Ao contrário do que muitos desavisados possam achar, o Homem Invisível não é um super-herói. Muito pelo contrário, o personagem foi criado no livro do icônico autor de ficção científica e terror, H.G. Wells (1866-1946), dono de obras de sucesso como Guerra dos Mundos e A Máquina do Tempo. Logo, o personagem se viu como parte do acervo dos clássicos filmes de Monstros da Universal entre as décadas de 1930 e 1940.

O mais recente exemplar a usar como base o texto de Wells chega aos cinemas do mundo (incluindo o Brasil) neste fim de semana. O Homem Invisível (2020) é uma reimaginação do clássico, o adaptando para os dias de hoje e discutindo temas necessários em voga como o abuso doméstico e a emancipação da mulher.

Crítica | O Homem Invisível – Uma História Clássica em perfeita Sintonia com a atualidade

Em homenagem a este ótimo reboot, o CinePOP decidiu dar uma olhada (com o perdão do trocadilho) em todas as formas que o personagem já teve nas telonas (e também nas telinhas) desde sua criação. Vem com a gente conferir.

O Homem Invisível (1933)

Aqui foi onde tudo começou, nesta adaptação do livro de H.G. Wells para o cinema, como citado. O filme foi dirigido pelo lendário James Whale, também responsável por outros dois verdadeiros clássicos da história do cinema, do terror e da Universal: Frankenstein (1931) e A Noiva de Frankenstein (1935). O diretor inclusive ganhou uma biografia em 1998, intitulada Deuses e Monstros, onde foi interpretado pelo grande Sir Ian McKellen.

Na trama do filme, um cientista (interpretado por Claude Rains) descobre a fórmula da invisibilidade e usa a si mesmo como cobaia. Ele consegue o resultado, mas no percurso começa a perder sua sanidade, se tornando um homicida. Contracenando com Rains no papel da mocinha da história, Gloria Stuart, ninguém menos do que a famosa velhinha do adorado Titanic (1997) e dos memes que seguiram.

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O Homem Sem Sombra (2000)

Talvez o filme mais vivo na memória do grande público atual seja esta reimaginação do clássico citado acima para a década passada. Nas mãos da Columbia (Sony), o grande diretor Paul Verhoeven recriou a obra nos moldes de um thriller hi-tech arrojado, onde testou como nunca anteriormente os limites dos efeitos especiais. Este é um filme fortemente baseado na tecnologia da época, na frente e atrás das câmeras. De fato, neste quesito, O Homem Sem Sombra consegue sobressair até mesmo ao recente O Homem Invisível, fazendo muito mais pelos efeitos de sua época, do que o atual faz para as produções de sua geração – o novo filme é mais centrado em clima e atmosfera do que em efeitos.

Nesta história, Kevin Bacon protagoniza como um cientista brilhante, mas egocêntrico e narcisista, que resolve se tornar cobaia de seu experimento, após testá-lo em animais. Para variar, ele enlouquece e começa a usar sua nova condição para fazer tudo que nunca pôde, ou que a moral permitia – como diz o slogan do filme: “o que você faria se soubesse que não pode mais ser visto?”.

A Volta do Homem Invisível (1940)

Sete anos depois de sua primeira aparição nas telonas, o personagem retornava em sua primeira sequência, novamente produzida pela Universal Pictures. Aqui, no entanto, a história era outra, com outro diretor, outros atores e personagens. A única coisa que permanecia era o tema da invisibilidade e o fato de ser levemente baseada na obra do autor H.G. Wells.

Desta vez quem protagoniza é o ícone dos filmes de terror Vincent Price, na pele de um homem acusado e preso injustamente pela morte do próprio irmão. Na cadeia, ele é visitado pelo amigo Dr. Frank Griffin, irmão do cientista Jack Griffin, o Homem Invisível original, que lhe passa a fórmula ajudando-o a fugir da cadeia se tornando invisível. Agora, o cientista precisa encontrar uma cura antes que o amigo fique completamente insano como seu irmão. O longa foi indicado ao Oscar de efeitos já naquela época.

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O personagem do Homem Invisível sempre foi associado ao terror e ao drama. Então nada melhor do que para uma nova versão desta história chamar um verdadeiro ícone do gênero para a direção, certo? Errado! A brilhante ideia da Warner foi contratar o veterano John Carpenter (Halloween) para dirigir uma… comédia sobre o tema!

Tudo bem, para sermos justos, esta é a adaptação de um outro livro, escrito por H.F. Saint, que se baseia na ideia original para criar uma espécie de paródia, mais voltada para o romance ao invés do terror. Mesmo assim, não deixa de ser curiosa esta escalação equivocada de cineasta. Na trama, quem “some” é Chevy Chase, caçado pelo agente vivido por Sam Neill. A “sereia” Daryl Hannah vive o interesse amoroso do protagonista. O filme se tornou um dos fracassos na carreira de Carpenter e dos envolvidos, mas hoje é visto com olhos nostálgicos.

A Mulher Invisível (1940)

Quem disse que se tornar invisível é coisa só para os homens. E aqui, a emancipação da invisibilidade ocorria ainda na década de 1940. E não, não estamos falando da super-heroína da Marvel, parte do grupo Quarteto Fantástico. E nem da comédia nacional protagonizada por Luana Piovani e Selton Mello. Nova aposta da Universal Pictures em sua franquia do Homem Invisível, desta vez focando em uma mulher como protagonista, num projeto mais voltado para o humor, deixando um pouco o terror e o suspense de lado.

