu ponto de vista, em relação à forma como se comportam e se relacionam com a “heroína” de Wiig.

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Eles são os certos, e ela é a errada. Um desastre de trem em forma de ser humano, o qual todos nós temos em nossas vidas, e que na maioria das vezes está acima da redenção. E não estou execrando todos os filmes com personagens incorretos e odiosos, já que existem grandes obras-primas com personalidades assim. O fato é que tais filmes não tentam redimir seus personagens, e os tratam como são. Minha Vida Dava um Filme, escrito por Michelle Morgan (Middle of Nowhere) e dirigido por Shari Springer Berman e Robert Pulcini (Anti-Herói Americano), quer nos fazer acreditar, através de cenas e momentos indigestos, que todas as pessoas ao redor de Imogene são as erradas, frias e sem coração por a tratarem de tal forma. Quando na verdade, no mundo real, essa personagem de baixa autoestima, e perigosa para si mesma e para outros, é a verdadeira ameaça para a sociedade.

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A proposta é tão falha, que todos os personagens apresentados como alvo de tiração de sarro, como o “agente secreto” de Matt Dillon, são na verdade os mais carismáticos, e pelos quais criamos mais afeto. Já os que estão do lado de Imogene, os “bonzinhos”, são os verdadeiros repelentes, como o personagem de Darren Chriss (da série Glee). Ele é um “bom moço” que não hesita em levar uma garota para o quarto que aluga, numa casa de família, para fazer sexo. E se apresenta numa boy band cover de Backstreet Boys (adorável não é, como alguém deixou escapar esse príncipe encantado). Tudo o que os realizadores tentam aqui dá errado, e se volta contra eles emitindo o efeito oposto. Esse é um exercício cínico e sem alma, que representa tudo o que de pior existe no cinema americano formulaico.  Ainda existe espaço para personagens caricatos, como o irmão que desenvolveu uma concha de molusco em tamanho humano (é claro, por que não?); e o desfecho acontece da forma mais improvável, cartunesca e inacreditável do cinema nos últimos anos.