Crítica | Concorrente ao Oscar 2025, O Reformatório Nickel é um Retrato Brutal do Racismo

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Com duas indicações ao Oscar 2025 — Melhor Filme e Roteiro Adaptado —  O Reformatório Nickel (Nickel Boys) é uma obra de impacto visual e intenso apelo emocional. Lançado no Brasil diretamente no streaming, o filme chega ao Amazon Prime Video no dia 27 de fevereiro. Este é o primeiro longa-metragem de ficção de RaMell Ross, cujo trabalho singular transforma a narrativa do romance homônimo de Colson Whitehead em uma experiência sensorial e subjetiva, mesclando memórias e realidades brutais por meio de abordagem estética única, perceptível desde a primeira cena. 

A trama segue Elwood (Ethan Herisse), um jovem negro vivendo em Tallahassee, na Flórida, dos anos 1960, sob o regime segregacionista racial. Criado pela avó (Aunjanue Ellis-Taylor), Elwood é um estudante exemplar que, inspirado pelos discursos de Martin Luther King, se interessa pelo ativismo político. Um equívoco policial, no entanto, o leva à infame Nickel Academy, uma instituição de correção juvenil inspirada em um local real, onde os horrores do racismo, abuso e violência ocorrem de maneira aterradora e desumana.

RaMell Ross opta por um estilo visual subjetivo, explorando inicialmente apenas o ponto de vista de Elwood. O espectador enxerga somente o que o personagem vê, como em Enter the Void: Viagem Alucinante (Gaspar Noé, 2009). Essa escolha cria uma atmosfera onírica, em que as cenas se sobrepõem e distorcem, espelhando a fragmentação da identidade do protagonista no reformatório. Conforme a narrativa avança, entretanto, o ponto de vista de Turner (Brandon Wilson), companheiro de Elwood na Nickel, é introduzido, aumentando a percepção do público sobre a história e fortalecendo o laço entre os dois personagens.

Diante do brilhante trabalho da fotografia de Jomo Fray e do design de produção de Nora Mendis, o realismo cruel do filme é amplificado. Os artistas recriam com maestria  a atmosfera opressora da academia. As cenas de abuso e desigualdade racial são expostas sem exageros dramáticos, mas de forma contundente e incomônada, tornando a experiência emocionalmente devastadora. Embora a montagem de Nicholas Monsour seja, por vezes, lenta e intrincada, o longa se apropria desse embaralhamento visual para expressar a agonia dos personagens.

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O Reformatório Nickel deseja provocar questionamentos e sensações, muitas vezes desagradáveis. Com transições temporais entre as lembranças do passado no reformatório e a vida adulta em Nova York, acompanhamos Elwood como um sujeito mutilado, ausente e ainda tentando curar as suas feridas ao encarar as reportagens sobre os corpos não identificados encontrados nos antigos terrenos da Nickel Academy

Os sentimentos confusos dos personagens Elwood e Turner são representados pela figura recorrente de um crocodilo à espreita, como se, naquele turbilhão de lembranças e emoções, algo estivesse pronto para devorá-los caso não prestassem atenção. O simbolismo é forte no roteiro, e muitas cenas parecem desconexas, prolongando as experiências de angústia em demasia. 

Ainda sob a perspectiva do olhar de Elwood observamos um revelador e incoveniente encontro com outro ex-interno anos depois, em um bar. Habilmente filmada, a cena destaca-se pela justaposição entre o passado e o presente, trazendo à tona um dos segredos mascarados em nosso campo de visão. A contraposição constante entre os estabelecimentos destinados a meninos brancos e os destinados a meninos negros reforça como a violência racial do passado continua a assombrar o presente.

Com um estilo narrativo inovador e corajoso, O Reformatório Nickel  é uma obra ao mesmo tempo brutal e bela sobre a resiliência de gerações de jovens negros submetidos a um sistema falho. Inspirado pela filmografia de Barry Jenkins (Se a Rua Beale Falasse), o cineasta RaMell Ross entrega um filme intenso, cuja mensagem enfática desafia o espectador a confrontar as sombras do passado e suas reverberações no mundo contemporâneo.

Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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