Setor comumente é afetado pelo cenário político do país

Em meados de setembro o governo do Afeganistão, representado por uma delegação, se reuniu com representantes do grupo Talibã em Doha para iniciarem conversas de paz. Dessa forma o recente número de embates armados, que nos primeiros seis meses de 2020 resultaram em quase 1.300 mortes de civis segundo a ONU, entre ambos poderia ter um fim. O Talibã comandou o país entre 1996 e 2001 sob um rígido código de conduta baseado em preceitos do islã.

Como consequência muitas formas de arte e comunicação que se encontravam no país foram encerradas, em particular o cinema. Existem dois anos diferentes que, sob diferentes perspectivas, servem para definir quando o cinema foi introduzido no país. O primeiro é 1946 com a estreia de Ishq Wa Dosti, porém, a obra foi filmada na Índia e para muitos não recebe o crédito de ser algo produzido pela nação árabe.

A segundo data é 1970, quando foi lançado Rozgārān (este que na verdade é um apanhado de três filmes diferentes produzidos durante os anos 60); o primeiro filme realizado por um estúdio afegão. Esse crédito foi conferido por uma manchete do jornal The Kabul Times (de propriedade estatal), na época, em que era conferido o título de primeiro filme do país.

Cena de Ishq Wa Dosti de 1946

No artigo When Did Afghan Cinema begin? A History of Kabul’s Filmic Pasts feito para a Ajam Media Collective, o autor Chihab El Khachab aponta um pouco do porquê esse é considerado o primeiro filme do país; “Enquanto que diferentes em estilo e conteúdo, os filmes que compõem Rozgārān foram os primeiros a ser produzidos pela Afghan Film, a instituição encarregada da produção e distribuição junto ao ministério afegão da informação e cultura… ”. 

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Independente da época tida como marco inicial, é entendido que entre 1961 e 1980 o cinema afegão sofreu uma expansão de popularidade impressionante. A maioria das obras produzidas seguia a cartilha de representar a sociedade em todas as suas disparidades, não muito diferente do movimento “Nova Hollywood” que surgiu na década de 70. 

Esse período teve algumas obras que se tornaram bastante identificadas com o momento, tais como: Mardara ra Qawl ast e Saboore Sarbaz, ambas datando do final dos anos 70. Durante essa década é importante frisar que, politicamente, o país vivia sob uma administração comunista iniciada em 78 que, da mesma forma que já havia percebido desde 1922 na Rússia, sabia o potencial do cinema como veículo de educação para as massas.

No mesmo artigo mencionado anteriormente, Chihab El Khachab chama atenção para a época de meados dos anos 80, quando o governo encomendou a produção de diversos filmes com temáticas nacionalistas como Sabūr-e Sarbāz em 1985 e Hamasa-ye Ishq em 1989. Importante frisar que durante todo o período comunista do Afeganistão, a indústria de cinema contou com apoio constante pois, seguindo a experiência do que já estava consolidado em Moscou, o governo liderado pelo Partido Democrático do Povo do Afeganistão poderia contar com uma eficaz arma de propaganda.

Segundo Malek Shafi’i em seu artigo The Cinema´s Background Afghanistan! o momento em que o apoio soviético se tornou mais forte ao cinema é bem definido a partir de certo ponto. “A ajuda americana ao emergente cinema afegão parou completamente após o golpe comunista em 1978… e essa é a época em que a ajuda da União Soviética vem no lugar da ajuda americana e os cineastas afegãos tentam fazer filmes promocionais e que elogiem a revolução”.


A escalada de violência no país até 1979 assume contornos dramáticos; com constantes embates entre grupos guerrilheiros fundamentalistas do islã, que não aceitavam ações do governo comunista (este que seguia a cartilha do ateísmo) principalmente com relação a dar mais liberdade individual para as mulheres, e com forças do próprio governo. Com medo de perder o controle sobre o país a União Soviética comanda uma invasão em 1979, inicialmente com planos de fornecer apoio logístico ao governo local mas depois assumindo as operações totalmente.

Em uma guerra que durou dez anos e terminou com a retirada russa, seguiu-se uma verdadeira guerra civil no Afeganistão para decidir quem assumiria o comando. Se iniciou então um período de paralisação do cinema nacional que se intensificou após a ascensão do Talibã em 1993. Seguindo uma postura extremamente fundamentalista, diversos cinemas foram fechados e cópias de filmes foram destruídas, além de vários cineastas terem sido forçados a abandonar o país.

Somente após a queda do regime em 2001 (mas com a guerra ainda em andamento) e a instauração de um governo provisório que o cinema afegão passou a se reestruturar e voltar a produzir novos conteúdos. Um dos casos mais simbólicos foi o filme Osama (2003) que venceu o Globo de Ouro no ano seguinte de melhor filme em língua estrangeira.

Muito ainda precisa ser reconstruído no cinema afegão. Décadas de guerra e de esforços voltados para produzir propagandas partidárias jamais produziram o incentivo necessário para que a indústria cinematográfica local pudesse florescer. Ainda assim, cineastas autorais seguem se aventurando em produções independentes ou em documentários e isso é o melhor sinal possível de que nada está perdido.

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