Na trama, uma modelo (Virginia Bruce) decide se tornar cobaia para o experimento de invisibilidade de um cientista, a fim de acertar algumas contas do passado. Este é o primeiro filme da franquia a não utilizar o personagem Griffin, o homem invisível original, ou sequer um membro de sua família, em sua história. Além disso, ao invés de um soro, a invisibilidade aqui é criada através de uma máquina. O cientista da vez é o Professor Gibbs, papel do lendário John Barrymore, avô de Drew Barrymore.

O Invisível (2007)

Baseado no livro de Mats Wahl, este filme é uma das inúmeras tentativas de modernizar o conto do Homem Invisível – desta vez, no entanto, muito mais focado no drama de um jovem. O chamariz aqui é a direção de David S. Goyer, grande nome para os fãs de super-heróis, tendo criado o roteiro da trilogia O Cavaleiro das Trevas.

Na trama, um promissor estudante (papel de Justin Chatwin) é atacado e deixado para morrer, ficando desaparecido. Neste processo, seu espírito se separa do corpo, e ele se torna invisível para todos, menos para a responsável por sua condição, uma jovem delinquente interpretada por Margarita Levieva. Fechando o elenco principal no papel da mãe do protagonista, a vencedora do Oscar, Marcia Gay Harden (Pollock, 2000).

Espião Invisível (1942)

Seguindo pela clássica franquia da Universal, que tal transformar a história de H.G. Wells em um filme de guerra e espionagem? Este é o caminho que os produtores decidiram levar a franquia neste quarto exemplar da série. Muito mais uma aventura, com leves toques de humor, a história mostra Frank Raymond (Jon Hall), neto do Homem Invisível original, em posse da infame fórmula. Mesmo a pedido de seu governo durante a Guerra, o protagonista a considera muito perigosa para ser usada.

Mas os eventos de Pearl Harbor finalmente o convencem a utilizar o experimento e ser enviado como agente americano invisível para combater os nazistas. Toma essa Bastardos Inglórios!

The Invisible Man (2000-2002)

Impulsionado pelo sucesso de O Homem Sem Sombra, no mesmo ano era lançada uma série de mesmo tema, que durou duas temporadas de 45 episódios. Na trama, um ladrão e golpista (papel de Vincent Ventresca) recebe uma segunda chance ao ser convocado a trabalhar para uma agência secreta, ganhando a oportunidade de se tornar invisível para suas missões.

Esta, no entanto, não foi a primeira série a utilizar o tema clássico. Em 1958 estreava a primeira série do Homem Invisível, num programa de 30min de duração, no qual um cientista britânico se tornava invisível acidentalmente. O programa durou duas temporadas de 27 episódios até 1960. Já na década de 1970, o ator David McCallum (O Illya da série O Agente da UNCLE) era o homem invisível na pele de um cientista trabalhando para uma agência particular. O seriado durou somente uma temporada de 12 episódios, de 1975 a 1976.

A Vingança do Homem Invisível (1944)

Se você acha que franquias bagunçadas é um luxo dos anos 1980 ou de hoje, se engana, pois desde que o cinema é cinema produtores se mostram desconectados com a lógica, visando somente o lucro financeiro. Assim, o ator Jon Hall retornava à série cinematográfica do Homem Invisível para este quinto filme. Porém, vivendo outro personagem que nada tem a ver com a mitologia original, a não ser o nome, Robert Griffin.

Apesar do sobrenome, o personagem não é membro da família clássica, e sim um fugitivo em busca de vingança. Ele é ajudado por um cientista (e quem mais?) chamado Doutor Peter Drury, vivido por John Carradine , pai dos atores David Carradine (o Bill, de Kill Bill), Keith Carradine e Robert Carradine (o Lewis da franquia A Vingança dos Nerds). Com a fórmula, ele se torna invisível e parte para a vingança contra seus desafetos.

Abbott & Costello e o Homem Invisível (1951)

Os humoristas Budd Abbott e Lou Costello são verdadeiros marcos da comédia norte-americana e contemporâneos de lendas como Os Três Patetas e o Gordo e o Magro – embora no Brasil nunca tenham emplacado como seus colegas.

Parte de seu ato para revitalizar suas carreiras foi a parceria com a Universal pegando carona nos filmes de monstros da casa. Assim, os comediantes se encontraram com o Frankenstein e o Lobisomem, por exemplo. E claro, no início da década de 1950, foi a vez do Homem Invisível receber a visita dos humoristas neste longa. Utilizando muito mais a premissa das continuações do que do original, os investigadores particulares Abbott e Costello ajudam um homem acusado injustamente de um crime, que se tornou invisível para escapar das autoridades.

Bônus:

A Liga Extraordinária (2003)

Tudo bem, aqui o Homem Invisível não é o centro da história. Mas o famoso quadrinista Alan Moore, autor da HQ na qual o filme é baseado, usou a história de clássicos personagens da literatura para criar uma equipe de super-heróis diferente. De H.G. Wells usou o tema, mas criou o personagem Rodney Skinner (Tony Curran), um ladrão que teria roubado a fórmula do cientista original.

Curiosamente, o resultado do filme deixaria Moore tão desanimado com as adaptações de suas obras, que nunca mais deixaria que seu nome fosse creditado a tais filmes. Fora isso, A Liga Extraordinária também foi responsável pela aposentadoria de dois grandes nomes do cinema, o diretor Stephen Norrington (Blade – O Caçador de Vampiros) e o astro Sean Connery, que protagoniza o filme.

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